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Chefe do Conselho Europeu define Trump como “ameaça externa”

Os 28 países do CE discutem na sexta como lidar com a nova relação entre os dois lados do Atlântico

Donald Tusk
Donald Tusk nesta terça-feira na Estônia. AFP

A Europa se prepara para um cenário sombrio com a chegada ao poder de Donald Trump. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, avalia a mudança de cenário em Washington como uma ameaça externa a ser enfrentada pela União Europeia. Ao lado da assertividade chinesa, da agressividade russa e do islamismo radical, o representante dos chefes de Estado e de Governo europeus menciona “as declarações preocupantes da nova Administração americana”, em carta dirigida aos 28 países membros. Tusk acrescenta: “A mudança em Washington coloca especialmente a União Europeia em uma situação difícil; aparentemente, a nova Administração está coloca em questão os últimos 70 anos de política externa norte-americana”.

Depois de vários dias de contenção em suas declarações, a Europa assume que Trump não será apenas mais um presidente na história norte-americana. As palavras de Tusk servem como prelúdio para uma discussão mais ampla que será realizada entre os chefes de Estado e de Governo na próxima sexta-feira em reunião a ser organizada em Malta. No texto enviado nesta terça-feira, o responsável pelo Conselho insta seus pares a “defenderem com clareza a dignidade da Europa unida”. De seu lado, a alta representante para a Política Externa Europeia, Federica Mogherini, procura agendar um encontro com o novo secretário de Estado, Rex Tillerson, para as próximas semanas.

Além desses apelos preliminares, um relatório do Parlamento Europeu também chama a atenção, extensamente, para algo que os mandatários têm evitado expor publicamente até agora, isto é, o fato de que a Europa está diante de “graves riscos” para sua segurança, especialmente em relação a atentados terroristas. Porque o previsível antiamericanismo que pode se alimentar no mundo muçulmano depois da artilharia desmesurada de Trump pode se traduzir em um repúdio maior a todo o mundo ocidental, e à UE como parte dele. “É fácil imaginar o pior, pois nunca, na história moderna dos Estados Unidos, houve um presidente menos qualificado e menos experiente nem com uma personalidade tão polêmica”, avalia o documento, elaborado pela Direção Geral para Políticas Externas e concluído apenas três dias antes de o novo presidente norte-americano tomar posse.

Tensão entre parceiros

O texto, ao qual o EL PAÍS teve acesso, analisa os efeitos da vitória de Trump para a estreita relação entre a UE e os EUA, seu principal parceiro externo. A política de segurança é uma das mais ameaçadas. Embora não se prevejam mudanças de curto prazo em termos de cooperação antiterrorista, as declarações do presidente sobre o uso da tortura, sua posição sobre a vigilância e algumas de suas nomeações “poderiam levar a uma nova tensão transatlântica”.

O movimento mais arriscado é a virada norte-americana em direção à Rússia. O documento estima que Washington deixará de lado a ideia de expansão da OTAN para o Leste (bastante criticada por Moscou, que a vê como uma intromissão em sua área de influência) e poderá até mesmo pôr fim à ampla presença militar norte-americana na região oriental da UE. Outra consequência dessa aproximação com Putin diz respeito diretamente ao conflito sírio. Um recrudescimento nessa guerra provocaria “uma piora no fluxo de refugiados” em direção à Europa.

O documento interno do Parlamento alerta para uma possível tentativa por parte dos EUA de dividir a UE tentando estabelecer vínculos bilaterais com alguns de seus países-membros. O texto insta os integrantes da UE a resistirem às iniciativas da Administração Trump. Uma primeira indicação dessa nova atitude foi dada pelo mandatário norte-americano ao transformar a primeira-ministra britânica, Theresa May, na primeira dirigente estrangeira a visitá-lo na Casa Branca, como ocorreu na última sexta-feira.

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