Coluna
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Por uma ação externa afirmativa para superar os muros reais e imaginários do Brasil

Nestes tempos incertos dentro e fora de casa, torna-se ainda mais urgente retomar uma diplomacia afirmativa em que a retórica esteja a serviço da ação e não a ação a serviço da retórica

O muro entre México e EUA em Tijuana.
O muro entre México e EUA em Tijuana. JULIE WATSON (AP)

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Enquanto as mudanças e as controvérsias se atropelam no plano internacional devido às sucessivas trapalhadas da Administração Trump, o Brasil, às voltas com uma interminável crise política, mantém-se à margem. O Itamaraty divulgou boa e precisa nota sobre a questão do muro do México que na verdade é um muro que procura isolar e separar a América Latina do mundo desenvolvido. E que vem a se juntar significativamente à Muralha da China e ao Muro de Berlim. O México neste momento somos todos nós!

É preciso encontrar um enredo e fazer mais. As mudanças ora em curso no Brasil no plano interno devem ser acompanhadas de políticas afirmativas no plano internacional, que as viabilizem e sustentem no tempo.

São vários os componentes da crise atual por que atravessa a política exterior do Brasil ora nas mãos competentes, experientes e determinadas do Ministro José Serra.

É essencialmente uma crise de política: (1) nos anos recentes, a interação com os países latino-americanos tornou-se difusa e ideologizada; (2) o Mercosul perdeu sentido de propósito e alguma consistência; (3) o diálogo com os parceiros desenvolvidos do Brasil tem se ressentido de focos bilaterais mais claros; e (4) a relação com o mundo em desenvolvimento extrarregional se dá num contexto mais retórico e ocasional do que substantivo e consistente.

Nos Governos petistas, o exercício da diplomacia, embora beneficiado numa etapa inicial pela repercussão externa positiva dos avanços políticos, econômicos e sociais do país, tornados possíveis pela estabilidade macroeconômica resultante do Plano Real, terminou por resvalar na inocuidade e nos exageros de uma visão maniqueísta do mundo.

Entrementes, a América Latina como conceito operacional tende a se desestruturar: O México pré-muro se ancorou nos EUA e procura agora formar um contrapeso na região; a Argentina, embora não o admita, voltou a mostrar dúvidas em relação ao aprofundamento da integração; a Aliança do Pacífico traçou um novo meridiano de Tordesilhas na América do Sul, trazendo o México para o interior da região, em contraponto ao Mercosul; a Venezuela implantou junto com o Equador, a Bolívia e a Argentina dos Kirchner (de início com a complacência do Brasil, depois com nossa incapacidade de articular reações consistentes) um modelo autoritário e nacionalista retrógrado, que não facilita em nada a articulação da América do Sul com os polos mais dinâmicos do sistema internacional. Estamos nos autocondenando à periferia!

"É essencial que a diplomacia brasileira volte a se mover na região não pela determinação de representar a vontade dos demais e reivindicar lideranças inexistentes, mas por uma disposição de juntar peças"

É essencial que a diplomacia brasileira volte a se mover na região não pela determinação de representar a vontade dos demais e reivindicar lideranças inexistentes, mas por uma disposição de juntar peças, ativar convergências e catalisar vontades reais ou potenciais.

O Brasil tem condições e tem a responsabilidade de encontrar soluções para os seus próprios problemas em harmonia – não em contradição – com o mundo. A política externa deve continuar a ser, como foi no passado, um instrumento essencial para conduzir a intermediação entre o nosso projeto interno e as oportunidades, os desafios e os constrangimentos externos. Precisamos preservar o que historicamente caracterizou de forma positiva a política externa do Brasil: sentido de realidade e pragmatismo! Realismo no plano regional e idealismo mobilizador no plano multilateral.

No mundo fantasmagórico da era Trump, o Brasil deve ampliar consideravelmente sua inserção nas grandes redes de articulação e informação hoje prevalecentes no plano internacional. Sobretudo para que possa conceber e implementar uma relação tanto quanto possível equilibrada, mais propositiva, mais afirmativa e, portanto, menos reativa com seus parceiros desenvolvidos.

Uma análise do discurso de posse de Trump e bem assim de suas primeiras medidas retumbantes revelam uma acentuada dose de voluntarismo. Muitas palavras, muitas generalidades, pouca ou nenhuma indicação de como poderá implementar seus desígnios. Fica a impressão extremamente preocupante de que advoga uma espécie de "nacional capitalismo". E fica a preocupação de que poderá engendrar muitos confrontos e conflitos nos EUA e no mundo. Seu lema "America First" é algo que não condiz com o discurso político do pós guerra, nem muito menos com a Carta da ONU que estabeleceu o princípio da igualdade soberana das nações. A nova Representante dos EUA na ONU chegou a ameaçar represálias aos países que votem contra posições dos EUA.

Na América do Sul, haveria que redefinir o modelo de integração a partir de de uma nova proposta para a relação com a Argentina, que continua a ser o principal país na região potencialmente capaz de agregar valor à inserção internacional do Brasil. Seria necessário definir políticas comuns de desenvolvimento industrial e de serviços. Assim como pensar na possibilidade de desenvolver e praticar uma política agrícola comum, a exemplo da União Europeia, destinada a aumentar o peso de ambos países em terceiros mercados, em particular na China.

"No plano regional latino-americano, devemos enfatizar ações coletiva ainda pouco exploradas, como conceber uma cooperação regional para combater desigualdades, corrupção, violência e narcotráfico"

No plano regional latino-americano, devemos enfatizar dimensões de ação coletiva ainda pouco exploradas, como, por exemplo, conceber e por em prática uma iniciativa destinada a criar condições efetivas e inovadoras de cooperação regional mediante o combate coletivo a algumas das principais ameaças que inibem o desenvolvimento sustentado de nossos países: desigualdades, corrupção, violência e narcotráfico.

Quanto às relações extrarregionais, impõe-se estabelecer parcerias operacionais estratégicas com os países efetivamente capazes de aportar recursos, mercados e cooperação para o projeto brasileiro de desenvolvimento sustentável. A política externa deveria estar voltada predominantemente para a configuração de parcerias bilaterais (UE, Japão, China, aos quais se junta agora o Reino Unido pós Brexit) com vistas à obtenção de resultados específicos, assim como para a gestação de alianças consistentes em função de interesses predeterminados, por oposição a alianças heterogêneas em função de objetivos genéricos (IBAS, BRICS). Os EUA serão sempre importantes para o Brasil. Será necessário, portanto, avaliar até que ponto será possível lidar de forma razoavelmente objetiva com os EUA da era Trump.

Nestes tempos incertos e perigosos que temos pela frente dentro e fora de casa, torna-se ainda mais urgente reafirmar nossas melhores tradições. Atualizar e mudar o que for necessário. Retomar uma diplomacia afirmativa em que a retórica esteja a serviço da ação e não a ação a serviço da retórica; que utilize os fatores que diferenciam positivamente o Brasil no mundo para dar credibilidade e sustentabilidade a nossas reivindicações de maior participação no processo decisório internacional. Uma diplomacia que, sob a perspectiva da democracia, acima de ideologias ultrapassadas, privilegie pragmaticamente o interesse nacional e o respeito aos Direitos Humanos como base para o relacionamento produtivo e amistoso entre as nações. Sem muros reais ou imaginários....