Obama promete intervir se Trump violar os direitos civis

Presidente defende a liberdade de imprensa contra o assédio de seu sucessor aos jornalistas

Obama em sua última entrevista coletiva como presidente.
Obama em sua última entrevista coletiva como presidente.Pablo Martinez Monsivais (AP)

Mais informações

Barack Obama não vai ficar de braços cruzados depois de deixar a Casa Branca na sexta-feira. O presidente quer passar uns meses tranquilos, escrevendo e com a família, disse na quarta-feira em sua última conferência de imprensa. Mas acrescentou que vai intervir no debate se observar que o Governo Trump estiver discriminando minorias, silenciando a imprensa ou expulsando imigrantes ilegais que chegaram aos EUA como menores. Embora formulado com elegância e sem mencionar seu sucessor, um aviso desta natureza é incomum por parte de um presidente em final de mandato, e é um reflexo da preocupação de milhões de norte-americanos com o desembarque do novo presidente em Washington.

Obama listou quatro cenários que poderiam tirá-lo do silêncio próprio de muitos ex-presidentes novatos. Um, casos de discriminação. Dois, obstáculos explícitos ao voto das minorias. Três, tentativas institucionais de silenciar a imprensa. E quatro, esforços para deter jovens imigrantes e enviá-los a outros países. “Tudo isso me faria dizer o que penso, mas não significa que vou me apresentar a nenhuma eleição”, disse.

Trump prometeu na campanha eleitoral expulsar os onze milhões de imigrantes sem documentos que vivem nos EUA, posição que posteriormente deixou no ar. Durante a campanha e depois de sua vitória eleitoral em 8 de novembro, foi atacado pela imprensa e chegou a silenciar repórteres em uma coletiva de imprensa. A equipe do novo presidente está considerando a possibilidade de tirar os jornalistas que cobrem a Casa Branca da sala de imprensa na Ala Oeste, e realizar as conferências de imprensa como a de ontem em outro lugar. Muitos jornalistas trabalham permanentemente em cubículos na Ala Oeste.

“Ter vocês neste edifício”, disse Obama no início da conferência de imprensa, “nos obriga a ser honestos e trabalhar mais”. “Os EUA e nossa democracia precisam de vocês”, acrescentou.

O presidente fez alusão à liberdade de imprensa como um dos valores que os EUA devem defender no mundo, junto com os direitos humanos e uma série de normas, como a que impede que um país grande invada outro pequeno. Obama admitiu que os EUA não são um país perfeito e nem sempre esteve à altura desses padrões, mas expressou a esperança de que o próximo governo continue defendendo esses valores e não dê espaço para países que não defendem isso.

Trump desprezou as alianças tradicionais dos EUA, como a OTAN e a UE, e tem cortejado o presidente russo, Vladimir Putin.

Como em todas as declarações e discursos de Obama desde a vitória de Trump, não o mencionou explicitamente, mas ninguém duvidou que se referia a ele a todo momento.

O presidente dedicou boa parte da conferência na Casa Branca a defender as últimas decisões de seu mandato. Nos dois meses e meio da transferência de poder, não se conformou com o papel de pato manco — o termo usado para o presidente em seu final de mandato, sem influência ou capacidade de governar — e adotou uma série de decisões que podem condicionar o sucessor.

A última, a comutação parcial da sentença para o soldado Chelsea Manning, responsável pelo vazamento do Wikileaks em 2011. O presidente justificou a redução da sentença alegando que ele já cumpriu parte da pena e a justiça tinha sido feita.

Obama sai com uma popularidade próxima aos 60%; Trump chega com uma popularidade em torno de 40%, um dos níveis mais baixos para um novo presidente nos últimos tempos.