Trump intensifica o ataque aos serviços de inteligência

Na primeira coletiva em seis meses, presidente eleito não dissipa as suspeitas de conflito de interesses

Donald Trump, em sua primeira coletiva de imprensa em seis meses em Nova York na quarta-feira 11 de janeiro de 2017.
Donald Trump, em sua primeira coletiva de imprensa em seis meses em Nova York na quarta-feira 11 de janeiro de 2017.TIMOTHY A. CLARY (AFP)

Foi sua primeira coletiva em seis meses, pouco mais de uma semana antes de se tornar o presidente número 45 dos Estados Unidos. Na Trump Tower, em Nova York a expectativa era máxima. O presidente eleito apareceu acompanhado do vice-presidente eleito Mike Pence e de seus filhos Don Junior e Eric, além da equipe de advogados encarregados de avalizar suas decisões para dissipar as suspeitas sobre seus conflitos de interesse.

Trump, que além de construtor de arranha-céus e empresário falido de casinos foi estrela de reality show, encenou a coletiva como um reality show, com o drama, as digressões, a confusão, as grosserias e os aplausos próprios da claque de um espetáculo desse tipo. Em alguns momentos, referiu-se a si mesmo na terceira pessoa. Brincou sobre sua alergia aos germes para negar que havia participado de orgias em Moscou. Lançou ataques virulentos contra jornalistas e meios de comunicação e negou a palavra a um jornalista de um desses meios, a CNN. Esclareceu poucas dúvidas e acabou brincando com o refrão de seu reality show, The Apprentice (O Aprendiz): You’re fired, “você está demitido”.

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“Sobre a pirataria, acho que foi a Rússia”, disse Trump na primeira admissão clara, de sua parte, da responsabilidade desse país na tentativa de sabotar as eleições de 8 de novembro. Os serviços de inteligência norte-americanos acreditam que ajudar Trump era o objetivo do roubo e da divulgação dos e-mails da equipe da candidata democrata Hillary Clinton. O presidente russo, Vladimir Putin, controlou a operação, de acordo com essas fontes.

As conclusões, divulgadas em dezembro, abriram um confronto entre o presidente eleito, que se recusou a aceitá-las, e a chamada comunidade de inteligência, irritada com as provocações e ataques do próximo comandante-em-chefe.

O caso se complicou algumas horas antes da entrevista coletiva, quando se soube que os chefes da espionagem dos EUA haviam transmitido a Trump uma informação não verificada, mas potencialmente muito prejudicial para o futuro presidente. Num documento, entregue a Trump na sexta-feira, constam detalhes escabrosos que poderiam comprometer Trump e que a Rússia poderia usar para chantageá-lo. O relatório também aponta contatos entre a equipe do presidente eleito e agentes russos durante a campanha eleitoral.

Nenhuma dessas alegações, que circulavam havia meses em Washington, mas ninguém publicou porque era impossível prová-las, foi referendada por fontes públicas ou evidências conclusivas, e de fato contêm alguns erros de vulto.

A CNN abriu fogo na terça-feira ao revelar que os serviços secretos tinham informado Trump sobre a existência do relatório. Foi o vazamento dessa notícia na CNN e a publicação do suposto relatório no portal Buzzfeed que provocou a ira de Trump contra os jornalistas desses veículos de comunicação, e contra os serviços de inteligência.

O outro problema enfrentado por Trump nessa turbulenta transferência de poder é a suspeita de que suas empresas possam se beneficiar de seu poder político. A entrevista coletiva deveria servir para resolver o problema. A solução é passar a gestão das empresas a Don Jr. e Eric e congelar acordos internacionais. A advogada Sheri Dillon explicou na coletiva que Trump doará ao Departamento do Tesouro os pagamentos de estrangeiros nos hotéis de Trump. Trata-se de evitar violar a cláusula constitucional que impede que o presidente receba pagamentos que possam parecer subornos.

O arranjo não resolve o problema principal de conflito de interesses: Trump continuará sendo o proprietário do grupo e qualquer lucro acabará sendo um lucro para Trump ou sua família.

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