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“Senti que amanhã minha escola podia ser atacada”

Participantes das manifestações contra as armas explicam as razões dos protestos ao EL PAÍS

Washington / Miami / Nova York
Um garoto leva na manifestação de Washington um cartaz que pede a reforma na política de armamentos.
Um garoto leva na manifestação de Washington um cartaz que pede a reforma na política de armamentos. AFP

As manifestações contra as armas que aconteceram no sábado nos Estados Unidos foram uma catarse coletiva e uma demonstração de força. Um aviso poderosíssimo ao Partido Republicano e ao lobby das armas, com os quais muita gente perdeu a paciência diante dos massacres em massa no país. Foram manifestações inusuais devido à presença maciça de crianças e adolescentes, um grupo de futuros eleitores incentivados pelo ativismo dos alunos da escola de Parkland (Flórida), onde 17 pessoas morreram em fevereiro. Acompanhados por pais e avós, as três gerações consideraram ter atingido com seu clamor um ponto de inflexão no debate estagnado sobre o controle de armas.

“Leis do século XVIII não podem regular as armas do século XXI”, “Dinheiro ensanguentado da NRA [sigla da Associação Nacional do Rifle em inglês]”, e “Nunca mais”, eram alguns dos cartazes na manifestação que reuniu multidões em Washington e que foi dos arredores da Casa Branca até o Capitólio.

Hayden Bush-Resko, de 13 anos, e Oden Weiland, de 14, na marcha de Washington ampliar foto
Hayden Bush-Resko, de 13 anos, e Oden Weiland, de 14, na marcha de Washington

Chloe Dascalos, de 19 anos, viajou de Dayton (Ohio) à capital do país com 50 colegas de escola. Carregava um cartaz que dizia: “Nosso sangue, suas mãos”. “Vim aqui porque senti que amanhã minha escola podia ser atacada”, disse. “Só posso esperar que esta seja uma demonstração tão grande da América que não posso imaginar que nada vá mudar”.

Oden Weiland, de 14 anos, e Hayden Bush-Resko, de 13, vieram com os pais de uma cidadezinha da Virgínia até Washington. Um dos seus cartazes clamava: “Olá NRA, saúde meus pequenos amigos”. Os dois estudam em casa, mas explicam que têm muitos amigos que desde o massacre da Flórida estão aterrorizados com a possibilidade de que um tiroteio como esse se repita em suas escolas.

“Armar os professores seria um erro, porque eles podem ameaçar as crianças”, disse Oden sobre a principal proposta do presidente Donald Trump para evitar novas matanças nas escolas. “Não deveria haver armas nas escolas. As armas de assalto são usadas apenas para fazer mal às pessoas”, acrescentou Hayden.

Diego, de 12 anos, na marcha de Nova York, com um cartaz que diz:
Diego, de 12 anos, na marcha de Nova York, com um cartaz que diz: "Eu sou o seguinte?"

Mensagens semelhantes foram ouvidas nas outras manifestações nos EUA. No protesto de Parkland, uma aluna de outra escola da cidade que não foi atacada, Autumn McKinney, de 15 anos, e cujo amigo Peter Wang (14 anos) morreu no massacre de 14 de fevereiro, disse: “Quero que ele [Nikolas Cruz, o atirador da escola] saiba que apesar de ter feito algo horrível, ao mesmo tempo deu origem a uma coisa magnífica [o movimento antiarmas]. Ele não ganhou”.

Outra estudante que viajou em solidariedade de Ohio a Parkland, Taylor Allgood, de 16 anos, protestou contra a violência causada pelas armas de fogo: “Temos de nos engajar. Eu vejo o futuro”, disse em referência à sua confiança de que os Estados Unidos ponham fim ao problema.

No protesto de Nova York, outro que atraiu muita gente, Kyra, de 12 anos, disse que “não importa se ainda não pode votar”. Mas estava convencida de que são uma massa grande o suficiente para fazer sua voz ser ouvida. Judy, de 74 anos, não se lembrava de uma mobilização similar em todo o país contra as armas. “Esses garotos estão dando um exemplo aos idosos”, admitiu emocionada, “não via a hora de que esse momento chegasse. Eles têm muita coragem”.

Tai, com 14 anos, na marcha de Nova York avisa que é um futuro votante
Tai, com 14 anos, na marcha de Nova York avisa que é um futuro votante

“Sou professora”, explicou Hillary, “não uma agente de segurança”. No cartaz que segurava com as duas mãos era possível ler todas as atividades que ela faz como professora durante o dia: aulas, leitura, escrita, meditação. “Desculpe, meu prato está cheio”, disse. As crianças, insiste a professora, não devem ter medo de ir à escola. Ao lado dela, Diego carregava um cartaz perguntando se sua escola seria a próxima.

Malinda explica que cada pessoa tem um motivo para protestar, “mas somos todos contra as armas”. Kristina, por exemplo, faz parte de um grupo de 30 pessoas que estava completamente de branco na manifestação e avançava em silêncio representando as crianças que morreram no massacre da escola primária de Sandy Hook. Tai, de 14 anos, diz aos políticos que hoje é um menino, “mas dentro de quatro anos poderei votar”.

Joseph, de 18 anos, espera que as mais de cem manifestações nos EUA gerem uma discussão maior sobre o controle de armas. Ele também participou, ao lado da mãe, da manifestação pelos direitos das mulheres em janeiro, coincidindo com o primeiro aniversário da presidência de Donald Trump. “Esta não fica nada a dever àquela”, disse, “nós, jovens, somos mais importantes do que as armas”.

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