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A odisseia na hora de pagar em dinheiro na Venezuela

Venezuelanos não poderão retirar mais de 10.000 bolívares (17 reais) de caixas automáticos e bancos por causa da escassez de notas

Duas mulheres compram em um supermercado de Caracas.

As ruas de muitos bairros de Caracas, capital da Venezuela, recebem diariamente inúmeras pessoas em filas que esperam, ainda que depois de tanto tempo o que realmente fazem é resistir. A maioria aguarda sua vez de comprar alimentos, produtos regulamentados como os que começam a aparecer cada vez com mais frequência, mas a preços exorbitantes para o venezuelano médio. Não são os únicos casos. Na terça-feira, grupos de idosos também se aglomeravam nos bancos para receber sua aposentadoria, visando o Natal. As filas também são evidentes nos bancos e nos caixas automáticos. Pelo menos eram até quinta-feira.

A Superintendência de Instituições do Setor Bancário da Venezuela emitiu uma circular na qual ordena ao sistema financeiro que restrinja a entrega de dinheiro vivo através de caixas automáticos e caixas de bancos. A partir de 1 de dezembro e até novo aviso, só poderão ser retirados 10.000 bolívares por dia (17 reais, no câmbio do mercado negro). Não foram colocados limites para as operações eletrônicas (transferências) e para os pagamentos com cartões de débito. Até o momento, e dependendo do banco, pode-se retirar do caixa automático entre 12.000 e 16.000 bolívares (21 a 28 reais), ainda que praticamente não existia limite nos bancos. A exigência dos venezuelanos era de que se pudesse sacar mais dinheiro dos caixas automáticos.

A medida, inédita na Venezuela, implica um grau maior de complicação na odisseia que é pagar em dinheiro em meio a uma inflação enlouquecida. Fontes do setor financeiro afirmaram que a decisão obedece à queda da circulação da nota de 100 bolívares, a de maior valor e usada em quase todas as transações, que vale 0,05 dólares (0,17 reais) de acordo com a cotação não oficial. Esta semana um dólar equivalia a praticamente 2.000 bolívares (3,42 reais). Há duas semanas, o câmbio estava em 1.400.

A decisão acentua o já extenuante dia a dia da população. Cada vez se encontram mais produtos nos mercados, muitos importados, mas nem todos podem comprá-los. Além disso, pagar em dinheiro se tornou uma ilusão. Na terça-feira, dia em que a maioria dos venezuelanos recebe metade de seu salário – o pagamento é feito de quinze em quinze dias – o movimento nos mercados era maior do que o habitual. Os problemas, os mesmos. Em uma localidade de Chacao, área de classe média do leste de Caracas, uma caixa de um supermercado contava dezenas de notas com inusitada rapidez. A cliente, uma senhora já idosa, lhe entregou sete pacotes de 1.000 bolívares cada um em notas de 10, com os quais comprou arroz e molho de tomate. Uma raridade. Quando alguém paga com notas de valor tão baixo, o comum é receber uma cara feia e um gesto de negação. “Não me aceitam porque veem que sou idosa e estou doente”, disse a senhora na saída do mercado. Nos bancos começam a ocorrer problemas porque os clientes se negam a receber notas de 5 e de 10, as de menor valor, junto com as de 2, com o que não se pode pagar praticamente nada. Sabem que muitas vezes irão recusá-las.

Além de ser pouco prático, andar com grandes quantidades de dinheiro se tornou inseguro, não só para quem paga. Muitos vendedores de rua já possuem máquinas de cartão para evitar riscos. “Eu não posso voltar para casa de noite com muito dinheiro, serei assaltado”, explica Henry, um vendedor de cachorros-quentes no centro de Caracas. Um normal custa 700 bolívares; o especial, 1.000. Se alguém quiser pagar em dinheiro, deverá dar pelo menos sete notas de 100. No caso de pagar com notas de 50, seriam 15; de 20, 35 notas; de 10, 70. Na verdade, Henry não aceitaria.

Mas metade da população venezuelana não tem conta em bancos e certos setores, como a construção e os serviços domésticos, se acostumaram a receber em dinheiro diariamente ou no final da semana. Além disso, no interior do país e especialmente nas regiões de fronteira há atualmente uma grande incerteza porque a maioria dos serviços é paga com notas e estão pouco acostumados, pela desconfiança que causam, aos pagamentos nas máquinas de cartão.

É esperado que a decisão seja o começo da progressiva entrada em circulação de notas de valor mais alto, prevista para o final do ano. Mesmo que há vários anos os economistas alertem sobre a necessidade de se emitir moeda corrente de valor maior, o presidente, Nicolás Maduro, se negava. É ele que tem a última palavra após a reforma da lei do Banco Central da Venezuela feita pelo falecido governante Hugo Chávez, que tirou qualquer vestígio de autonomia do instituto emissor.

Existe uma explicação para a negativa de Maduro. Ordenar a impressão de novas notas seria aceitar a inflação alta que prejudicou seu mandato. É, também, um novo foco de descontentamento entre a população que viu seu poder aquisitivo diminuir como nunca.

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