Obama deixa legado incompleto e sob risco de demolição

Presidente que chegou com mensagem de unidade será sucedido por Trump, que venceu pregando a xenofobia

Obama antes de entrar no avião presidencial, em abril de 2015 na Jamaica.
Obama antes de entrar no avião presidencial, em abril de 2015 na Jamaica.Pete Souza (The White House)

MAIS INFORMAÇÕES

A ascensão e a vitória do republicano Trump talvez já estavam sendo gestadas desde o primeiro dia, quando a miragem do democrata Obama, presidente que parecia anunciar o fim do ódio étnico e o advento de uma era pós-racial, ocultou o profundo mal-estar que o seu triunfo havia provocado em uma boa parte do país.

"Eu me sinto muito bem. Não passo frio. Veja as pessoas. Não houve nada mais bonito no mundo. Acredite. Veja o sol: Deus está olhando para nós", disse oito anos atrás a este correspondente uma mulher negra de 78 anos, uma das centenas de milhares de pessoas que lotaram o National Mall, o parque central de Washington, para ver Obama fazer o juramento de seu cargo. Depois disso, ela acrescentou: "Não vamos esperar que o homem faça tudo sozinho, certo? Ele não é Jesus Cristo".

Essa mulher, que vivera os Estados Unidos da segregação e certamente jamais imaginara ver um negro naquela posição, captou a nobreza do momento e, ao mesmo tempo, intuiu aquilo que viria a acontecer.

Rapidamente, Obama, nascido em 1961 no Havaí de uma mãe branca e um pai negro do Quênia, descobriu que os limites de seu poder e as resistências encurtariam o terreno de jogo. O sonhador –o mesmo que proclamou em um discurso de campanha que aquele era "o momento em que o crescimento dos oceanos começou a diminuir e o planeta começou a se curar"— se metamorfoseou em pragmático e ambíguo.

Obama prometera acabar com as guerras. De fato, retirou dezenas de milhares de soldados do Iraque e do Afeganistão e ganhou o Nobel da Paz, mas deu continuidade aos bombardeios, com outros métodos, como os aviões não pilotados. Mandou matar Osama Bin Laden, mas não soube antecipar a chegada do Estado Islâmico (EI), que acabou por forçá-lo a retornar àquele país e a realizar bombardeios na Síria. Tentou desativar a prisão de Guantánamo, símbolo dos piores excessos do Governo precedente, mas não conseguiu, ou não fez o esforço suficiente para tanto. Ensaiou uma mudança de direção geoestratégica voltada para a Ásia e o Pacífico, mas o Oriente Médio e a Europa o impediram de avançar nesse sentido. Pôs um fim a décadas de hostilidade diplomática com Cuba e com o Irã, mas assistiu, atônito, ao expansionismo da Rússia de Vladimir Putin.

Obama foi o presidente que regularizou a situação de centenas de milhares de imigrantes que haviam chegado aos EUA ainda crianças, mas também foi chamado de deportador-chefe por causa do recorde que seu governo bateu em termos de deportações de pessoas sem documentos. Reformou o sistema de saúde e permitiu que 20 milhões de pessoas tivessem acesso a seguro-saúde, mas preservou o caráter privado do sistema e ficou distante de propiciar uma cobertura universal, o que continua a fazer dos EUA uma exceção, nesse item, dentro do mundo desenvolvido. Apertou os controles sobre o sistema bancário a fim de evitar uma nova crise financeira, mas não foi tão longe como Franklin Roosevelt na Grande Depressão. Com a ajuda do então chefe da Reserva Federal (FED), Ben Bernanke, e com um plano de estímulo multimilionário, tirou os EUA da Grande Recessão muito antes dos países europeus e criou quase 12 milhões de empregos, mas muitos deles eram precários, e, durante o seu mandato, as desigualdades econômicas e sociais aumentaram.

"Seu maior êxito é certamente a lei da saúde", afirma, ao telefone, o historiador de Princeton Julian Zelizer. Michael Kazin, historiador de Georgetown e diretor da revista Dissent, concorda: "Embora queiram revogá-la, os republicanos hoje concordam com a necessidade de uma cobertura universal. É uma grande mudança", afirma Kazin, por e-mail. "Obama também demonstrou que um homem negro pode ser tão efetivo e responsável –e popular— como presidente quanto um homem branco. No longo prazo, isso fará com que o racismo diminua".

"É possível que ele venha a ser visto como uma figura de transição como Bill Clinton, mas certamente não será visto como uma figura fracassada, como Lyndon Johnson ou Jimmy Carter", avalia Kazin, comparando Obama aos presidentes democratas mais recentes.

Kazin e Zelizer concordam quanto àquele que foi o maior fracasso de Obama. "Ele não conseguiu manter o controle democrata do Congresso nem, em muitos lugares, construir um partido capaz de vencer as eleições", lamenta Kazin. Obama se reelegeu em 2012, mas, nos últimos anos, o Partido Democrata perdeu o controle das duas casas do Congresso e o Partido Republicano consolidou seu controle sobre os Estados.

"Os democratas não dispõem de uma nova geração natural de líderes", avalia Zelizer. Uma demonstração desse vácuo foi o fato de Hillary Clinton, uma política de uma geração anterior à do próprio Obama, ter sido a candidata que concorreu com Trump nas eleições de novembro e que, contrariando todos os prognósticos, acabou derrotada.

As dificuldades de Obama não podem ser entendidas sem a virada brusca à direita dos republicanos ao longo dos últimos anos e sua política de bloqueio sistemático no Congresso, bastante documentada pelos cientistas políticos independentes Norman Ornstein e Thomas Mann no livro It's even worse then it looks [É bem pior do que parece], de 2012. Foram o partido do não, preferindo paralisar Washington a ajudar o presidente democrata a governar.

Os anos de Obama marcaram uma transformação na sociedade norte-americana, que se tornou mais diversificada –mais hispânica— e mais tolerante. Hoje, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal em todo o país e uma prática tão aberta quanto é decadente a pena de morte. Ao mesmo tempo, foram os anos em que a polarização se acentuou –não só em Washington, como descreviam Mann e Ornstein, mas entre a população. A primeira presidência de um afro-americano coincidiu com a multiplicação dos casos de violência policial contra os negros e com explosões de tensão racial. Surgiram movimentos populistas e conservadores como o Tea Party e se banalizou um discurso de ódio, alinhado com as mais perversas teorias conspiratórias, que os mais ingênuos acreditavam ter sido erradicadas na vida pública. Uma parcela do eleitorado branco estava com medo: o mundo escapava entre os dedos de suas mãos. Os ingredientes do trumpismo residiam aí.

A presença de Obama –um homem que, como escreve a romancista Marilynne Robinson na revista The Nation, sintetiza na sua própria biografia os Estados Unidos do século XXI, multiétnico, multirracial, cosmopolita— na Casa Branca coincidiu, e talvez tenha catalisado, a ascensão do seu oposto, Donald Trump.

Para os apoiadores de Obama, o fato de um mandato inaugurado com esperanças quase místicas se encerrar dessa maneira constitui um anticlímax. Buscando referencias no passado, o historiador Kazin menciona Johnson, Carter e Clinton. Mesmo considerando as diferenças existentes –a principal delas sendo que, ao contrário de várias projeções, Obama sobreviveu à presidência--, ele também poderia ser comparado a John F. Kennedy: não foi um presidente que obteve êxitos inquestionáveis, e seu legado é limitado, mas, por seu significado histórico e seu final trágico, tornou-se um mito de toda uma geração.