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TRIBUNA

Prefeito Doria, entenda a vocação criativa de São Paulo sem esquecer a informalidade

Economista Ana Carla Fonseca propõe que a nova gestão invista na criatividade da cidade

Vendedor ambulante na avenida Paulista.
Vendedor ambulante na avenida Paulista. Folhapress

São Paulo tem pressa. Pressa não apenas de vencer e de ajudar o Brasil a sair da pior recessão do século, mas também de ser uma cidade com mais qualidade de vida para seus 12 milhões de filhos, por nascimento ou opção.

É com essa ânsia em mente e à luz de trabalhos em economia criativa desenvolvidos em mais de 170 cidades que me permito sugerir duas trilhas para nossa cidade.

A primeira delas é decodificar São Paulo como um mosaico de vocações criativas. As indústrias criativas – design, arquitetura, artes, ciência e tecnologia, dentre outras que vivem de criatividade – não somente geram valor agregado, como também apresentam potencial para dinamizar setores tradicionais da economia. De quebra, são especialmente atraentes para os jovens e tendem a ter taxas de crescimento mais elevadas do que as demais. Porém, localizá-las no espaço urbano – como os distritos e clusters criativos se propõem a fazer - requer alguns cuidados. Um deles é contemplar a informalidade.

Recorro aqui à figura da vendedora de salgados (ou à costureira ou ao fotógrafo). Hoje sem registro, ela deve poder ser contemplada no cluster de gastronomia (ou moda ou audiovisual) que for fomentado em seu bairro – e não aniquilada por ele. Sim, ela provavelmente precisará ter acesso a programas de empreendedorismo e capacitação, articulados com escolas técnicas, o SEBRAE e instituições afins. É o que Buenos Aires faz com sucesso, em meio a um contexto próximo ao nosso. Por fim e como uma economia criativa requer uma ecologia criativa, trabalhar a vida nas ruas é crucial. A inspiração vem do programa Almacenes de Chile, que fortalece a sustentabilidade dos pequenos estabelecimentos de rua, tão cruciais para reforçar as tramas urbanas e garantir o convívio social e a diversidade nas vias.

A segunda trilha é a do universo do empreendedorismo digital, em especial o que traz impacto urbano positivo. Não se trata apenas de ter uma cidade mais inteligente, com base em todas as tecnologias oferecidas para as smart cities, mas de valorizar a inteligência de seus cidadãos. Se São Paulo traz em sua história a marca do empreendedorismo, é também a partir dele que pode mudar seu futuro.

Nossa cidade recorrentemente integra a lista dos 20 melhores locais do mundo para o universo de startups, criadas e desenvolvidas por cidadãos capazes de identificar individualmente soluções para questões coletivas - da infraestrutura à educação, da segurança à ecologia urbana, dos negócios sociais ao direito à cidade. São Paulo pode se transformar em um laboratório vivo e efervescente de propostas inovadoras, se a Prefeitura facilitar o ambiente de negócios e promover a conexão entre empresas, empreendedores, incubadoras e fundos. É esse caminho de valorização da inteligência coletiva que cidades tão distintas como Paris, México, Nova York e Seul vêm liderando com enorme êxito e satisfação social. E que poderia resgatar a autoestima e a cidadania ativa dos paulistanos, transformando São Paulo em uma cidade verdadeiramente criativa.

Ana Carla Fonseca é economista e doutora em urbanismo e diretora da Garimpo de Soluções

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