Seleccione Edição
Login

Por que há tão poucos chineses calvos e tantos tchecos?

Os asiáticos são os menos atacados pela alopecia.

A Espanha, por outro lado, está entre os primeiros colocados no ranking da calvície

O ator chinês mais popular, Jackie Chan, ostentando sua saudável cabeleira.
O ator chinês mais popular, Jackie Chan, ostentando sua saudável cabeleira. Getty

Aos 63 anos, Jackie Chan, o astro chinês de maior bilheteria em Hollywood, ostenta uma cabeleira com a qual grande parte dos homens só pode sonhar. O atual chefe de Governo da China, Wen Jiabao, de 75 anos, mantém uma cabeleira tão densa que lembra a de alguém com vinte e poucos anos. O ex-astro do NBA Yao Ming, de 37 anos, é outro exemplo famoso da boa saúde capilar dos habitantes do gigante asiático. Esse país, onde apenas 19,24 % dos homens padecem de alopecia, é o que tem menos calvos, segundo estudos realizados nos últimos anos. No extremo oposto está a Espanha, que, com 42,6 % de homens calvos, ocupa o segundo lugar de um ranking liderado por República Tcheca (42,79 %). O terceiro colocado é a a Alemanha, com 41,24 % de casos de alopecia.

Mas qual a razão para que, a 8.787 quilômetros da Espanha, a porcentagem de homens com alopecia seja tão baixa?

Há muitos genes envolvidos e a diferente combinação entre eles resulta em variantes genéticas relacionadas aos hormônios que tornam o homem mais propenso à calvície na Europa”

Esther Rebato, antropóloga

A enzima prodigiosa

Com 30 anos de trajetória profissional, o endocrinologista Raffaele Carraro explica que uma das chaves está em uma enzima que é menos ativa nos asiáticos, e principalmente nos chineses, do que nos caucasianos. Essa enzima presente no bulbo capilar transforma a testosterona em DHT (di-hidrotestosterona). A DHT atua sobre o bulbo capilar reduzindo seu tamanho e atrofiando-o até provocar a queda do cabelo. “Por terem essa enzima menos ativa, os asiáticos possuem níveis menores de DHT e, portanto, perdem menos cabelo”, diz Carraro.

Cabelo liso e grosso

Outro aspecto que se destaca no cabelo dos asiáticos é a tendência a ser liso e grosso, o que permite melhor aderência ao couro cabeludo do que o cabelo crespo. Um cabelo liso tende a ser mais resistente do que o ondulado. Há outros fatores determinantes. “O estresse, o tabagismo, o álcool e os aspectos nutricionais são hábitos que repercutem, desde o momento da concepção, na futura saúde capilar do ser humano”, acrescenta a antropóloga física Esther Rebato.

Os genes estão do lado deles

O dermatologista Alejandro Martín-Gorgojo, da Clínica Dermatológica Internacional, observa que o comportamento dos genes é decisivo. “A população chinesa tem menos predisposição genética à queda de cabelo devido a características específicas dos genes que formam os cromossomos”, diz Martín-Gorgojo.

O ex-astro do NBA Yao Ming, rodeado de compatriotas (com cabelo), a caminho do Congresso Nacional em Pequim, em março de 2017.
O ex-astro do NBA Yao Ming, rodeado de compatriotas (com cabelo), a caminho do Congresso Nacional em Pequim, em março de 2017. Gety

Esther Rebato concorda com a tese de Martín-Gorgojo: “Há muitos genes envolvidos e a diferente combinação entre eles resulta em variantes genéticas relacionadas aos hormônios que tornam os homens mais propensos à calvície na Europa”.

Para explicar essa teoria é preciso voltar milhares de anos atrás e analisar a história evolutiva do ser humano. “Desde o seu surgimento, o ser humano sempre se reproduziu com indivíduos que coabitavam nas proximidades, de maneira que as mesmas cargas genéticas foram sendo constantemente transmitidas à prole. Antes, o ser humano não tinha a capacidade de se deslocar milhares de quilômetros. Essas limitações de movimentação resultavam em cargas genéticas características de determinadas zonas geográficas”, diz Rebato.

Os chineses comem bem e isso é fundamental para conservar os cabelos

Os estudos ressaltam que a boa alimentação e a qualidade do sono repercutem na conservação dos cabelos. O bioquímico T. Colin Campbell, especialista em nutrição, afirma em seu livro The China Study (O Estudo da China) que a dieta rural chinesa é a mais benéfica para a saúde. Legumes, verduras (alface, acelga, couve e brotos) e algas estão presentes nas mesas chinesas desde a primeira hora do dia. Esses hábitos alimentares fornecem os grandes nutrientes de que o ser humano necessita e ajudam a preservar a saúde capilar dos homens.

O chef Dabiz Muñoz, do restaurante DiverXO, com três estrelas Michelin, também considera a comida asiática uma das mais saudáveis do mundo. “A forma chinesa de cocção de legumes na wok é uma das mais respeitosas com os alimentos. Além disso, o arroz [um dos alimentos mais consumidos por lá] é rápido de cozinhar, muito nutritivo e pode acompanhar qualquer coisa”, disse Muñoz em uma entrevista ao Vanitatis.

Outra peculiaridade da alimentação chinesa é a escassa quantidade de açúcar que consomem. Nas sobremesas utilizam quantidades mínimas de açúcar e suas bebidas não costumam ser adoçadas. A lactose tampouco faz parte de sua cultura gastronômica. A maior parte de seus pratos exclui laticínios. Tradicionalmente nunca bebem leite e a maioria deles tem intolerância à lactose.

E agora a má notícia para o cabelo dos chineses: a ameaça de um estilo de vida cada vez mais ocidentalizado

No entanto, apesar de ainda ser o país menos acometido pela alopecia, a China testemunha um aumento da calvície em sua população. “Os cidadãos estão mudando seu estilo de vida. Estão se ocidentalizando e isso tem um reflexo direto na saúde capilar”, diz a antropóloga física Esther Rebato. Isso acontece porque os fatores ambientais, embora não sejam os mais determinantes, também influenciam na queda de cabelo.

Uma prova da ocidentalização em curso é a expansão da rede McDonald’s no país asiático. O império do fast food, que abriu seu primeiro restaurante na Califórnia em 1937, demorou 50 anos para chegar à China. Aconteceu em 1990, quando a primeira loja da rede foi aberta em Pequim. Hoje, 28 anos depois, são 2.500 estabelecimentos, aos quais devem se acrescentar mais 2.000 nos próximos cinco anos. Os Estados Unidos, no topo do ranking de países com maior número de McDonald’s, têm atualmente 14.000 lojas. Steve Easterbrook, diretor da multinacional, afirma que a China logo será o maior mercado do McDonald’s fora dos EUA.

Uma das consequências da entrada desse tipo de grandes multinacionais no mercado chinês é a expansão dos maus hábitos ocidentais no território asiático. As clínicas de implante já estão esfregando as mãos...

MAIS INFORMAÇÕES