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Um Macron para o Brasil?

O fato de que hoje ninguém seja capaz de definir Macron politicamente já constitui uma nova realidade

Emmanuel Macron em Paris.
Emmanuel Macron em Paris.Aurelien Meunier (Getty Images)

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Se o candidato Emmanuel Macron se tornar o novo presidente da França, será um fenômeno a ser estudado também no Brasil, um país em busca de um novo líder. O fenômeno Macron, que, não sendo de esquerda, já conta com os votos dos socialistas porque sua vitória significaria uma vitória da Europa, é importante por refletir algo que está em ebulição no mundo inteiro.

Filósofo e estudioso de Hegel e de Maquiavel, o jovem ex-ministro da Economia do Governo socialista é um produto da pós-verdade política, espaço onde se quebram os paradigmas e as certezas do passado para dar lugar a algo distinto que ninguém sabe ainda definir, mas que está no inconsciente de uma sociedade que colocou em crise aquilo que já é conhecido, em busca de uma nova visão da história. O fato de que hoje ninguém seja capaz de definir Macron politicamente, mesmo que ele tenha feito parte de um Governo socialista, já constitui, em si, uma nova realidade. Ele não pode ser rotulado como de direita, pois é ao mesmo tempo um revisionista da esquerda francesa histórica, derrotada no último domingo nas eleições. Macron não se opõe aos valores de uma certa esquerda. Seria possível dizer que até mesmo pretende repensá-la. Ele próprio afirmou: “Haverá momentos difíceis na história da esquerda, pois será preciso repensar as certezas do passado, que, na minha opinião, são estrelas mortas”. E disse que não desejava, para a França, “uma Cuba sem sol”.

É curioso que Macron, que teve como objeto de sua tese o grande filósofo Hegel, criador da teoria da tese, antítese e síntese para a análise da história, seja apresentado como um antissistema. Ele o é e não é, exatamente como Hegel, para o qual chega uma hora em que uma determinada situação, no caso, política, entra em crise e se torna necessário criar uma antítese para que se chegue a uma nova síntese. Hegel não era, porém, um antissistema. Para o filósofo alemão, a antítese não significava uma revolução, como entenderam alguns de seus estudiosos. A antítese é uma superação da tese a fim de se criar algo melhor.

Daí por que os hoje chamados de antissistema como Macron são ao mesmo tempo defensores do sistema, ainda que renovado. Não são contrários à política. Apenas advogam a necessidade de uma nova política, positiva, criativa, uma política do “sim” e não da negação, do diálogo e não do confronto. O fato de os socialistas já terem anunciado o seu voto em Macron o legitima como um político ex-socialista, mas não de direita, e ao mesmo tempo sinaliza para a existência de uma esquerda não raivosa que entende que Macron, que salvará a Europa, sempre será algo melhor do que a ultradireitista Marine Le Pen, encarnação do velho. Prevaleceu o senso de realidade.

Haveria algo a se tirar daí para o caso do Brasil, a tantos quilômetros de distância? Algo a tirar como lição para a esquerda brasileira histórica, que está em crise, como a francesa, mas que talvez seja menos flexível, menos hegeliana? Não sabemos se existe um Macron brasileiro, intelectual sólido e político moderno, antissistema e ao mesmo tempo explorador de um novo sistema que se conecte com a sensibilidade de uma sociedade globalizada. Uma sociedade em busca de algo ainda difícil de identificar, mas que ela intui que não pode continuar ancorado nos velhos esquemas de uma política –seja de esquerda, seja de direita—que, como diz Macron, representa apenas “estrelas mortas”.