Um cinto de segurança para as empresas

Cada vez mais companhias contratam profissionais especializados em identificar os riscos que pairam sobre sua atividade

Fundação Aquae.
Fundação Aquae.

Entrar no carro e colocar o cinto de segurança antes de ligar o motor é um hábito tão automático no Brasil que ninguém imagina o que é dirigir sem essa proteção. Até 1994, porém, o uso não era obrigatório e o país ostentava números recordes de acidentes de trânsito no mundo. Desde então, novas políticas de prevenção para gerenciar os riscos de acidentes no trânsito têm sido implementadas. Maior fiscalização para motoristas que ingerem bebidas alcoólicas, redução de velocidade em vias urbanas e uso de capacete obrigatório para motociclistas. Desta forma, o país logrou reduzir as mortes dos motoristas.

Atenuar fatores que possam provocar acidentes de percurso vale tanto para o trânsito como para as empresas, que hoje já incluem a gestão de risco como uma expertise necessária para atingir os resultados esperados. Muito nova no vocabulário das corporações brasileiras, as equipes de gestão de risco, bem como suas funções, ainda têm sido apresentadas a muitas empresas nacionais. Como explica Roberto Zegarra, vice-presidente sênior da Marsh Risk Consulting na América Latina e um dos pioneiros da função no país, toda corporação vai ter riscos em todas as suas áreas – planejamento, controle, finanças, tecnologia, recursos humanos, etc. Por isso, os profissionais do setor têm de olhar esses riscos de forma holística, trabalhando com cada departamento, para que eles sejam mínimos.

O advogado Gustavo Lemos Fernandes, do escritório Emerenciano, Baggio e Associados, explica que esse gestor precisa conhecer a empresa como um todo e ter um plano de gerenciamento de risco, que deve ser elaborado ao lado de todas as equipes. Fernandes, que acaba de participar de um um curso sobre o tema na Universidade de São Paulo (USP), afirma que esse profissional deve trabalhar ao lado de outras duas equipes dentro das corporações: as de compliance e as de crise. “São três figuras que têm de caminhar muito perto e de forma harmônica”, diz. Zegarra também alerta para a conveniência de se ter uma equipe, não um único profissional.

A cultura de se ter uma equipe atuando na empresa de olho nos riscos do negócios vem crescendo nos últimos anos, não por coincidência, quando a crise econômica recrudesceu e as companhias tiveram de olhar para dentro. Levantamento da Marsh de 2016 com 330 empresas mostraram que só 1 em cada 4 tem indicadores de gestão de risco em suas operações. Somente 31% das companhias têm uma implementação total da gestão de risco. Quase metade (49%) têm lideranças para gerenciamento de risco. 52% têm apenas um manual e 55% elaboraram um mapa estratégico. De todo o modo, experts da área reconhecem que há um aumento expressivo de profissionais. “Muito mais companhias têm feito questão dessas pessoas em seus quadros”, diz Ricardo Basaglia, diretor executivo da Michael Page. O executivo da empresa de recrutamento e seleção explica que a independência do gestor de riscos está diretamente ligada a quem ele se reporta. “Se é para o presidente ou o conselho administrativo, ele tem mais liberdade de ação”, diz Basaglia.

E o que um gestor de riscos precisa ter? Segundo Zegarra, ele deve ser experiente e versátil, para conseguir trabalhar com experts de todas as áreas. “A certificação profissional, que existe, é importante, mas não é o fundamental”, afirma. Besaglia diz que não precisa ter uma formação específica, mas precisa ser analítico e ter uma boa visão de negócios, para não correr riscos de engessar a companhia. O executivo da Michael Page afirma que, em grandes empresas, um profissional ganha entre 8.000 e 10.000 reais. Mas eles podem chegar a salários de 30.000 a 35.000 – aqueles que se reportam aos presidentes. “É um mercado em desenvolvimento, com poucos profissionais com desenvoltura na área”, diz. Zegarra dá uma boa definição sobre sua função e sobre aqueles que afirmam que o gestor de risco engessa a empresa. “Não somos um freio, somos como um cinto de segurança, para que a companhia atinja seus objetivos na velocidade certa.”

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