67º Berlinale

‘Trainspotting’, 20 anos depois

O diretor Danny Boyle estreia a segunda parte de sua adaptação icônica do romance de Irvine Welsh É o prato forte do primeiro fim de semana do festival de Berlim

Danny Boyle, em Madri.
Danny Boyle, em Madri.Bernardo Pérez

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“Escolha a vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma merda de um televisor grande. Escolha máquinas de lavar, carros, equipamentos de CD player e abridores de latas elétricos.” Assim começava o famoso monólogo de Mark Renton em Trainspotting, há 20 anos. Danny Boyle (Manchester, 1956), seu diretor, tinha claro: escolheu o cinema. “Apesar de tudo, das filmagens, da relação de irmandade que se dá entre as equipes, sou um tipo solitário. Eu me dedico a fazer as coisas por mim mesmo”. Seu segundo longa-metragem adaptava um romance de Irvine Welsh, e ambos, filme e livro, acabaram se tornando fenômenos de culto, retratos de uma geração e produto para as massas. Tudo ao mesmo tempo. Naquela onda entraram Boyle e um jovem Ewan McGregor, que encarnava Renton.

A onda passou. E sua ressaca. McGregor e Boyle voltam a se falar depois de anos de distanciamento por causa do personagem protagonista de A Praia, que McGregor não interpretou. O diretor ganhou Oscars, filmou sem parar, dirigiu uma cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos... T2 Trainspotting esperava na moita. Mas Boyle não via isso tão claro. “Há 10 anos nos propusemos isso. Mas o roteiro não era poderoso. John Hodge [o roteirista de ambos os filmes] e eu tínhamos claro que sem um bom libreto não filmaríamos.” Agora, sim, agora conseguiram e T2 Trainspotting é o prato forte deste primeiro fim de semana da Berlinale, onde se apresenta na Competição, embora fora da disputa. Na Espanha estreia em 24 de fevereiro.

Um fotograma de 'Trainspotting' (1996).
Um fotograma de 'Trainspotting' (1996).

Boyle poderia ter sido um grande Renton, por sua forma expansiva de se expressar. E sua capacidade para conectar metáforas (em Madri, pelo menos, por onde passou antes de ir a Berlim). Por exemplo, em sua reflexão sobre o que significa olhar para trás: “Quando você olha por um telescópio, as coisas parecem distantes, mas, se você o gira de repente, fica com a imagem em cima. Assim é nossa relação com o passado: às vezes você não se lembra de nada e em outras tudo cai em cima de você”. E nele caiu com o peso da nostalgia: “A única maneira de fugir dela é se esquecer da primeira parte. Mas no momento em que você encontra pontos de aderência ao primeiro Trainspotting, essa nostalgia te pega – prefiro usar melancolia – e não te solta. Porque o passado não está morto, ele te oprime. O primeiro não deixava de ser um artefato de energia. Este... poderíamos até imaginar que o quarteto protagonista tinha ido ao cinema para vê-lo e vivemos em um loop de tempo sem fim. Observe como os avôs e os netos se parecem. Quase prefiro deixá-lo assim... bom, vivo de criar ilusões, e isso é T2, uma ilusão de melancolia procedente de uma explosão de 20 anos atrás”. Para Boyle, um bom exemplo do cinema que mostra a passagem do tempo com toda sua crueza e sem melancolia é Boyhood. “Nunca queremos cruzar a linha, deixar de ser jovens. Pois chega o momento em que acontece”.

O quarteto voltou a se reunir. “Se no primeiro se dava entre drogas e juventude, agora falamos sobre a passagem do tempo e somos prisioneiros dos personagens.” Suas garotas os olham de uma distância sábia. Como sempre ocorreu no cinema de Boyle. “Porque as mulheres são muito mais sábias do que nós. Entre outras coisas, seu próprio corpo lhes outorga um profundo ensinamento sobre a passagem do tempo. Nós, porém, vivemos desesperados por ressuscitar glórias passadas, sem sentido. Por isso, lutam para que seus filhos não se pareçam com os pais em T2.”

Aquela viagem selvagem pelos excessos da heroína deixou seus cadáveres. “Sei que na Espanha aconteceu algo parecido na Movida madrilena. Na Escócia foi mais brutal o álcool, porque é legal e aceito socialmente. Até mesmo a violência que emana de seu consumo.” As dependências se tornaram parte dos personagens. Embora curiosamente antes buscassem vida para além da vida naquelas injetadas de ultrarrealidade induzida pela droga, e hoje a realidade se esconde sob camadas e camadas de relações virtuais por meio das redes sociais digitais. “O discurso ‘Escolha vida’ da primeira parte nascia da arrogância da juventude. Agora há outras opções, compatíveis. Mas tudo surge da decepção. Não acho que a resposta adequada seja que substituamos antigos vícios por estas novas tecnologias. Não é por aí. Se você é nascido na era digital – eu não sou, meus filhos, sim –, você vê de outra perspectiva. O que sei realmente é que não atenuam a solidão.”

Boyle não se importou de brincar com os ícones. “Entendo que tinha uma responsabilidade. Mas minha obrigação é para com uma boa história.” Apesar de tudo, há um discurso Escolha... e desta vez estava apontado na filmagem. “Agora já não é um mantra nem uma injetada de rock, de punk. Quisemos esquecer qualquer expectativa, mas, sim, me preocupava essa noite de filmagem.” E também deixou para trás qualquer indício de crônica social: “Fomos pegos pelo Brexit na metade da filmagem. Não se encaixava na trama nem com calçadeira. Na Escócia foi um terremoto. A little England nos matou, essa sociedade movida pela nostalgia ridícula, e a falta de liderança. Sabe o que nos passou na filmagem? Não sabíamos se deixar os euros ou não, e quando rodamos na porta do Parlamento escocês pusemos todas as bandeiras possíveis [risos]. Para não fecharmos nenhuma possibilidade!”.

No final, o diretor conta um segredo: “Roubei a conclusão de Trainspotting de Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea. Nessa ocasião, duvidei e duvidei. E só o encontrei quatro semanas depois de concluir a montagem. Mas é bom, hein?”

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