O que é Zozulya?

Uma das coisas que mais me chama a atenção entre os novos seguidores da ultradireita moderna é que nenhum deles se considera nazista

Zozulya, durante um jogo pelo Betis.
Zozulya, durante um jogo pelo Betis.Aitor Alcalde Colomer (Getty Images)

Uma das coisas que mais me chama a atenção entre os novos seguidores da ultradireita moderna é que nenhum deles se considera um nazista ou um fascista. Se perguntar-lhes, é muito provável que reconheçam como próprias as mesmas causas, que admitam certa admiração por alguns de seus líderes históricos e inclusive tenham fotografias posando junto a símbolos e bandeiras do citado movimento. No entanto, a pergunta concreta sobre se são ou não um grupo moderno de fascistas, de novos nazistas, todos contestarão automaticamente que não: eles são outra coisa.

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Roman Zozulya é um bom exemplo disto. Ao longo de sua carreira, desde que os focos das câmeras começaram a fixar-se nele por sua condição de esportista de elite e pessoa pública, o jogador ucraniano deu pistas suficientes para poder disseminar sua ideologia, suas fobias e suas obsessões. O comunicado dirigido à torcida do Rayo Vallecano, no qual tenta se explicar, em uma tentativa desesperada por lavar sua imagem e reconduzir a situação, é um resumo do habitual manual negacionista de quem não é capaz de se reconhecer a si mesmo como o que realmente é. Fala Zozulya de ultranacionalismo, da causa da pátria, da defesa dos mais desfavorecidos, das crianças.

Por desgraça, o futebol leva demasiado tempo convertido em terreno propício para o florecimento da intolerância, pouco importa a posição política ou a ideologia em que se ampare. No último fim de semana, em Lyon, um grupo de torcedores radicais do clube da cidade dispersaram uns cartazes vergonhosos, nos quais reclamavam às grades do estádio como habitat natural dos homens enquanto convidavam às mulheres a ficar na cozinha, um novo exemplo da podridão geral. A homofobia e o racismo também marcam as grades e arredores de muitos campos de futebol, desgraçada e historicamente consentidas pela passividade cúmplice dos clubes e umas federações incapazes de lutar contra o problema, demasiadas vezes convencidos de que tais atitudes não o são.

Zozulya, que retornará ao Real Betis, viu de perto a oposição frontal de uns torcedores incapazes de se reconhecerem como ultras, convencidos de seu papel de guardiães das essências e empenhados em impor a todo um clube, a milhares de almas, sua própria ideologia. Pouco importa, se importa, se Zozulya é uma coisa ou a contrária, se sonha com o fim da fome no mundo ou com a hegemonia incontestável de uma raça. Para a torcida, em geral, só deveria ser um jogador, o mesmo que o garoto negro, o jovem gay ou a garota que não quer ser princesa. O futebol só deveria ser isso, futebol… Embora muitas vezes nos empenhemos em defender que não, que o futebol é outra coisa.