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Lav Diaz ganha o Leão de Ouro do festival de Veneza com ‘The Woman Who Left’

Óscar Martínez e Emma Stone levam os prêmios de melhores intérpretes

Diretor Lav Diaz com o Leão de Ouro.Vídeo: TIZIANA FABI (AFP) / TRÁILER
Álex Vicente

O cineasta filipino Lav Diaz ganhou o Leão de Ouro da Mostra de Veneza com The Woman Who Left, um filme de quatro horas em que volta a examinar os rincões mais obscuros da história de seu país. O resultado não era improvável, já que o longa havia sido recebido com muitos aplausos, mas foi saudado por sua valentia. O prêmio consagra um autor praticamente desconhecido do grande público, mas que há anos se transformou em presença obrigatória nas maiores competições de cinema da Europa. Em uma edição marcada por um nível pouco memorável, o júri liderado pelo diretor Sam Mendes decidiu premiar um dos únicos filmes que deram importância à disputa e que geraram entusiasmo crítico. Foi na reta final da disputa, já que The Woman Who Left foi exibido no último dia. Emocionado e surpreso, o diretor dedicou o prêmio a seu país. “Ao povo filipino, por sua luta”, se limitou a dizer ao receber a premiação.

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Diaz, de 57 anos e responsável por cerca de 20 filmes, é um autor de radicalismo reconhecido, que se especializou em revirar a cultura da violência em seu país e que não duvida em dinamitar as convenções do circuito comercial rodando filmes de longuíssima duração. No passado festival de Berlim, já havia se destacado com A Lullaby to the Sorrowful Mystery, uma história de oito horas no total que ficou com o prêmio Alfred Bauer como filme mais vanguardista. Apenas seis meses depois, Diaz deixa Veneza com o prêmio principal para seu mais recente longa, protagonizado por uma mulher que recupera a liberdade após 30 anos na prisão por um crime que não cometeu.

A história transcorre em 1997, enquanto os sequestros se multiplicam em Manila, Hong Kong volta para a China e a princesa Daiana morre em um acidente em Paris. Horacia planeja, no meio de tudo isso, sua vingança. De dia, estuda como executar seu plano. De noite, passa as horas frequentando o submundo da cidade ao lado de uma transexual e de um vendedor ambulante. Diaz coloca em cena a reinserção dessa protagonista, interpretada pela apresentadora de televisão Charo Santos, através de uma série de planos fixos longos em preto e branco, em um filme mais limpo e acessível do que pode parecer. O prêmio fecha uma espécie de ciclo: foi em Veneza que Diaz começou a despontar no final da década passada, onde filmes como Death in the Land of Encantos e Melancholia foram premiados em uma disputa paralela.

O Grande Prêmio do Júri foi para Nocturnal Animals, do estilista Tom Ford, que volta à direção de cinema após sua elogiada estreia com A Single Man. Nesse caso, Ford volta a adaptar um romance, Tony & Susan, do norte-americano Austin Wright, em um filme que estabelece um paralelismo entre dois relatos distintos: um real e o outro de ficção, entre os quais se estabelecem paralelismos que diluem a fronteira entre um e outro. Protagonizado por Amy Adams e Jake Gyllenhaal, o filme está envolto em um manto luxuoso que não consegue disfarçar por completo seus vários defeitos. Parte da crítica havia considerado desonesto e superficial o filme, que fala de insatisfação vital e de masculinidade ferida com mais pretensão do que substância.

O prêmio de melhor diretor foi dividido entre o mexicano Amat Escalante, por La Región Salvaje, um dos filmes mais debatidos desse festival, e o veterano cineasta russo Andrei Konchalovski, por Paradise, recebido com entusiamos e que parecia a caminho de conquistar troféus mais reluzentes. O filme de Escalante, que já recebera o mesmo prêmio em Cannes com sua estreia Heli, parte de quatro personagens interrelacionados por vínculos negativos no México de hoje. O autêntico protagonista do filme, que alterna o realismo social com o cinema de gênero, é um estranho monstro de tentáculos fálicos que procura um prazer absoluto, mas também destrutivo, com o qual os protagonistas acabam se deitando. O outro latino-americano que buscava um prêmio importante era o chileno Pablo Larraín por Jackie, a biografia da viúva de JFK, mas teve que se contentar com o prêmio de melhor roteiro, destinado a Noah Oppenheim.

Nas categorias de interpretação, o argentino Óscar Martínez levou o prêmio de melhor ator por El Ciudadano Ilustre, em que interpreta brilhantemente o papel de Daniel Mantovani, um Nobel de Literatura que decide voltar a seu povoado natal, que inspirou toda a sua obra, para receber uma homenagem. Lá voltarão a se abrir feridas mal cicatrizadas e serão desatados diversos rancores com seus antigos amigos e vizinho. O ator dedicou o prêmio ao país que o entregou. “Graças a uma constelação de criadores única no mundo, na Itália se produziu sem nenhuma dúvida o melhor cinema do século XX”, afirmou. Por sua vez, a norte-americana Emma Stone foi considerada a melhor atriz por La La Land, o musical que abriu o festival e que quase nenhum dos filmes seguintes conseguiu ofuscar. A jovem estrela hollywoodiana, que interpreta no filme uma aspirante a atriz com um romanticismo incurável, consegue assim seu primeiro prêmio de destaque, que homenageia a luz particular que leva a todas as suas interpretações.

PRÊMIOS

Leão de Ouro:The Woman Who Left, de Lav Diaz.

Grande Prêmio do Júri: Nocturnal Animals, de Tom Ford.

Leão de Prata de melhor direção: Amat Escalante, por La Región Salvaje, e Andrei Konchalovski, por Paradise.

Copa Volpi de melhor atriz: Emma Stone, por La La Land.

Copa Volpi de melhor ator: Óscar Martínez, por El Ciudadano Ilustre.

Melhor roteiro: Noah Oppenheim, por Jackie.

Prêmio especial do Júri: The Bad Batch, de Ana Lily Amirpour

Prêmio Marcello Mastroianni ao intérprete revelação: Paula Beer, por Frantz, de François Ozon.

Prêmio para melhor filme de estreia: The Last of Us, de Ala Eddine Slim.

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