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COLUNA

Lava Jato e Mãos Limpas frente a frente no espelho. Elas se parecem?

Como há 25 anos na pátria de Dante, hoje a sociedade brasileira está atônita e desorientada, esperando a conclusão do escândalo

Marcelo Odebrecht, figura central na Operação Lava Jato.
Marcelo Odebrecht, figura central na Operação Lava Jato. Reuters

Acaba de fazer 25 anos, no mês passado, do início da Operação Mãos Limpas na Itália, o maior escândalo de corrupção político-empresarial até então conhecido. Até a Lava Jato brasileira, em comparação, possui dimensões menores. O acaso fez com que eu tivesse que escrever, para este mesmo jornal, sobre esses acontecimentos nos dois continentes. Vistas frente a frente no espelho, as duas experiências parecem gêmeas, embora ainda não se saiba qual será o final da brasileira.

Na Itália, como no Brasil, tudo começou quase por acaso puxando o fio de um pequeno escândalo de corrupção político-empresarial que envolveu o líder dos socialistas de Milão, Mario Chiesa, que queria ser prefeito da cidade e exigia dinheiro sujo das empresas em troca de concessões de obras públicas. Foi a partir daí que um grupo de juízes, liderado por Antonio Di Pietro, o Sérgio Moro italiano, descobriu que a corrupção estava incrustada em todo o país e constituía uma espécie de máfia entre políticos e empresários. Como no caso Odebrecht, foram descobertas até planilhas com as cifras oferecidas a partidos e políticos. Ficaram comprometidos praticamente todos os partidos políticos, embora quem movia os fios da corrupção era o Partido Socialista (PSI) que, com Bettino Craxi, tinha chegado pela primeira vez ao Governo.

Entre as centenas de políticos condenados, Craxi e seu partido foram considerados a alma da trama. O líder socialista foi condenado a 17 anos de prisão, mas preferiu fugir para o exílio na Tunísia, onde terminou seus dias. Também lá, como aqui no Brasil, Craxi atacou os juízes e até tentou processar o juiz Di Pietro. E foram estigmatizadas as chamadas delações premiadas (arrependidos na Itália). A trama foi revelada como um câncer que tinha infestado todos os partidos.

As diferenças entre a Mani Pulite e a Lava Jato estão, principalmente, nos números. Na Itália foram condenados quatro ex-primeiros-ministros, 438 políticos e 872 empresários. Houve 2.993 mandados de prisão e 6.059 pessoas investigadas. E a operação foi mais dramática. Onze dos condenados cometeram suicídio. Entre eles, e já na cadeia, Gabriele Cagliari, o presidente da estatal ENI (Ente Nacional de Hidrocarbonetos). Também se matou com um tiro na cabeça Raul Gardini, presidente da Montedison, a gigante indústria petroquímica. A operação Mani Pulite terminou literalmente com todos os grandes partidos, incluindo a poderosa Democracia Cristã (DC), que governou por 40 anos, e o Partido Socialista (PSI). Assim morreu a Primeira República.

Sabemos o que veio depois da Mani Pulite para a Itália e não é nada promissor. Craxi, fugitivo, foi sucedido pelo empresário da construção e dono de um conglomerado de mídia Silvio Berlusconi, já na época suspeito de corrupção e que acabou adotando a máfia siciliana. Chegou a governar 20 anos por culpa em boa parte da esquerda, que não conseguiu se recuperar após o colapso do Partido Socialista. Desde então, a vida política italiana não foi nada fácil. Os grandes partidos da República foram sucedidos por novas forças políticas pequenas, muitas delas nascidas dos restos despedaçados das grandes formações desaparecidas.

Sabe-se que o juiz brasileiro Sérgio Moro é um especialista na Mani Pulite, que certamente o inspirou. E conhece muito bem as manobras que os restos do naufrágio da República italiana conseguiram realizar no Congresso para conceder anistia à grande maioria dos condenados. O que nem ele nem ninguém se atreve a imaginar hoje, 25 anos depois da história italiana, é como vai acabar a brasileira. Como na época, na pátria de Dante e berço do Renascimento, também hoje a sociedade brasileira está atônita e desorientada, esperando para ver a conclusão do escândalo. Uma coisa parece certa e é que também no Brasil a classe política, no banco dos réus e ainda sem condenação, vai fazer tudo para se defender com novas leis do Congresso, enquanto a sociedade está alerta para que isso não ocorra.

O fim da história brasileira que já está tendo ramificações em vários países do continente e até na África vai depender, sem dúvida, de uma sociedade que terá, no próximo ano, na eleição presidencial e na renovação do Congresso, a grande oportunidade de agir com a força do seu voto livre. A sorte é que no Brasil as instituições continuam firmes e com a capacidade de julgar toda a classe política. E a esperança daqueles que se esforçam para que a dolorosa experiência possa dar frutos positivos é que o Brasil se olhe no espelho da Itália e não permita que os mesmos erros sejam cometidos.

O Brasil pode sair fortalecido e com um maior impulso para realizar as reformas que possam dar vida a uma nova república, livre da escória do presente. Do contrário, já que não existe democracia sem o fortalecimento da política, o resultado final poderia ser uma aventura política pior e com um desenlace mais melancólico que o da Itália. “Espero que 25 anos não tenham passado em vão e tenham ensinado a lição aos brasileiros”, me disse um dos poucos políticos que não aparece na lista maldita da Lava Jato.

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