eleições nos estados unidos

Desvio de Trump amplia a divisão nas fileiras republicanas

O candidato aumenta sua discordância com figuras de referência no campo conservador como Paul Ryan e John McCain, negando-lhes apoio nas eleições em seus respectivos estados

O republicano John McCain.
O republicano John McCain.Ralph Freso (AP)

Um sintoma da ansiedade que se espalha entre os conservadores norte-americanos –estupor para muitos deles– é que nos últimos dias voltou a alguns programas de debate na televisão uma teoria da conspiração segundo a qual Trump seria um aliado secreto dos Clinton para arruinar a campanha republicana e garantir a chegada da ex-secretária de Estado à Casa Branca. O boato surgiu no ano passado, quando o empresário e showman anunciou que lutaria pela candidatura e descobriu-se que pouco antes tinha falado por telefone com o ex-presidente Bill Clinton.

Trump cumpre os requisitos para alimentar a tese: fez uma campanha estridente, polêmica dentro e fora do partido, na qual não teve nenhum problema em combinar insultos a mulheres ou mexicanos com elogios a Saddam Hussein. Parecia munição suficiente para desacreditar um aspirante à presidência dos Estados Unidos. Mas o problema da conspiração era que, para ser verdadeira, requeria algo difícil: que, com esses elementos, Trump conseguisse obter a candidatura, derrotando mais de uma dúzia de adversários conservadores. Ele conseguiu. Mas a teoria tem um novo problema: as pesquisas não permitem que os democratas durmam dando como certa uma vitória em novembro.

"Tudo isso é parte do processo de unificar ao partido", tenta tranquilizar o número dois de Trump, que apoia Paul Ryan

O que o furacão Trump conseguiu foi rachar o partido. O magnata voltou-se contra o establishment do seu partido na terça-feira. Numa entrevista ao diário The Washington Post, o empresário nova-iorquino se recusou a apoiar Paul Ryan e John McCain nas primárias do Wisconsin e do Arizona, seus respectivos estados. A Ryan, presidente da Câmara dos Representantes, devolveu a vingança a frio: “Ainda não estou pronto para apoiá-lo”, disse, empregando palavras semelhantes às usadas por Ryan sobre o candidato, que abraçou tarde e como um mal menor frente “aos Clinton”. E McCain, prisioneiro de guerra no Vietnã, foi o mais duro com o candidato por sua ofensa à família de um capitão norte-americano muçulmano morto em combate.

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O presidente do Comitê Nacional Republicano, Reince Priebus, estava furioso com Trump por sua insolência, de acordo com fontes próximas citadas pela Reuters. “Ele está se sentindo um idiota”, disseram em referência a Priebus, que apoiou Trump na convenção de Cleveland.

Mike Pence tentou acalmar as coisas. Ao contrário de seu companheiro de corrida eleitoral, enfatizou nesta mesma tarde seu apoio a Ryan. “Falei com Donald Trump hoje de manhã sobre o meu apoio a Ryan e nossa amizade de longa data. E ele me encorajou a fazê-lo” disse à rede Fox. Pence, aspirante à vice-presidência, tentou fechar as feridas na polêmica com os pais do soldado morto no Iraque, nuançando as palavras de Trump, e hoje agiu igual: “Tudo isso é parte do processo de unificar o partido”.

Enquanto isso, a presidenta da Hewlett Packard (HP), Meg Whitman, uma das mais importantes mulheres executivas do mundo, republicana muito influente, disse na noite passada que votará em Hillary Clinton. O candidato republicano “colocaria em perigo a estabilidade e a segurança do país”, disse. “Seu caráter autoritário será uma ameaça”, insistiu em sua conta na rede social Facebook. Assim, ela se juntou à deserção pública de Richard Hanna, congressista conservador de Nova York, o estado do candidato.

O republicano Paul Ryan.
O republicano Paul Ryan.Evan Vucci (AP)

O temor é se, para além dos pronunciamentos públicos, também há muitos republicanos que votam em Hillary Clinton ou ficam em casa. Trump não recebe elogios em público das figuras mais importantes do partido, mas arrasou nas primárias. Isso indica a distância que existe entre a elite do partido e suas bases.

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