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Mercados argentinos estão preocupados com possível vitória de Cristina Kirchner nas primárias de domingo

Campanha para as primárias legislativas termina com muita incerteza e a explosão de um pacote-bomba na Indra, a empresa responsável pelo sistema de apuração dos votos

elecciones argentina PASO
Cristina Kirchner conclui a campanha para as eleições primárias de 13 de agosto em La Matanza. Telam

É apenas o primeiro round das eleições legislativas de outubro, sem efeitos práticos reais, mas na Argentina tudo parece estar pendente do que acontecerá no domingo, nas PASO, as primárias obrigatórias que funcionarão como uma espécie de sondagem maciça para verificar o estado de ânimo dos eleitores. A campanha terminou na quinta-feira – na Argentina há dois dias de reflexão – em um ambiente de incerteza total, com os mercados muito nervosos diante da possibilidade de que Cristina Fernández de Kirchner vença na província de Buenos Aires. E com uma inesperada e inquietante notícia: um pacote-bomba explodiu nos escritórios da capital da empresa espanhola Indra, responsável pelo sistema de apuração dos votos. O ataque deixou duas pessoas com ferimentos e queimaduras, mas fora de perigo.

A economia argentina depende do Estado como muito poucas e, portanto, da política, e nas últimas semanas o Banco Central vem gastando muito dinheiro das reservas para evitar que o dólar dispare diante do temor dos investidores de que uma vitória de Kirchner na província de Buenos Aires enfraqueça o Governo de Mauricio Macri e freie sua política de reformas e ajustes especialmente nas muito subvencionadas tarifas de energia e transporte. Os analistas acreditam que se ela ganhar o presidente terá muito mais dificuldade na redução do déficit público, prevista para depois das eleições.

Kirchner: “Às vezes não fomos tão humildes quanto deveríamos, temos de reconhecê-lo”

Os candidatos encerraram a campanha nesse ambiente de incerteza que beneficia os dois principais grupos, o de Kirchner e o de Macri, que tem como principal candidato seu ex-ministro da Educação, Esteban Bullrich. A ex-presidenta, que se manteve praticamente em silêncio durante toda a campanha para deixar falar em suas mensagens os cidadãos que sofrem com a crise, atacou o rival em seu último comício em La Matanza, o município mais populoso da periferia de Buenos Aires e um dos mais pobres, coração do seu núcleo duro nos subúrbios. “Eles deixaram Bullrich escondido, pediram para ele não abrir a boca”, riu Kirchner a respeito dos erros durante a campanha do adversário. Era, de novo, outra política, completamente diferente daquela que batia em tudo e em todos em seus longuíssimos discursos antes da derrota de 2015. Inclusive admitiu que naquela época pecou por soberba, algo inédito nela, que nunca reconheceu erros. “Às vezes não fomos tão humildes quanto deveríamos, temos de reconhecê-lo.”

Apoiada pelo consultor espanhol Antoni Gutiérrez Rubí, Kirchner, esquematizou a campanha como um plebiscito sobre Macri para recuperar a classe média que lhe deu as costas em 2015 e agora sofre com a crise. “Ajudem-nos a convencer o Governo de que tem de mudar o rumo da economia. Precisamos dizer que as coisas não podem continuar como estão. Quando forem votar, mesmo que estejam bem, pensem nos milhões de pessoas que estão mal”.

Enquanto isso, Macri lança a mensagem contrária: se ela ganhar, os investidores irão embora, o país afundará, explica. E a ataca cada vez com mais dureza. Chegou inclusive a dizer que a ex-presidenta tem “um problema psicológico”, estimulando assim a tese instalada de que ela está doente. No encerramento da campanha do Cambiemos em Córdoba, a segunda província do país e responsável em grande parte pela vitória de Macri em 2015, o presidente voltou a fustigar Kirchner. “Custamos a encontrar o ponto de partida porque tinham deixado um Estado quebrado”, disse, observando que seu Governo “colocou o país em marcha depois de quase seis anos sem crescimento”.

Mauricio Macri
Em Córdoba, Mauricio Macri encerra a campanha de seus pré-candidatos ao Congresso.

Macri e o Governo se apoiam na mensagem de que se o kircherismo ganhar tudo se complicará no que se refere aos nervos que os mercados mostraram em relação às pesquisas de intenção de voto, que a colocam em primeiro lugar, embora nos últimos dias o partido no poder parece ter recuperado terreno. E o dado que mostra mais claramente esse nervosismo é a cotação do dólar.

"Os argentinos pensam em verde", diz uma frase que se ouve desde os anos 70, quando o país estava imerso em sucessivos ciclos de expansão e crise econômica que ainda persistem. Desde então, o dólar se tornou o grande refúgio dos poupadores. Tanto que a taxa oficial convive ao longo dos anos com o dólar negro, paralelo, blue, contado com liqui, exportador e uma longa lista de versões mais ou menos originais. Agora chegou o dólar eleitoral. A moeda norte-americana rompeu duas vezes a barreira dos 18 pesos desde o fim de julho, obrigando o Banco Central (BCRA) a queimar reservas para mantê-lo baixo.

“Custamos a encontrar o ponto de partida porque tinham deixado um Estado quebrado”

A quarta-feira foi um dia de recorde de vendas, com 584 milhões dólares (aproximadamente 1,845 bilhão de reais), soma que não era atingida num único dia desde outubro de 2015. Eram tempos de restrições à compra de moeda norte-americana e o kirchnerismo fez malabarismos para conter a alta do dólar antes das eleições presidenciais, em que acabou sendo derrotado por Macri. Um ano e meio depois o ruído eleitoral voltou, e o BCRA teve de intervir no mercado.

Desde sexta-feira passada já vendeu mais de 1,248 bilhão de suas reservas internacionais para conter a pressão cambial. As razões desse aumento têm origens externas, como a incerteza global por causa da tensão entre os EUA e a Coreia do Norte, mas principalmente internas. O Governo não conseguiu garantir a vitória na província de Buenos Aires, onde enfrenta Kirchner, e os investidores estão assustados.

A inflação também não ajuda muito. O INDEC, escritório oficial de estatísticas, divulgou nesta sexta-feira que o aumento dos preços em julho foi de 1,7% e acumula 13,8% desde janeiro. O mais recente aumento mensal deixa cada vez mais distante a meta oficial anual de 17% e põe em evidência os pontos fracos da batalha contra os preços. A categoria habitação, água, gás, eletricidade e combustíveis subiu 24,1% desde o início do ano e os gastos com a educação quase 23% .

De qualquer forma, o dólar é o melhor termômetro do humor dos investidores. O atacadista – que compra e vende em grandes quantidades – já ganhou 0,33% até agora em agosto, 11,47% desde janeiro e 20% no interanual. No domingo, as eleições primárias obrigatórias determinarão o verdadeiro poder eleitoral de Kirchner. E dependerá do resultado que o dólar se agite ainda mais até a eleição definitiva, em 22 de outubro. A Argentina viverá assim vários meses de enorme incerteza, com tudo dependendo das eleições, algo que acontece a cada dois anos – presidenciais e intermediárias –, uma rotina que impede qualquer política econômica de médio prazo e que leva muitos analistas e até mesmo o presidente a considerar que todas as eleições deveriam se concentrar a cada quatro anos, mas até o momento ninguém se atreve a mudar o sistema.

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