Tribuna
i

Prefeito Doria, entenda a vocação criativa de São Paulo sem esquecer a informalidade

Economista Ana Carla Fonseca propõe que a nova gestão invista na criatividade da cidade

Vendedor ambulante na avenida Paulista.
Vendedor ambulante na avenida Paulista.Marcelo D. Sants (Folhapress)

MAIS INFORMAÇÕES

São Paulo tem pressa. Pressa não apenas de vencer e de ajudar o Brasil a sair da pior recessão do século, mas também de ser uma cidade com mais qualidade de vida para seus 12 milhões de filhos, por nascimento ou opção.

É com essa ânsia em mente e à luz de trabalhos em economia criativa desenvolvidos em mais de 170 cidades que me permito sugerir duas trilhas para nossa cidade.

A primeira delas é decodificar São Paulo como um mosaico de vocações criativas. As indústrias criativas – design, arquitetura, artes, ciência e tecnologia, dentre outras que vivem de criatividade – não somente geram valor agregado, como também apresentam potencial para dinamizar setores tradicionais da economia. De quebra, são especialmente atraentes para os jovens e tendem a ter taxas de crescimento mais elevadas do que as demais. Porém, localizá-las no espaço urbano – como os distritos e clusters criativos se propõem a fazer - requer alguns cuidados. Um deles é contemplar a informalidade.

Recorro aqui à figura da vendedora de salgados (ou à costureira ou ao fotógrafo). Hoje sem registro, ela deve poder ser contemplada no cluster de gastronomia (ou moda ou audiovisual) que for fomentado em seu bairro – e não aniquilada por ele. Sim, ela provavelmente precisará ter acesso a programas de empreendedorismo e capacitação, articulados com escolas técnicas, o SEBRAE e instituições afins. É o que Buenos Aires faz com sucesso, em meio a um contexto próximo ao nosso. Por fim e como uma economia criativa requer uma ecologia criativa, trabalhar a vida nas ruas é crucial. A inspiração vem do programa Almacenes de Chile, que fortalece a sustentabilidade dos pequenos estabelecimentos de rua, tão cruciais para reforçar as tramas urbanas e garantir o convívio social e a diversidade nas vias.

A segunda trilha é a do universo do empreendedorismo digital, em especial o que traz impacto urbano positivo. Não se trata apenas de ter uma cidade mais inteligente, com base em todas as tecnologias oferecidas para as smart cities, mas de valorizar a inteligência de seus cidadãos. Se São Paulo traz em sua história a marca do empreendedorismo, é também a partir dele que pode mudar seu futuro.

Nossa cidade recorrentemente integra a lista dos 20 melhores locais do mundo para o universo de startups, criadas e desenvolvidas por cidadãos capazes de identificar individualmente soluções para questões coletivas - da infraestrutura à educação, da segurança à ecologia urbana, dos negócios sociais ao direito à cidade. São Paulo pode se transformar em um laboratório vivo e efervescente de propostas inovadoras, se a Prefeitura facilitar o ambiente de negócios e promover a conexão entre empresas, empreendedores, incubadoras e fundos. É esse caminho de valorização da inteligência coletiva que cidades tão distintas como Paris, México, Nova York e Seul vêm liderando com enorme êxito e satisfação social. E que poderia resgatar a autoestima e a cidadania ativa dos paulistanos, transformando São Paulo em uma cidade verdadeiramente criativa.

Ana Carla Fonseca é economista e doutora em urbanismo e diretora da Garimpo de Soluções

Arquivado Em: