violência policial

Milwaukee, cidade mais segregada dos EUA, é palco de violência policial

Distúrbios do fim de semana evidenciam a grande disparidade entre cidadãos brancos e negros

Polícia durante um dos protestos em Milwaukee.
Polícia durante um dos protestos em Milwaukee.J. Phelps (AP)

A morte de um suspeito armado pela polícia em Milwaukee (Wisconsin) voltou a inflamar os protestos contra a violência racial nos Estados Unidos. O incidente de sábado, em que morreu um negro de 23 anos, foi seguido por duas noites de confrontos com a polícia. Na primeira noite, uma centena de pessoas enfrentou os policiais, ferindo um deles com um tijolo e incendiando seis estabelecimentos. Na madrugada da segunda-feira, com a Guarda Nacional em alerta, um novo protesto terminou com dois feridos, um policial e um manifestante atingido por um tiro.

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Os protestos, similares aos de dois anos atrás em Ferguson (Missouri), colocam em evidência as divisões raciais de Milwaukee, cidade que, com 40% de população negra, é considerada a mais segregada do país. Dos níveis de escolaridade à pobreza, passando pela separação entre brancos e negros, reunimos os dados que deixaram Milwaukee ancorada em uma segregação superada por outras cidades há décadas.

1. Tratamento desigual nas escolas

Um estudo da Universidade da Califórnia apontou no ano passado que as escolas de Wisconsin expulsam mais estudantes negros que no restante do país. Em Milwaukee, a segunda maior cidade do Estado, 43% dos estudantes expulsos das escolas são negros, 18% são hispânicos e 16%, brancos, em contraste com 23%, 11% e 6% respectivamente em nível nacional. As diferenças por raça são equiparáveis até mesmo entre alunos menores de 12 anos.

C. F. PEREDA / Civil Rights Project University of Califórnia, Los Angeles (2015)

O sistema estadual de educação pública, um dos mais afetados por cortes nas últimas décadas, também é testemunha de uma das maiores diferenças na escolaridade de estudantes brancos e de minorias raciais. Segundo o Índice Nacional de Progresso Educacional, em 2013, Wisconsin ocupava o último lugar em compreensão de leitura em alunos com idade de 10 anos.

2. Porcentagem de presidiários por raça

Apesar de cada vez mais Estados, junto com o Governo federal, promoverem medidas para favorecer a reinserção de detentos na sociedade e reduzir as penas, Wisconsin segue a tendência oposta. O governador Scott Walker, do Partido Republicano, destinou mais recursos públicos aos presídios estatais que à educação. O Estado tem a maior porcentagem de detentos negros no país: 12,8%, bem acima da da média nacional de 6,7%. Em seguida vêm Oklahoma (9,7%), Iowa (9,4%), Pensilvânia (9,1%) e Califórnia (8,6%).

C. F. PEREDA / US Census / University of Wisconsin-Milwaukee (2013)

A população detenta de Wisconsin triplicou desde 1990, segundo um estudo da Universidade de Wisconsin-Milwaukee. Os autores afirmam que esse crescimento foi alimentado por uma maior aplicação de políticas que favorecem a prisão em penas por posse de drogas, a construção de presídios com dinheiro público e a concentração das ações policiais em comunidades de minorias raciais, entre outros fatores. Em 2012, 56% dos residentes negros do condado de Milwaukee com idade entre 30 e 34 anos e 40% dos jovens entre 25 e 29 anos, já tinham estado na prisão pelo menos uma vez.

3. Pobreza

O nível de desemprego dos negros em Milwaukee é quatro vezes superior à média nacional. A cidade é, além disso, a segunda dos Estados Unidos com maior porcentagem de negros na pobreza. Em todo o Estado, quatro em cada cinco crianças dessa comunidade vivem abaixo da linha de pobreza – em contraste com três em cada dez brancos – e sete em cada dez vivem em lares com um único adulto – frente a dois em cada 10 brancos – segundo o Conselho para a Infância e a Família de Wisconsin.

C. F. PEREDA / University of Wisconsin-Milwaukee (2013)

As porcentagens disparam ainda mais em Milwaukee, onde cerca de 40% dos cidadãos negros viviam na pobreza em 2012, de acordo com os dados da Universidade de Wisconsin, frente a 29,9% dos hispânicos e 8% dos brancos.

A segregação na cidade, com uma minoria negra isolada no centro e uma maioria branca deslocada para os subúrbios, junto com a falta de mobilidade entre ambas as zonas, faz quase um em cada três negros pobres viverem em um bairro “com alto nível de concentração de pobreza”, segundo o mesmo estudo.

4. A cidade mais segregada do país

Milwaukee lidera a lista de cidades dos Estados Unidos em que mais de 60% dos cidadãos de uma mesma comunidade – no caso, os negros –, vivem em uma área definida. O grau de segregação nessa localidade de Wisconsin significa que 78% dos cidadãos negros deveriam se deslocar a outra área para que a composição racial estivesse totalmente equilibrada, segundo pesquisadores do Manhattan Institute.

C. F. PEREDA / Manhattan Institute

Os níveis surpreendem em uma cidade onde conviviam imigrantes alemães, poloneses e irlandeses no início do século XIX. O impulso industrial que décadas mais tarde inspiraria tantos negros a migrar do Sul para o Norte dos Estados Unidos terminou pouco depois de chegarem a Milwaukee. “Praticamente não houve tempo para que se desenvolvesse uma classe média negra”, explica uma análise do The New Republic. “A cidade nunca foi muito acolhedora, mas o declínio levou os brancos a rechaçar diretamente todos os negros e culpá-los dos problemas”.

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