ONU alerta que o mundo vive a pior crise humanitária em 70 anos

Chefe de Assuntos Humanitários pede recursos para Iêmen, Sudão do Sul, Nigéria e Somália

Stephen O’Brien na semana passada no Sudão do Sul.
Stephen O’Brien na semana passada no Sudão do Sul.ALBERT GONZALEZ FARRAN (AFP)

A ONU nasceu em 1945 para garantir que um desastre como o da Segunda Guerra Mundial não voltasse a ocorrer. Mas o que se vê hoje em dia é que uma série de conflitos envenenados, em diversos lugares, traça um balanço sinistro. O secretário-geral-adjunto para Assuntos Humanitários e Emergências, Stephen O’Brien, alertou nesta sexta-feira que o mundo está sofrendo a maior crise humanitária nos mais de 70 anos de história da instituição.

Mais informações
Secretário-geral da ONU pede o fim do veto migratório a Trump
Morrer de fome no Sahel fugindo do Boko Haram
Dentro do inferno do Boko Haram

No mesmo dia, um relatório da ONU denunciava que dezenas de milhares de famílias precisaram abandonar o Iêmen devido ao recrudescimento da violência, e outro acusava a Turquia de “graves violações” no conflito curdo, que já levou meio milhão de pessoas a fugirem dos seus lares. Dois dias antes, o secretário-geral Antonio Guterres fazia uma visita de emergência à Somália, afetada por uma grave seca que deixou ao país no limiar de uma epidemia de fome.

“Estamos num ponto crítico da história. Já no começo do ano estamos enfrentando a maior crise humanitária desde a criação das Nações Unidas. Há mais de 20 milhões de pessoas em quatro países que sofrem de inanição. Sem esforços globais e coordenados, morrerão de fome”, disse O’Brien ao Conselho de Segurança da ONU, onde falou sobre as missões no Iêmen, Sudão do Sul, Somália e Quênia.

Dois terços da população iemenita – quase 19 milhões de pessoas – precisam de algum tipo de ajuda, e sete milhões estão passando fome e não sabem quando voltarão a comer, conforme relatou o secretário-geral-adjunto. Ele ressaltou a rapidez com que a crise vem devastando a população: em janeiro, a crise já havia feito a população do país se reduzir em três milhões. Serão necessários 2,1 bilhões de dólares (6,6 bilhões de reais) neste ano para ajudar 12 milhões de pessoas e, até agora, o valor arrecadado foi de apenas 6%.

O Iêmen é o caso mais difícil. Mas, no Sudão do Sul, mais de 7,5 milhões de pessoas precisam de ajuda, e 3,4 milhões estão desabrigadas. Na Somália são 6,2 milhões de pessoas carentes de proteção humanitária, e no nordeste da Nigéria é necessária uma injeção de recursos imediata para evitar uma catástrofe.

Ao todo, “precisamos de 4,4 bilhões de dólares até julho, e esta cifra é o custo detalhado, não uma cifra negociável”, disse O’Brien ao Conselho de Segurança, um órgão no qual os grandes membros permanentes – Estados Unidos, França, Rússia, China e Reino Unido – estão envolvidos em vários conflitos. Em 28 de fevereiro a Rússia e a China vetaram uma resolução com sanções à Síria pelo uso de armas químicas, um assunto que, apesar das discrepâncias na crise síria, deveria ser consensual.

As desavenças entre as grandes potências não contribuem para a obtenção dos recursos, enquanto as guinadas na política externa e na ajuda internacional antevistas para os EUA, maior economia do mundo, contribuem para a incerteza. O dirigente humanitário da ONU foi taxativo nesta sexta-feira. “Necessitamos que a comunidade internacional e este Conselho ajam rapidamente nos fatores que causam a fome” e forneçam a tais países o apoio financeiro necessário “no prazo adequado”.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS