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Ataque ao Parlamento venezuelano amplia divisões no chavismo

Condenação ao ataque contra a Assembleia Nacional uniu ala crítica do governismo à oposição

Parlamento Venezuela
A procuradora-geral-adjunta Katherine Harrington tenta entrar na sede do Ministério Público em Caracas. EFE

Um dia depois do ataque de um grupo chavista à Assembleia Nacional, que deixou vários deputados feridos, a indignação da oposição venezuelana cresceu na quinta-feira diante das condenações dos Governos da América Latina e Europa, e, paralelamente, ampliou as divisões internas do chavismo. Além disso, a proximidade da eleição de uma Assembleia Constituinte com a qual Nicolás Maduro pretende mudar a Carta Magna e neutralizar a oposição, no dia 30, agrava o enfrentamento entre as duas partes. Sem diálogo político, a Venezuela se aproxima do abismo.

A condenação pelo ataque ao Parlamento, invadido na quarta-feira – quando a Venezuela celebrava o seu Dia da Independência – por dezenas de partidários de Maduro munidos de com paus e facas, uniu o chavismo crítico e a oposição. Vários ex-ministros do Governo de Hugo Chávez classificaram a violenta investida e a posterior ocupação do edifício, que se estendeu por horas, como uma expressão que nada tem a ver com o legado do falecido líder bolivariano.

Nessa disputa acirrada por resgatar a herança de Chávez dos atuais rumos impostos por Maduro, a mais nova adesão à fileira dos desertores foi a do ex-ministro de Finanças Rodrigo Cabezas. “Essa selvageria primitiva e irracional não é venezuelana e, portanto, tampouco do povo que seguiu Chávez”, afirmou.

A tensão entre os críticos do chavismo e o regime se aprofunda. A promotoria negou nesta quinta-feira a entrada em sua sede da procuradora-geral-adjunta Katherine Harrington, designada pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), sob controle do Governo, e que não reconhece a procuradora-geral Luisa Ortega Díaz, agora uma das vozes mais críticas contra o Executivo.

Vias paralelas

A chegada de Harrington, que figura numa lista de chavistas submetidos a sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, se transformou numa autêntica novela acompanhada por repórteres e câmeras de TV. A nova procuradora-geral-adjunta deixou na grade do edifício uma carta assinada pelo presidente da Sala Constitucional, Juan José Mendoza, notificando a sentença que autoriza a nomeação dela. Diante da tensão, Ortega Díaz se apressou em responsabilizar o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional e a Guarda Nacional pelo que possa ocorrer aos funcionários da procuradoria. “Denunciamos a pretensão arbitrária da procuradora-geral-adjunta nomeada pelo TSJ de ingressar no Ministério Público”, escreveu Ortega Díaz no Twitter.

Essa cena mostra até que ponto a Venezuela está sendo regida por instituições paralelas. O Supremo e o Governo, por um lado, rejeitam e consideram ilegais todos os atos da Assembleia Nacional; por outro, o Parlamento e o Ministério Público, apesar das circunstâncias, se aferram às suas competências e buscam fórmulas legais para burlar as sentenças judiciais com as quais o regime tenta encurralá-los.

A guerra de poderes encaminha o país a uma crise inédita em sua história recente. O último choque, com o ataque ao Parlamento, agravou ainda mais a situação e gerou repúdio internacional. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, solicitou nesta quinta-feira ao Conselho Permanente do bloco – onde recentemente não houve acordo sobre uma condenação ao regime de Maduro – que realize uma sessão extraordinária “para abordar os recentes acontecimentos da crise política” na Venezuela.

Os venezuelanos, enquanto isso, precisam adaptar seus horários aos protestos diários, aos bloqueios viários e às batidas policiais em busca dos organizadores dos distúrbios. Mas os protestos não cessam. Na terça-feira houve confrontos em vários bairros populares de Caracas. Em San Juan, no centro da capital, um suposto membro das tropas chavistas morreu em meio a choques com grupos criminais que aproveitam a insegurança para dirimir suas diferenças com a polícia. Esta morte se soma às mais de 90 registradas nos últimos três meses de conflito.

Peña Nieto condena “atentado” contra parlamentares venezuelanos

Silvia Ayuso

A crise da Venezuela foi parar no Eliseu. Os presidentes da França, Emmanuel Macron, e do México, Enrique Peña Nieto, discutiram durante seu jantar de trabalho nesta quinta-feira, na sede da presidência em Paris, o tema latino-americano que mais preocupa ambos os lados do Atlântico atualmente: a crise venezuelana e a espiral de violência que na quarta-feira resultou em um ataque de grupos chavistas à Assembleia Nacional, onde deputados e visitantes foram agredidos. Um fato que, para Peña Nieto, só pode ser definido – e condenado –como um “atentado”.

A invasão da Assembleia nacional “atenta contra a democracia e é um atentado à tarefa atribuída ao Parlamento desse país”, afirmou o presidente mexicano em uma declaração conjunta com seu colega francês no Palácio do Eliseu.

“O México reitera o que postulou à Venezuela: que os venezuelanos resolvam suas diferenças entre si, mas que deve haver vontade entre as partes para poder se sobreporem a essas diferenças”, salientou.

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