“Fui fazer turismo e sobrevivi a um naufrágio após 22 horas na água”

Jorge e Víctor, os outros espanhóis que viajam conosco, nunca mais foram vistos. Ainda lembro deles todos os dias.

María e eu, mergulhando de novo, um mês após o naufrágio.
María e eu, mergulhando de novo, um mês após o naufrágio.Rafa

Nunca esquecerei o momento de mais medo que passei em toda a minha vida. Foi quando María me acordou desesperada e disse que o barco estava fora de controle. Olhei pela claraboia e vi um mar que balançava o nosso barco de madeira sobre uma montanha-russa de ondas. Era meia-noite de 16 de agosto de 2014. Ali começou meu pesadelo, 22 horas de sofrimento e agonia que mudaram minha vida para sempre.

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Nunca poderíamos imaginar o que iria acontecer quando, apenas dois dias antes, subimos em um barco na ilha de Lombok (Indonésia) junto com 20 turistas e cinco tripulantes para uma viagem paradisíaca. Ilhas desertas, vulcões e o dragão de Komodo, nosso destino final onde nunca chegamos. Nossa aventura foi outra.

Era meia-noite quando, ao acordar, desci para pedir explicações ao capitão sobre o que estava acontecendo. Descer por aquela escada era arriscar a vida. O barco era uma atração de exposição. Um golpe de uma onda teria me jogado para fora. Consegui falar com ele, mas só me respondeu com um gesto com o polegar para cima e sorrindo. Nunca alguém havia me transmitido mais insegurança. Estava contorcido.

Duas vezes repeti a mesma cena e em ambas pedi coletes salva-vidas para todos, mas ninguém se atreveu a me dar, porque abandonar a cabine era arriscar a vida. Eu mesmo os peguei. Vi outros passageiros fazerem o mesmo. E então aconteceu o inevitável. Os motores pararam e as luzes acenderam. O guia que balbuciava palavras em inglês subiu até o local onde dormíamos: "Essa é uma situação de emergência, coloquem os coletes salva-vidas, o barco está afundando".

Olhei para María e, sem dizermos nada, soube que agora os passageiros deveriam assumir o comando. Mas aquele barco era um despropósito. Não havia rádio, nem GPS, nem sinalizadores, nada. Estávamos condenados. No dia anterior, o barco havia sido danificado ao encalhar em um recife de corais. Agora, exatamente nesse mesmo local do casco, junto ao tanque de combustível, havia um buraco. Um marinheiro, para chamá-lo de alguma maneira, teve a ideia genial de fazer fogo na proa e depois, com uma tocha, dirigir-se até a popa para fazer o mesmo. Um tropeço e teríamos ido pelos ares.

O guia nos tranquilizou dizendo que uma embarcação de madeira leva horas para afundar. Foram 20 minutos. Não foi necessário pular para o mar, a água rapidamente nos chegou até a cintura. Eram 2h da madrugada e já estávamos na água, sob total escuridão e silêncio.

Nos afastamos do barco agarrados ao único bote que havia, para quatro pessoas. Levamos máscaras de mergulho, tubo e lanterna. Desse momento, guardo uma imagem na minha memória. Quando ainda não tínhamos nos afastado muito do barco, afundei a cabeça na água e vi o barco partido em dois e nossas mochilas afundando no escuro. Então pensei: “O que está lá dentro não importa, só importa sobreviver”.

Uma pequena parte do barco que não chegou a afundar, ficou flutuando. Cabiam apenas oito pessoas nesse pedaço do barco. Afora as quatro que estavam no bote e os oito que se apertaram nos restos do barco, os demais estavam dentro da água com seus coletes salva-vidas.

Ao amanhecer, vimos uma ilha com um vulcão em erupção. Estava a oito quilômetros, mas o mar não convidava a nadar. Pensei que viriam nos buscar, mas lembrava que estava na Indonésia. Ao completar 10 horas de espera, o guia do barco decidiu o nosso destino. “Ninguém virá nos buscar porque ninguém sabe que nós afundamos”.

Olhei para María e disse que tínhamos que nadar até a ilha, que mais uma noite em alto mar seria a nossa última. Fomos nadando todos juntos ao redor do bote. Me prendi a ele com uma corda (como todos), subi e remei com um pedaço de madeira. Mas aquilo não funcionou: como não avançávamos, o descontrole tomou conta da situação.

Foi então quando tomei a decisão mais transcendental da minha vida. Disse à María: “Se não formos, morreremos”. Ela concordou. Falei com Jorge e Víctor, os outros dois espanhóis que estavam no barco, com quem tínhamos passado muitas horas nessa viagem, mas não quiseram vir. Nunca mais se soube deles.

María chorou porque sabia que muitos daqueles que ficavam para trás, agarrados ao pequeno bote salva-vidas, poderiam morrer. Sinceramente pensei que não voltaria a ver muitos deles. Tinha consciência do risco muito alto de nadarmos sozinhos. Uma vez que fôssemos não havia volta atrás: era viver ou morrer. Nos beijamos, dissemos que nos amávamos e partimos.

Voamos, impulsionados pela adrenalina. Não havia fome, nem sede, nem frio nem dor. Nem sequer me preocupei com os tubarões, que são abundantes na região. Sempre a poucos metros um do outro, nos incentivávamos, apesar das ondas, das fortes correntes e das águas-vivas que esquivávamos a todo momento. As condições eram horríveis. Perdi María uma vez, durante vinte minutos. Mas não me desesperei, voltei até ela.

Depois de seis horas, alcançamos outros três que tinham abandonado o grupo meia hora antes da gente. Anoiteceu e o mar nos deu uma trégua. As águas acalmaram um pouco, o que significava que nos aproximávamos da ilha e que já não estávamos em mar aberto. Também guardo uma imagem alucinante desse momento: afundei a cabeça na água e todos os nossos corpos brilhavam por causa do plâncton. Foi útil para não nos perdermos uns dos outros.

Já estávamos perto da ilha quando avistamos duas luzes a leste. Eram 22h. Passamos quase um dia inteiro na água. Tocamos nossos apitos e gritamos como nunca, com meio corpo para fora da água. Foram cinco minutos eternos. O tempo que aquela canoa com dois pescadores levou para chegar até a gente. Estavam ali por uma pura casualidade. Me pegaram pelos ombros como um peixe, e desabei. A adrenalina se foi, e veio a dor. O preço de nadar vários quilômetros durante oito horas nessas condições. O preço que paguei ao mar por me deixar viver.

Meu corpo estava no limite de suas forças, mas minha mente ainda mais. O desafio mental foi maior do que o físico. Vi como subiram María e os outros três passageiros. Chegamos à praia, me ajoelhei e me deixei cair na areia. Ela junto comigo. Não falamos, só nos olhamos. Todo mundo me faz sempre a mesma pergunta: “Pensou na morte?”. Eu sabia que a morte estava ali, que estava presente, mas não a vi, só via María.

Hoje, dois anos depois, não há um dia em que não lembre o que vivi. Dos 25 náufragos, no fim 23 foram resgatados. Todos menos Jorge e Víctor. Penso neles e digo para mim mesmo: “Poderia ter sido eu”. Convivo com isso. O grupo que permaneceu nos restos do barco foi salvo, em um milagre, por um navio cargueiro que cruzou com eles quando estavam à deriva.

Muitos me chamam de herói, mas sou apenas um sobrevivente. Voltei ao meu trabalho assim que cheguei à Espanha e fui novamente para o mar assim que foi possível. Tinha que normalizar a minha vida para me recuperar.

Dizem que o que não te mata te fortalece, que grande verdade. Todo dia 16 de agosto eu nado no mar, onde quer que eu esteja, para relembrar como somos fortes e vulneráveis ali dentro. Preciso ter essa sensação. Depois me sento de frente para o mar, de noite, olho para ele e não consigo acreditar no que fiz. Dá medo, mas o medo te impulsiona a viver e a tomar decisões.

Agora relativizo todas as coisas. Por exemplo, antes da minha viagem para a Indonésia, estava frustrado porque uma lesão no tornozelo me impedia de praticar meus esportes favoritos. Inclusive, quando alguém falava de jogar futebol, eu fingia nem escutar. A partir do naufrágio, deixei de me preocupar com isso e adotei outra atitude. Não posso jogar futebol? Tudo bem, tenho o alpinismo, minha outra grande paixão.

E também sempre me lembro do momento em que, durante o naufrágio, olhei para trás e vi que nossas mochilas estavam afundando. Agora sei que nem minha câmera fotográfica, nem me celular nem tantas outras coisas materiais são de grande importância.

Não fui a nenhum psicólogo, porque a melhor está em casa. As pessoas te ajudam e tentam criar empatia, mas é impossível. Em um caso assim, só alguém que tenha passado pelo mesmo pode te compreender, e eu a tenho ao meu lado todas as noites. Não tenho problemas para falar do naufrágio, me alivia.

Também aprendi a perseguir meus sonhos. Sempre havia brincado com a ideia de fazer rotas turísticas sobre a história árabe de Madri, uma das minhas paixões. Mas, apesar de desejar fortemente, nunca havia me atrevido. Ao voltar da Indonésia, todas as minhas dúvidas se dissiparam. É isso que eu quero de verdade? Então vou em frente. O mar me transformou, me levou a um umbral desconhecido da minha mente e do meu corpo, e me ensinou a lutar por meus desejos.

Após o naufrágio, meu pai atravessou um momento ruim, e passei muito tempo ao lado dele. Nada importa mais para mim do que meus amigos, minha família e minha mulher. Dois meses depois de nossa volta, María ficou grávida de Malena, que já está com 18 meses. E agora, todas as noites, eu sussurro em seu ouvido: “Filha, se lembre, você veio do mar”.