Eleições EUA

O personalismo de Trump frente ao ‘big data’ de Clinton: a outra eleição

Pleito coloca à prova uma campanha improvisada que aposta tudo na figura do candidato

Hillary Clinton faz um comício em Kent, Ohio.
Hillary Clinton faz um comício em Kent, Ohio.Andrew Harnik (AP)

Em Reading, uma cidade industrial na Pensilvânia, foi possível constatar há alguns dias a diferença entre as campanhas de Trump e Clinton. Na mesma rua, em lados opostos, encontram-se as sedes de ambos os candidatos. A sede democrata ocupava um andar com vários escritórios em um alto edifício. Tinha mais de uma dezena de pessoas contratadas, em funções específicas de organização e mobilização de eleitores, além de voluntários nos escritórios e nas ruas. Na sede republicana, um escritório comercial térreo, havia apenas uma pessoa contratada e um pequeno grupo de voluntários.

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A campanha presidencial retrata, de um lado, uma máquina com tecnologia de ponta, com um amplo quadro de funcionários especialistas na utilização das mais modernas técnicas de mobilização e persuasão; do outro, uma equipe rudimentar gira em torno do apelo das mensagens de uma só pessoa. Clinton tem mais de 800 pessoas trabalhando para a campanha em todos os EUA. Trump tem cerca de 350, embora a maioria faça parte do Partido Republicano.

Trump conseguiu seu feito nas primárias do Partido Republicano não graças a uma arrecadação milionária: gastou menos do que muitos de seus rivais. Nem com uma organização para conquistar votos de porta em porta e convocar os eleitores para ir às urnas: em estados-chave, seus rivais tinham mais e melhores equipes para mobilizar o voto. O magnata nova-iorquino não media suas palavras de acordo com seu efeito sobre as pesquisas, como se acostumaram a fazer tantos políticos: soltava instintivamente o que passava em sua cabeça ou o que intuía que poderia funcionar.

O segredo de Trump foi Trump. Sua personalidade — um bilionário que vendia uma imagem de sucesso na vida pessoal e nos negócios — e capacidade de atrair os holofotes com insultos e reações explosivas — embora atue no ramo da construção, sua fama a nível nacional se deve ao seu reality show — lhe concederam centenas de horas gratuitas na televisão e impulsionaram sua nomeação.

Sasha Issenberg é o autor de The Lab Victory (“o laboratório da vitória”), um ensaio imprescindível sobre a evolução das técnicas eleitorais. Em uma entrevista por telefone, Issenberg explica que a campanha de Trump se assemelha mais às campanhas dos anos setenta nos EUA ou às campanhas latino-americanas do que às do século XXI.

“Há uma utilização dos meios de comunicação de massa, anúncios na rua, eventos de massa, mas não há muita campanha além disso”, diz. Tudo gira em torno da figura do candidato, e o objetivo é colocá-lo todos os dias diante do máximo número de pessoas, com presença na televisão ou em comícios numerosos. Trump acrescenta a isso a ferramenta do Twitter. Não há distinção no target, o alvo da mensagem: o mesmo recado deve valer para os milhões de potenciais eleitores.

Segundo Issenberg, é uma campanha baseada na persuasão, mais do que na mobilização dos eleitores, o que requer um intenso trabalho de campo. A de Clinton, por sua vez, combina persuasão e mobilização com a utilização de modelos estatísticos para identificar os eleitores suscetíveis de serem convencidos e mobilizados e elabora mensagens específicas para eles. A campanha da candidata democrata, assim como a de Obama em 2008 e 2012, é muito tecnológica e, ao mesmo tempo, primitiva: o big data permite saber quais bairros, quadras e portas devem ser visitados para convencer os potenciais eleitores, cara a cara, para que efetivamente votem no candidato.

Trump fala com um tom e mensagem para todo o país; Clinton, com diferentes mensagens e tons, adaptados aos diferentes públicos. “O que torna a campanha de Trump tão falha é que muitas de suas posições estão longe de ter o apoio da maioria, mas as apresenta a todas as pessoas”, diz Issenberg. Não há nuances.

Issenberg acredita que, se Trump utilizasse os métodos de Clinton, ao invés de proclamar que proibirá a entrada dos muçulmanos nos Estados Unidos, uma mensagem impopular para boa parte da população, desenvolveria um modelo estatístico que identificaria os lares islamofóbicos e levaria essa mensagem a eles, poupando-se de reações contrárias.

Trump, que tem quebrado tantos precedentes nesta campanha eleitoral, destruiria outro se derrotar Clinton na terça-feira. Demonstraria que é possível chegar à Casa Branca sem levar em conta as décadas de experiência na gestão de campanhas.

“A campanha de Trump não é uma má campanha. Não é uma campanha caótica. É uma campanha disfuncional”, disse em meados deste ano à revista The New Yorker James Carville, chefe da campanha de Bill Clinton em 1992, o homem que cunhou a famosa frase: “É a economia, estúpido!”. Mas acrescentou: “Não há campanha. Todos que trabalham nisto e são pagos por isto dizem: ‘Deus, olha que funciona. Vamos nos tornar inúteis’. Terá destruído uma profissão inteira”.

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