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Maduro resiste

O presidente venezuelano está numa fuga para frente para se agarrar no poder

Nicolás Maduro recebe honras militares no aeroporto de Caracas.
Nicolás Maduro recebe honras militares no aeroporto de Caracas. REUTERS

Nicolás Maduro, como se temia, não hesitou em violar o ordenamento jurídico do próprio chavismo para permanecer no poder.

É absolutamente injustificável que uma nação com os recursos materiais e humanos de que a Venezuela dispõe esteja passando por uma crise humanitária inconcebível em que a escassez crônica já é o menor dos problemas. Agora devemos acrescentar a impotência de um sistema de saúde destruído para combater o avanço da difteria — doença de alta mortalidade se não for tratada adequadamente —, e sobre cuja extensão alertou, alarmada, a Assembleia Nacional, sede da soberania popular cuja autoridade e legitimidade Maduro e seu círculo negam.

Os insultos, desqualificações, ameaças e desprezo sistemático do chavismo oficial àqueles que dentro e fora do país denunciam a catástrofe à qual levou a sociedade não servirão para reverter a situação. O presidente da Venezuela optou por tapar o sol com a peneira e concentrar seus esforços em sua perpetuação pessoal no poder mesmo ao preço de transformar a Venezuela em um pária da comunidade internacional e provocar uma profunda fratura social, cujos efeitos, infelizmente, durarão muitos anos.

Nessa linha deve ser interpretada a paralisação da coleta de assinaturas para realizar um referendo que decide sobre a continuação de Maduro no cargo. Depois de inúmeros e injustificados atrasos e de todos os truques possíveis para adiar rua realização, o chavismo optou por paralisar o processo acusando a oposição de fraude. Além disso, seus tribunais proibiram a saída do país de oito líderes da oposição, incluindo Henrique Capriles, por participar de uma fantasmagórica montagem para conseguir coletar as assinaturas exigidas para permitir legalmente a votação. Algo absurdo. Basta dar uma olhada nas assinaturas já recolhidas, que a oposição teve de tramitar, e as pesquisas para ter muito claro que não é preciso nenhum tipo de armadilha para obter as ratificações necessárias.

Isto é, em sua tentativa de se agarrar ao poder, Maduro não só paralisou um procedimento previsto na legislação, como o referendo revogatório — que ele mesmo apoiou entusiasticamente quando foi introduzido na Constituição pelo falecido Hugo Chávez —, como deu um passo adiante ao colocar a Venezuela no sinistro grupo de países com presos políticos — Leopoldo López, o caso mais conhecido, continuam numa prisão militar — e proíbe alguns dos seus cidadãos, em função de ideologia, de viajar para o exterior.

O presidente venezuelano usa insistentemente em seus discursos a linguagem militarista para se referir aos desafios que o país enfrenta. Um exemplo é a “guerra econômica”, mas com medidas como as adotadas pareceria que a guerra foi declarada por seu próprio povo.

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