Jogos Olímpicos

A prata de Arthur Zanetti, um campeão forjado em casa

Campeão em Londres, Arthur Zanetti termina em segundo lugar após grego fazer prova perfeita

Arthur Zanetti e sua prata na Rio 2016.
Arthur Zanetti e sua prata na Rio 2016.MIKE BLAKE (REUTERS)

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Arthur Zanetti foi às argolas na tarde desta segunda-feira enfrentando os melhores ginastas do mundo, e, além deles, a pressão por ter dado à ginástica artística brasileira a sua primeira medalha, quatro anos atrás. Ao seu favor, Zanetti tinha a inteligência, a estratégia de um grande atleta e a experiência.  Quando começou sua série no Rio de Janeiro já tinha a pressão do resultado quase perfeito do seu maior rival, do grego Eleftherios Petrounias, que marcou 16,000. Não decepcionou: conseguiu 15,766, que - apesar de abaixo dos seus 15,900 do ouro em Londres - lhe asseguraram a prata. Saiu do tablado maravilhado com a torcida: “Esse resultado aqui tem um gostinho a mais”, disse ele, que estabeleceu seu nome na história do esporte que ajuda a popularizar no Brasil ao lado dos companheiros de equipe Arthur Nory e Diego Hypólito, bronze e a prata, respectivamente, no solo no domingo.

“Muita gente me pedia: 'traz o ouro!', mas você não sabe o que eu passei pra estar aqui nessa competição. E veio a prata, então vou ficar sorrindo aí o resto do ano. Mesmo se não tivesse ganhado uma medalha estaria sorrindo”, afirmou o paulista de São Caetano do Sul. Aos 26 anos, Arthur Zanetti, faz planos para o futuro uma próxima olimpíada, inspirado em Hypolito que aos 30, idade considerada avançada para um ginasta, conquistou a prata. Será a idade que o paulista terá em Tóquio 2020.

O ginasta subiu ao segundo pódio consecutivo e, como recém-alistado da Força Aérea Brasil - só em julho de 2016 ele passou às filas militares -, bateu continência. "(Prestei a continência) porque acho que um modo de expressar, dentro do meu país. E como faço parte da Força Aérea Brasileira, é um momento de felicidade, de alegria, para todo país", disse Zanetti. Mas seu treinador, Marcos Goto, tocaria de vez na polêmica dos medalhistas militares (todos menos Hypolito). "São militares? Ou são atletas que são militares? (...) Apoiar atleta de alto nível é muito fácil. (...) Pegar atleta pronto é muito fácil", desabafou Goto, que disse que o mérito do atleta não era nem de sua cidade, nem do Governo nem das Forças Armadas. “Ninguém ajuda criança atleta neste país.”

Aparelhos artesanais feitos pelo pai

A caminhada para a história olímpica vitoriosa começou com a ajuda de Archimedes Zanetti, o pai, que construiu os aparelhos que Arthur utilizou por muito tempo para treinar e evoluir como atleta. Os altos preços de importação dos aparelhos fizeram com que Archimedes usasse sua experiência em serralheria industrial para fabricar os equipamentos para que o filho pudesse treinar de maneira possível para o orçamento da família. O incentivo e o trabalho do pai, além de criarem uma estrutura de treino para o atleta, deram a força necessária para que, ainda garoto, o ginasta tivesse a seriedade e o esforço necessários para se tornar cada vez melhor. Pouco tempo após a maior vitória da carreira do filho, em Londres, o pai chegou a falar publicamente sobre o incômodo de tirar do próprio bolso o dinheiro para bancar a estadia durante os Jogos de 2012. A fatura do cartão de crédito que, nas palavras do próprio Archimedes, “deu arrepios”, foi apenas mais uma prova do apoio incondicional que o ajudou a se tornar um grande campeão.

Para Rio 2016, o ginasta campeão sul-americano em 2014, campeão dos Jogos Pan-Americanos em 2015 e campeão do Mundial de Ginástica Artística em 2013 voltou a usar a estratégia de quatro anos atrás, quando deixou de acrescentar à sua prova classificatória a dificuldade necessária para aumentar a nota ao máximo. Confiante e ciente de que avançaria à final mesmo sem seu total esforço, deixou o melhor de si para o fim. Surpreendeu todos os concorrentes. Na edição do Rio, seguiu a mesma tática: fez o sexto melhor tempo nas classificatórias e, na final, só seria superado pelo grego Petrounias. “Temos que parabenizar o grego, que fez uma grande prova e mereceu o ouro. Mas conquistar o ouro e depois a prata em duas olimpíadas, como o Arthur fez, não é para qualquer um”, disse o técnico do brasileiro.

Além do sorriso da medalha no rosto, agora Arthur Zanetti só quer recompensar "o corpo e a mente" "muito desgastados". “O que mais quero agora é descansar, aproveitar um pouco da minha vida, comer, viajar... Algo que há um par de anos que não consigo fazer.”