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Premiê espanhol se oferece a Trump como interlocutor na Europa e na América Latina

Mariano Rajoy transmite ao norte-americano sua convicção de que a integração europeia avançará apesar do ‘Brexit’

Mariano Rajoy, na passada sexta-feira em Malta.
Mariano Rajoy, na passada sexta-feira em Malta. AFP

O presidente do Governo (primeiro-ministro) da Espanha, Mariano Rajoy, se ofereceu na noite de quarta-feira ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como “interlocutor na Europa, América Latina e também no Norte da África e Oriente Médio”, conforme informou o Executivo espanhol. Rajoy transmitiu também sua convicção de que, apesar do Brexit, “nos próximos meses o processo de integração europeia será fortalecido”, um objetivo para o qual o Governo espanhol trabalhará.

A conversa entre ambos durou 15 minutos, cinco menos do que o previsto, com a mediação de tradutores, e fez parte da rodada de telefonemas que o novo ocupante da Casa Branca está fazendo aos mandatários dos principais países aliados (e outros nem tanto, como a Rússia). Imediatamente depois de falar com Rajoy, Trump conversou com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

De acordo com a nota divulgada, Rajoy mostrou sua disponibilidade “para desenvolver uma boa relação com a nova Administração norte-americana” e explicou a Trump que a Espanha, “com um Governo estável e uma economia crescendo a mais de 3%, está nas melhores condições para ser um interlocutor dos Estados Unidos”. A nota não menciona se o primeiro-ministro espanhol dirigiu a Trump alguma crítica por sua decisão de construir um muro na fronteira com o México ou vetar a entrada nos EUA de cidadãos originários de sete países muçulmanos.

O comunicado da Casa Branca é muito mais conciso e tampouco se refere a esses assuntos que provocaram muitas críticas internacionais. Indica que Trump e Rajoy “reafirmaram a forte aliança bilateral numa série de assuntos de interesse comum” e cita algumas “prioridades comuns”, especialmente “os esforços para eliminar o Estado Islâmico”, como havia adiantado o porta-voz do republicano, Sean Spicer.

O único tema mencionado explicitamente pelas duas partes é o da Aliança Atlântica. De acordo com o Governo espanhol, ambos comentaram que estarão presentes na cúpula que a OTAN realizará em maio em Bruxelas e abordaram questões de segurança e defesa. A nota espanhola também lembra a importância das bases militares de uso conjunto de Rota (Cádiz) e Morón (Sevilha), a participação de militares espanhóis no treinamento do exército iraquiano e a estreita cooperação em matéria de inteligência entre suas respectivas forças de segurança.

A Casa Branca, enquanto isso, disse que Trump “reiterou o compromisso dos EUA com a OTAN e salientou a importância de que todos os aliados da OTAN dividam o fardo dos gastos de defesa”. É praticamente a mesma frase usada pela Casa Branca no comunicado divulgado depois da conversa de Trump com o presidente francês, François Hollande, em 28 de janeiro, e com o primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, no sábado passado. Em sua conversa com a chanceler alemã, Angela Merkel, também em 28 de janeiro, a fórmula mudou um pouco, mas não a mensagem de fundo: a insistência do novo Governo republicano em que os parceiros europeus aumentem suas contribuições em matéria de defesa.

Num tuíte em sua conta pessoal, Rajoy qualificou de “cordial” a conversa com Trump para “continuar fortalecendo as relações em benefício de nossos povos”. “Somos países aliados”, lembra.

O Governo espanhol pretende se tornar um interlocutor privilegiado de Washington na UE, uma vez consumada a saída do Reino Unido, e fazer valer também seus laços com a América Latina, embora ainda não se saiba se a nova Administração norte-americana, que começou com uma crise com o México e confrontos com os parceiros europeus, como França e Alemanha, considera útil conceder-lhe esse papel.

O ministro das Relações Exteriores, Alfonso Dastis, disse durante a tarde no Senado que o Governo procura estabelecer um canal de comunicação “franco e construtivo” com a nova Administração dos Estados Unidos que permita aprofundar as questões onde haja concordância e “abordar de maneira franca” as discordâncias. Dastis não quis comentar as primeiras medidas tomadas pelo novo ocupante da Casa Branca, como a construção de um muro na fronteira com o México ou o veto aos cidadãos originários de sete países muçulmanos, mas disse que a Espanha “não renunciará à liberdade de circulação de pessoas e bens” e tentará convencer Washington de que a melhor maneira de combater a imigração ilegal é trabalhar com os países de origem e de trânsito dos imigrantes.

O senador socialista Andrés Gil pediu que Rajoy exija em sua conversa com Trump “respeito e dignidade” para o povo mexicano e descreveu como “especialmente doloroso e humilhante” o “muro de silêncio” do Governo espanhol diante do “muro da vergonha” que o Governo dos EUA quer levantar na fronteira com seu vizinho do sul. Dastis lembrou que falou na semana passada com seu colega mexicano, Luis Videgaray, e que Rajoy fez o mesmo com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, para prestar sua “inquestionável solidariedade” e dizer que “pode contar com a Espanha para qualquer iniciativa de restaurar as boas relações e a confiança” com os Estados Unidos.

Trump e Rajoy já haviam tido uma conversa telefônica de 20 minutos no dia 12 de dezembro, mas a de hoje foi a primeira desde a posse do novo presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro. Dastis ainda não conversou o novo secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, mas acredita que poderá encontrá-lo na reunião de chanceleres do G-20 que acontecerá no dia 16 em Bonn (Alemanha).

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