Tribuna
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“Ficamos como náufragos à espera de resgate”, a saga de um casal sem gasolina no sertão

As rodovias são para muitos uma segunda casa. Por isso, atravessar o sertão durante a greve dos caminhoneiros está longe de ser uma experiência tediosa

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Morar no sertão nordestino é viver em movimento. Por conta das históricas carências da região, falta de água, bens e serviços culturais precarizados, carência de atendimento médico, etc., a população do sertão do Pajeú circula intensamente pela região em busca de serviços que não são oferecidos em suas cidades de origem. As rodovias federais e estaduais são para muitos uma segunda casa. Por isso, atravessar o sertão durante a greve dos caminhoneiros  está longe de ser uma experiência tediosa. 

Na manhã de sexta-feira passada, eu e Andreia, minha companheira, saímos de Serra Talhada em direção a Recife. Uma viagem que costumamos fazer com frequência e que, na pior das hipóteses, fazemos em pouco mais de seis horas. Nos primeiros quilômetros, ainda nos arredores de Serra Talhada, nos deparamos com o primeiro bloqueio. Uma dezena de caminhoneiros orientava os carros de passeio, pneus velhos fechavam a via, algumas churrasqueiras com o carvão ainda em brasa. Sorrimos para os manifestantes (nenhuma mulher nesse primeiro bloqueio) e seguimos em frente. Duas horas depois, em Arcoverde, outro bloqueio. A mesma cena. Homens e mulheres pedem para diminuirmos a velocidade e passamos por um corredor humano. Algumas bandeiras do Brasil. Música sertaneja alta e barracas com café e bolo ao largo da pista. Naquele momento, começamos a perceber que a greve (ou locaute, estávamos começando a nos apropriar de termos que até então eram alienígenas para nós) poderia ser mais grave do que pensávamos. Passamos a observar os postos. Muitos estavam fechados. Com cavaletes ou cones a impedir o acesso à bomba. Mais adiante, em um daqueles postos sem bandeira, típicos da região, a placa com letras grandes e improvisadas anunciava cinicamente: “Gasolina em Promoção: R$8”.

Diante dos sinais, decidimos que completaríamos o tanque no primeiro posto disponível. Provavelmente em Caruaru. Mais alguns quilômetros e um ônibus corre na contramão com o pisca alerta disparado. Ao fundo, uma fumaça intermitente na pista. Diminuo a velocidade e sigo em frente. Não ouso ir pela contramão, mas ligo o pisca alerta. Poucos metros adiante, com o tradicional corredor de pessoas e caminhões, me deparo com uma linha de pneus em chamas, impedindo a passagem. Uma ambulância congela em frente a um pequeno espaço livre. Desiste de furar o bloqueio e segue o exemplo do ônibus. Ao lado da pista, em uma pequena estrada de terra paralela à rodovia, uma fila se forma. Eu permaneço em frente aos pneus queimados, aguardando uma oportunidade de furar o bloqueio e seguir em frente. Uma picape alarga o caminho. Um manifestante, incitado por um grupo, empurra alguns pneus em chamas e fecha o restante da linha com pedras. Eu desisto. Sigo pela contramão e engulo meus brios. Na estrada de terra, penso que ficarei algumas horas na fila enorme de carros que se forma. Duas mulheres, que observavam os carros sonâmbulos em fila, indicam que há uma estrada livre e nos dá as indicações. Foi aí que Andreia e eu percebemos que não chegaríamos em Recife. O caminho alternativo, com terra batida em algumas partes e com uma paisagem de tela de William Turner, parecia alheio ao caos da estrada. Carros se acotovelavam e quebravam o silêncio.

Ao final da estrada de terra, finalmente a rodovia. No painel do carro, a luz amarela acende. Aquele desvio consumira mais combustível do que imaginávamos. Estávamos na reserva e não conseguiríamos chegar ao nosso destino. A cidade mais próxima era Gravatá, uma pequena cidade turística cerca de 80 quilômetros de Recife. Um pouco incrédulos, estacionamos o carro e percorremos a cidade. Nada de combustível nos postos. Segundo o frentista de um dos postos, a cidade estava assim desde quinta-feira, sem previsão de retomada do abastecimento. Encontramos uma pousada e fizemos dela nosso posto avançado. Com a televisão ligada e em constante diálogo com amigos pelo celular em busca de informações, ficamos como náufragos a espera de resgate. No sábado, nova peregrinação pelos postos. Nada. Voltando do almoço, um cortejo de carros, caminhões e ônibus, decorados com a bandeira do Brasil, faziam um buzinaço. Um dos automóveis exibia uma faixa pedindo intervenção militar. Seus ocupantes eram dois meninos negros, sorridentes e agitados pela balburdia do cortejo. Lembrei tristemente dos muitos meninos negros mortos nas periferias de São Paulo durante a ditadura. A época da Rota na Rua. Pensei nos que ainda são mortos em todas as periferias do país. Meninas e meninos negros. Lembrei tristemente de um tio morto durante o período de chumbo. Esse seria o primeiro indício de que nossa experiência de náufragos em Gravatá seria uma lição das profundas contradições que vivemos desde 2013.

No domingo de manhã, novo cortejo. Sigo da janela. O buzinaço agora é acompanhado por um carro de som que toca um hino nacional desafinado. Palavras de ordem pedem intervenção militar. Agora o número de picapes é maior.

Em nossa casa, seis gatos nos esperam. Preocupados, decidimos ir até a rodoviária em busca de passagem para casa. Conseguimos para segunda-feira de manhã. Na rodoviária nos despedimos felizes por um de nós conseguir chegar em casa. Fico por conta do carro, não descobrimos nenhum estacionamento para deixá-lo durante esse período de indeterminação. Fico como guardião do símbolo de nossa vida pequeno burguesa. De volta ao hotel, faço o chekout. Ainda tenho tempo de ver pela janela uma passeata de estudantes com a cara pintada de verde e amarelo, entoando palavras de ordem, “independente de ideologias”. No almoço, um carro de som convida a população a demonstrar seu apoio aos caminhoneiros, ajudando a bloquear a rodovia 232. Mais bandeiras do Brasil. Lembro das bandeiras nos caminhões do dia anterior pedindo intervenção militar. Em que momento as cores da bandeira passaram a se confundir com ditadura em nossa história recente? Em que momento intervenção militar se tornou esse fantasma diante da concretude de mortos e desaparecidos? Na televisão, um velho presidente tenta convencer os sonâmbulos, atordoados pelo esboço distópico dos últimos dias, que ainda tem alguma credibilidade.

Consigo um quarto em uma pousada baratinha ao lado de um posto. Sigo aguardando. Como o velho coronel de Garcia Márquez em “Ninguém escreve ao coronel”. Viver no sertão é viver em movimento.

Rogério Fernandes é professor substituto de letras na UFRPE e mora em Serra Talhada.

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