Exército encerra com contradições caso de capitão infiltrado em protesto contra Temer

Sindicância confirma serviço de inteligência, mas exime militar de papel em prisão de 21 manifestantes feita pela PM de São Paulo

Willian Pina Botelho entre os detidos em 4 de setembro do ano passado.
Willian Pina Botelho entre os detidos em 4 de setembro do ano passado.Câmera de segurança

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As conclusões - e contradições - dessa sindicância deixam a história ainda mais nebulosa. Em outubro do ano passado, Eduardo da Costa Villas Bôas, comandante-geral do Exército, havia dito que houve "absoluta interação" com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo para a operação daquele dia. "Houve, houve, houve uma absoluta interação com o Governo do Estado", disse. Já a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo seguiu negando uma possível operação em conjunto com o Exército naquele dia 04 de setembro, quando os 21 manifestantes foram detidos poucas horas antes e a alguns quilômetros de distância de onde ocorreria uma manifestação contra o presidente Michel Temer. Eles foram soltos no dia seguinte, por um juiz que considerou as detenções "ilegais", mas a história segue se desenrolando.

Na época, foi revelado pelo EL PAÍS e pela Ponte Jornalismo, que o capitão Willian Pina Botelho, que se apresentava como Balta Nunes, estava infiltrado no grupo dos detidos. Ele foi o único a não ser levado para a delegacia naquele dia. O Exército afirmou então que abriria uma sindicância para apurar o fato. As conclusões que aparecem agora indicam que Botelho estava em atividade de inteligência naquele dia devido à passagem da tocha Paralímpica pela cidade de São Paulo. Como já havia feito antes, por meio da assessoria de imprensa, o Exército evocou a Garantia de Lei e da Ordem (GLO) para justificar a legalidade da ação de Botelho.

"A atividade do capitão não foi de iniciativa pessoal, e sim enquadradas nas atribuições da Companhia de Inteligência", diz a conclusão da sindicância do Exército 

O documento com as conclusões da sindicância, ao qual EL PAÍS teve acesso com exclusividade, também afirma que "a atividade de inteligência desenvolvida pelo oficial está perfeitamente apoiada pela legislação vigente". E que "a atividade do capitão não foi de iniciativa pessoal, e sim enquadradas nas atribuições da Companhia de Inteligência". Por fim, o documento conclui que o capitão Botelho "não cometeu crime militar ou comum e nem transgressão disciplinar no cumprimento da missão realizada". Durante meses que antecederam as detenções, Botelho usou o aplicativo de relacionamentos Tinder para se aproximar das mulheres "de esquerda", como ele mesmo dizia.

Na época, o fato de um capitão do Exército infiltrado entre manifestantes de oposição ao Governo Temer levantou um alerta entre ativistas e entidades. Além da sindicância aberta pelo Exército, o Ministério Público Federal e o de São Paulo abriram investigações distintas. Enquanto o MPF ainda não concluiu sua apuração, o MP de São Paulo afirmou que a atuação do capitão Botelho foi legal e prevista nos âmbitos da lei. Depois disso, o Ministério Público paulista ainda denunciou os 21 manifestantes, acusando-os de fazerem parte de uma organização criminosa. O caso está nas mãos da juíza Cecília Pinheiro da Fonseca.