_
_
_
_
Coluna
Artigos de opinião escritos ao estilo de seu autor. Estes textos se devem basear em fatos verificados e devem ser respeitosos para com as pessoas, embora suas ações se possam criticar. Todos os artigos de opinião escritos por indivíduos exteriores à equipe do EL PAÍS devem apresentar, junto com o nome do autor (independentemente do seu maior ou menor reconhecimento), um rodapé indicando o seu cargo, título académico, filiação política (caso exista) e ocupação principal, ou a ocupação relacionada com o tópico em questão

Retrato sem retoque

O sossego dos domingos foi substituído pela música alta dos crentes, pela música alta dos jovens. O silêncio fugiu, assustado, para longe

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Marcelo Sayão (EFE)
Mais informações
Brasil, terra de contrastes
Agora, sim: Feliz 2017!
Matemo-nos uns aos outros!
Em nome do capital

Os fatos que vão narrados a seguir ocorreram em uma pequena cidade do interior do Brasil – chamemo-la de X. No começo da década de 1980 nasceu, no extremo leste de X., um conjunto habitacional de casas simples, mas que contava com arruamento, luz elétrica, água encanada, rede de esgoto, asfalto e linhas de ônibus que ligavam o bairro ao centro. Um sonho para as famílias de classe média baixa. Aos poucos, implantou-se um movimentado comércio – botequins, minimercados, salões de barbeiro e cabeleireira –, uma obra imponente da igreja católica e dois ou três modestos edifícios de igrejas evangélicas.

O bairro prosperou rapidamente. Pouco a pouco, as famílias personalizaram as casas, e as árvores, frutíferas e ornamentais, cresceram e embelezaram as quadras. Aos domingos, havia jogos no campo de futebol, cuja pedra-fundamental rezava que ali haveria de ser construído o estádio municipal, o que nunca aconteceu, e os idosos se reuniam na pequena praça para jogar damas ou cartas ou simplesmente para aguardar a hora do almoço conversando sobre antigamente. A paz era perturbada às vezes por distúrbios domésticos ou por confusões entre vizinhos, mas nada que a própria comunidade não resolvesse com diálogo e conselhos.

As coisas mudaram um pouco no começo da década de 1990. A longa crise econômica nacional, que se arrastava desde meados da década de 1980, ampliou-se, provocando o aumento do desemprego e a diminuição da esperança entre os jovens. Já se falava, à boca pequena, da existência de um traficante em um dos cantos do bairro e de pequenos furtos – bicicletas estacionadas na rua, casas esquecidas abertas. Mas ainda podia-se dormir com as janelas escancaradas e acompanhar, sentado na poltrona da sala, a passagem dos vizinhos na calçada por trás do muro baixo.

Com a virada do século, a insegurança se instalou de vez. O traficante do bairro – não o primeiro, mas outro - passeava pelas ruas ostentando sua riqueza (carro, joias, roupas e tênis da moda), fascinando os garotos e as garotas que aspiravam cair em suas graças. Seus asseclas achacavam os comerciantes, cobrando mensalidades para não os assaltar. Os furtos tornaram-se roubos à mão armada: o escuro da noite conspirava contra os moradores. A igreja católica, sempre fechada, perdia espaço, indolente, para o proselitismo pentecostal. Da calçada já não mais avistava-se a fachada das casas.

Há cerca de cinco anos, construiu-se em um morro próximo um novo conjunto habitacional. Assim que as moradias ficaram prontas, um traficante, de um bairro próximo, tomou-as com seu bando, decretando o início de uma guerra por território. Logo, os meninos praticavam roubos à mão armada e as meninas prostituíam-se na praça antes dominada pelos idosos. Os jogos de futebol foram suspensos, porque terminavam sempre em desordem – as escaramuças deixavam feridos e promessas de vingança. Quem pôde, mudou-se – mas a maioria permaneceu entocada em suas casas, agora ilusoriamente protegidas por cercas de arame farpado e alarmes sonoros.

Os ônibus que serviam ao bairro já não trafegam com regularidade depois que a escuridão chega. Os táxis recusam corridas para o bairro. Os vizinhos não se falam mais, acuados pelo medo e governados pela indiferença. Quase todos têm uma história de violência para narrar. O sossego dos domingos – de cadeiras na calçada e cochilo depois do almoço – substituiu-o a música alta dos crentes, a música alta dos jovens. O silêncio fugiu, assustado, para longe, bem longe.

No final do ano passado, a secretaria de educação de X., percebendo que havia um resto de dinheiro em caixa, permitiu, antes que findasse o mandato do prefeito, que as escolas gastassem no que cada uma definiu como prioridade. A escola do bairro investiu na compra de material de limpeza. Nas imediações do Natal, dois irmãos, um de 12 anos, outro de 14, invadiram o local e furtaram tudo: garrafas de detergente, caixas de sabão em pó, frascos de desinfetante, vassouras, rodos, panos de chão. Carregaram para a casa deles, onde, com a ajuda do pai e da mãe, organizaram kits que venderam a dez reais para os próprios moradores do bairro, que evidentemente sabiam da origem obscura do produto. O argumento: Se eu não comprar, meu vizinho compra...

Assim, o Brasil.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_