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Judith Jones, a editora que resgatou o ‘Diário de Anne Frank’

Também escritora, ela conseguiu que o manuscrito da menina holandesa se popularizasse nos Estados Unidos

A editora Judith Jones, em 2009
A editora Judith Jones, em 2009

Judith Jones, editora e escritora norte-americana nascida em 1924 na cidade de Nova York, concluía as receitas de seu livro de memórias, The Tenth Muse: My Life in Food (2007), se perguntando: What else? (O que mais?). Vítima de Alzheimer, Jones faleceu no último dia 2 de agosto, aos 93 anos. Era uma mulher versátil e curiosa que, em 1952, foi às lágrimas lendo o Diário de Anne Frank, autora da autobiografia mais famosa do Holocausto. Ficou tão comovida que resgatou o manuscrito da pilha de outros rejeitados por sua empresa, a editora Doubleday, a maior dos Estados Unidos nos anos cinquenta. Graças a Jones, a obra, até então traduzida apenas para o alemão e o francês, foi apresentada ao grande público.

Quando perguntada sobre como soube que o Diário de Anne Frank era um livro importante, lembrou da reação de seu chefe. Ele disse o seguinte: “Você está falando desse livro, o da menina?”. Jones havia lido o livro em uma só tacada e defendeu ardentemente a prosa da adolescente holandesa, que descreve o medo e a raiva por sua prisão pelos nazistas, mas também seu primeiro amor e o sonho de liberdade à medida que seu tempo de esgotava. “É uma dessas obras inesquecíveis”, costumava dizer, para depois afirmar que sua profissão consistia nessa difícil tarefa de “estar no lugar certo na hora certa”. Traduzida em 70 idiomas, a obra de Anne Frank foi publicada em cerca de 60 países.

Dez anos depois desse sucesso, Jones já estava trabalhando como chefe de edições para a editora Alfred A. Knopf, também em Nova York, e teve outro feliz palpite. Desta vez, o livro era totalmente o oposto da obra de Anne Frank. Estava assinado por uma tal de Julia Child, que se tornaria uma renomada chef, escritora e apresentadora de TV nos EUA, introdutora da cozinha francesa em seu país. Em vez de um diário íntimo, o livro de Child, assinado com outras duas amigas, era um grande volume de cerca de mil páginas. O título original, Receitas Francesas para Cozinheiros Norte-Americanos, era descritivo, mas sem nenhum gancho. A já falecida editora já havia morado em Paris e era uma grande conhecedora da mesa francesa, então testou vários pratos propostos. Quando viu que até o boeuf bourgignon, um ensopado de carne com vinho tinto da Borgonha, ficou bom, decidiu que era hora de perder o medo. Com seu novo título, Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Culinária Francesa), o livro estava pronto para o sucesso.

Child “descrevia as receitas com senso comum, indicava os utensílios adequados e alertava que erros seriam cometidos, mas acrescentava soluções”, disse Jones ao The New York Times em 2004, ano em que Child faleceu. “Uma boa receita deve criar seu próprio vocabulário. Precisamos de palavras que nos façam sentir a textura da massa do pão em nossas mãos antes que soe o plop na tigela onde a colocamos”, acrescentou. Embora o livro de receitas tenha obtido vendas regulares durante anos, seu enorme salto à fama ocorreu em 2009, com a ajuda do filme Julie & Julia, dirigido por Nora Ephron e protagonizado por Meryl Streep (como Child) e Amy Adams (no papel da blogueira Julie Powell, que testa os ensopados). Jones, também editora para o inglês dos escritores franceses Camus e Sartre e do norte-americano John Updike, se animou com o livro de Child para publicar receitas de outras chefs.

Filha do advogado nova-iorquino Charles Bailey e de Phyllis Hedley, Jones tinha uma irmã, Susan, e cresceu em Manhattan. Licenciada em 1945 em Filologia Inglesa, morou em Paris com seu marido, Evan Jones, um crítico gastronômico que conhecera na capital francesa em 1948. Ele já tinha duas filhas, e adotaram um menino e uma menina. Escreveram três livros de receitas juntos e, anos após ficar viúva, publicou Pleasures of Cooking for One (2009). Uma espécie de livro de autoajuda para a velhice sem perder o amor pela boa comida

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