Presidente da Nicarágua envia o Exército a um dos focos dos protestos contra seu Governo

Ortega ofereceu horas antes “sentar-se à mesa” com o setor empresarial, após três dias de violência e dez mortos no país

Um manifestante caminha entre barricadas em Managua.
Um manifestante caminha entre barricadas em Managua.Alfredo Zuniga (AP)

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Após três dias de manifestações, 10 mortos e dezenas de feridos, o Governo de Daniel Ortega se comprometeu a dialogar para tentar deter os protestos contra seu Executivo sandinista, iniciados por sua intenção de reformar a Previdência Social. Horas depois de realizar esse suposto gesto, na madrugada de sábado seu Governo enviou tropas do Exército à cidade de Estelí – localizada a 185 quilômetros de Managua –, transformada em um dos focos dos protestos. Imagens da imprensa local mostravam confrontos entre agentes antidistúrbios e manifestantes e incêndios na cidade, até há uma semana bastião da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional). As tropas entraram como apoio à Polícia e reprimiram os manifestantes. A imprensa local mostrou as imagens de militares armados patrulhando o centro da cidade. Foi reportada a morte de um jovem, mas não foi confirmada pelas autoridades.

Enquanto isso, a Conferência Episcopal da Nicarágua emitiu durante a madrugada de sábado um comunicado condenando a repressão contra os manifestantes e exigiu do Governo a revogação das reformas à Previdência Social, que causaram os protestos. “Pedimos às autoridades do país que escutem os gritos dos jovens nicaraguenses e a voz de outros setores que se pronunciaram a respeito das reformas e as revoguem”, se lê no comunicado dos bispos. “Uma decisão unilateral sempre traz consigo a instabilidade social. Retificar as decisões tomadas é sinal de humanidade, escutar é caminho de sensatez, buscar a paz a todo custo é sabedoria”, acrescentaram.

Horas antes Rosario Murillo, vice-presidenta e esposa de Ortega, informou que o presidente falaria à nação ao meio-dia de sábado, hora local da Nicarágua, ao lado do chefe do Exército, Julio César Avilés, e a chefa da Polícia Nacional, Aminta Granera. Murillo, entretanto, não se referiu à repressão oficial feita contra as manifestações que ocorreram em todo o país e que deixaram uma dezena de mortos, uma rádio incendiada, saques e edifícios públicos ardendo em chamas.

“O Governo aceitou voltar à mesa de diálogo. Ao escutar o chamado do COSEP [Conselho Superior da Empresa Privada] respondemos a esse chamado e confirmamos nossa disposição de continuar o diálogo”, disse Murillo, que afirmou que a reforma da Previdência Social que causou a indignação de milhares de nicaraguenses não é mais do que “uma resolução administrativa”, ainda que na realidade o presidente Daniel Ortega a tenha promulgado por decreto e publicado a reforma no Diário Oficial do Estado, uma decisão unilateral que foi repudiada pelas principais câmaras empresariais do país.

É preciso ver se após o envio do Exército a proposta de diálogo continua. Também qual será a resposta da cúpula empresarial, que na quinta-feira contou com a presença de todos os seus membros diante da imprensa exigindo o fim da repressão, o respeito ao direito da população de manifestar seu descontentamento e o fim da censura à imprensa.

“Daniel Ortega fará um jogo de cena no sábado”, disse ao EL PAÍS a jornalista e líder feminista Sofía Montenegro. “Isso é uma tentativa de mediação, mas não muda o panorama. O fato é que há uma lei sobre a Previdência Social, publicada em La Gaceta, que causou um movimento de indignação. A irritação da Nicarágua é de tamanha magnitude, que o Conselho Superior da Empresa Privada (COSEP, a principal câmara empresarial do país) caminha sobre uma fina linha vermelha. Qualquer acordo entre Ortega e o COSEP é um acerto entre cúpulas, porque o COSEP é mais um representante da sociedade civil, mas não representa a população”, explicou Montenegro. “Uma verdadeira mesa de diálogo precisa ter representantes de todos os setores, um debate nacional público e transparente. Antes disso deve-se suspender imediatamente a repressão, restabelecer a liberdade de expressão e deixar de perseguir os estudantes”, disse a analista.

Dessa forma se abre um novo cenário na Nicarágua, em que é preciso ver se os empresários voltarão ao modelo de “consenso” em que discutiam todos os assuntos importantes somente com o Governo, sem levar em consideração outros interlocutores ou será aberto um verdadeiro diálogo público em que outros setores da sociedade participem.

Também é preciso ver se acabará a indignação de centenas de milhares de nicaraguenses que foram às ruas em todo o país manifestar um descontentamento incubado por anos. Na sexta-feira se mantinha a repressão contra milhares de estudantes que se manifestavam nas principais universidades públicas do país. O número de mortos chegou a dez, entre eles Álvaro Conrado, de 15 anos, e um estudante universitário identificado como Michael Cruz.

“Lamentamos a perda de valiosas vidas de nicaraguenses. Estamos falando de dez irmãos mortos. Amanhã (sábado) falaremos dos nomes dessa tragédia”, disse a vice-presidenta Murillo.

Managua era um barril de pólvora na noite de sexta-feira. Em vários pontos da cidade era possível ouvir detonações e disparos. Os manifestantes queimaram várias Árvores da Vida, extravagantes monumentos de ferro e luzes que Murillo mandou colocar em toda a cidade e que são considerados o símbolo do poder de Ortega e sua esposa. As imagens mostravam grupos de nicaraguenses lutando sob o forte sol para derrubar esses blocos de metal. Também foram queimados enormes painéis publicitários do casal presidencial, mas as cenas mais dramáticas ocorreram em León, onde incendiaram a sede do INSS e outros edifícios públicos, além da Rádio Dário, uma emissora crítica ao Governo; em Masaya, onde dezenas de pessoas construíram barricadas nas ruas e foram registrados saques a comércios; e a turística Granada, onde ocorreu uma tentativa de incendiar a Prefeitura. Em Managua os manifestantes tentaram queimar a Rádio Ya, ligada ao Executivo.

A crise vivida pela Nicarágua demonstrou que Ortega só está disposto a negociar à beira do abismo, mas também tornou evidente um mal-estar nacional com o regime que passou aos estudantes das universidades públicas, até agora silenciados pelo Governo. São eles que darão o tom nas próximas horas.

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