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OPINIÃO

Prêmio Fénix de cinema: português e espanhol unidos sem complexos

A cerimônia na noite de quarta-feira mostrou que muitas coisas unem a América Latina para além de velhos folclores

Os atores Gael García Bernal e Luis Gnecco comemoram o Fénix de melhor filme para ‘Neruda’.
Os atores Gael García Bernal e Luis Gnecco comemoram o Fénix de melhor filme para ‘Neruda’. AP

Não havia apresentador e os discursos de agradecimento não excederam um minuto. Bem, o de Sonia Braga sim. Mas é Sonia Braga e ela pode fazer o que quiser. Em troca, um monte de apresentações musicais baseadas no ecletismo — tanto nas melodias quanto nos intérpretes —, que na plateia não brilharam tanto como na televisão. E uma lista de filmes curiosa, brilhante, artística e também — por que não? — sucesso de bilheteria. Na noite de quarta-feira, em sua terceira edição, o Prêmio Fénix, organizado pela associação Cinema 23, que reúne quase 700 profissionais da América Latina, Espanha e Portugal, reafirmou sua essência: não quer agradar ninguém e por isso se permite muitos luxos, como ter dois prêmios de fotografia — um na seção de ficção e outro na de documentário —, ou não ter prêmios de revelações, atores coadjuvantes, curtas-metragens, animação ou efeitos especiais. Ou que muitos dos títulos em competição sejam mais de autor do que comerciais. O prêmio é dado por artistas e recebido por artistas. Isso sim, numa distribuição bem calculada: Neruda levou quatro, embora um dos que pareciam óbvios, o de melhor direção, acabou nas mãos de Kleber Mendonça Filho, por Aquarius.

Porque essa é outra característica: português e espanhol irmanados sem complexos. No fim da cerimônia, este repórter falou com Wagner Moura, o Pablo Escobar de Narcos, que durante a festa se referiu ao atual Governo de seu país como golpista: “Vim a esse evento principalmente para dizer isso”. E em seguida explicou que ficou surpreso que nenhum outro cineasta — especialmente os mexicanos — tenha falado sobre o que aguarda o continente com Donald Trump. “Sinceramente, esperava mais opiniões e contribuições”. A auréola hipster que o Fénix carrega se reflete nos filmes apresentados — indiscutíveis, por outro lado — entre os finalistas, como Boi Neon, Te Prometo Anarquía, La Academia de las Musas ou La Muerte de Luis XIV. E no fato de que o prêmio de honra foi concedido a Alejandro Jodorowsky.

Tudo isso é muito bom e, no entanto, ainda há muito a ser feito. Porque o Fénix foi criado com dois objetivos: celebrar o talento dos artistas do mundo latino e fazer com que o público ibero-americano veja o cinema latino. Não só o de seu país, mas o de seus vizinhos. Em relação a esse aspecto, o trabalho vai além dos poderes da Cinema 23 para se tornar um problema estrutural. Quantos filmes em competição foram vistos em outros países latinos além do seu próprio? Mais além das defasagens entre os lançamentos (Neruda passou despercebido em setembro nas salas espanholas, enquanto no México está sendo aguardado com ansiedade), foi entregue, por exemplo, o galardão dos exibidores ao filme Los 33, da mexicana Patricia Riggen, sobre os mineiros chilenos presos nas profundezas da terra, que na Espanha saiu diretamente em DVD.

Ainda há muito a ser feito, mas a cerimônia na noite de quarta-feira mostrou que nos unem muitas coisas além de velhos folclores e que esse futuro compartilhado nascerá da paixão dos criadores em levar o público a um caminho comum. A educação e a vontade podem ser as melhores armas contra os monopólios de distribuição. E o Fénix possui essa alma.

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