Lorrayne, uma aluna de escola pública no centro da inovação científica

Estudante do Rio é primeira negra a representar o Brasil nas olimpíadas internacionais de neurociência

A estudante Lorrayne Isidoro Gonçalves.
A estudante Lorrayne Isidoro Gonçalves.Márcia Foletto (Agência O Globo)

Filha de um vendedor ambulante e de uma professora particular, a jovem do Morro da Camarista, favela da Zona Norte do Rio, precisava levantar 15.000 reais em apenas três meses para participar da International Brain Bee, marcada para acontecer entre os dias 30 de junho e 4 de julho, em Copenhague. Aluna do 3º ano do ensino médio do Colégio Pedro II, na Zona Sul do Rio de Janeiro, um dos mais renomados da rede pública nacional, também precisava providenciar o primeiro passaporte da sua vida, em meio a uma onda de atrasos na emissão do documento pela Polícia Federal. Só conseguiu o passaporte em caráter emergencial e às vésperas da viagem. Já o dinheiro, arrecadou com a ajuda de estranhos. Com uma vaquinha virtual, conseguiu cinco vezes mais do que precisava, quase 60.000 reais. O dinheiro extra serviu para pagar todos os custos da viagem, como hospedagem e refeição de Lorrayne e de sua professora, Camila Marra, mas também ajudou a realizar o sonho de viajar da mãe, Estela, que acabou indo junto com a filha para a Dinamarca.

Mais informações

Os malabarismos financeiros que foi obrigada a fazer para representar o país parecem desconcertantes, mas não para a estudante. Ela acredita que obteve da escola o apoio que precisava.  Seu colégio ajudou com parte dos custos da viagem e, no final de seu trajeto à Dinamarca, também disse que recebeu um recurso de órgão de apoio à pesquisa do Governo federal, sem detalhar valores. Lamenta, no entanto, que nem todos os estudantes de escola pública compartilhem dessa realidade: "O jovem de escola pública, carente, precisa de suporte da escola. Há muitos talentos não descobertos no país, estudantes com muitas habilidades e sonhos, mas sem nenhuma condição, apoio ou informação", declara. "Participar de atividades como olimpíadas temáticas, adquirir experiências fora da sala de aula, fazer iniciação científica, buscar conhecimento extracurricular. Tudo isso é fundamental para nós, que estamos em uma fase crucial do nosso desenvolvimento", complementa.

Da Dinamarca, Lorrayne trouxe impressões variadas. "Foi uma experiência muito enriquecedora. Copenhague é muito bonita, limpa, organizada, cheia de verde. O que mais me impressionou foi que as pessoas só andam de bicicleta. Também adorei a arquitetura, cheia de construções antigas, que lembravam às dos filmes do Harry Potter", afirma a tímida estudante, que é fã da saga da escritora J.K. Rowling. Em contrapartida, achou "tudo bem caro". Ainda assim, pôde aproveitar a estadia para conhecer museus e visitar um parque de diversões com sua mãe - afinal, depois de tanto estudo, nada mais justo que relaxar e se divertir também.

Usuários nas redes sociais acusaram MEC de racismo.
Usuários nas redes sociais acusaram MEC de racismo.Socializa o Design

A Brain Bee ocorre dentro do Fórum de Neurociências da Federação Europeia (Fens), do qual Lorrayne também teve acesso. "Conheci o trabalho de outros pesquisadores brasileiros. Alguns me reconheceram e vieram conversar comigo, foi muito bacana, me senti motivada", conta. Quanto aos concorrentes de Brain Bee, Lorrayne garante que não houve rixa. "Participamos de diversas atividades juntos, eles eram muito legais. Não senti um clima de competição. Somos campeões nos nossos países, então não importava quem iria ganhar ali". Uma estudante da Romênia foi quem ganhou o primeiro lugar da olimpíada.

Lorrayne não foi apenas a primeira estudante de escola pública a representar o Brasil na história da International Brain Bee, como foi também a primeira negra - na competição na Dinamarca, inclusive, apenas três estudantes eram negros na turma. A maior polêmica envolvendo racismo, contudo, ocorreu no próprio país. No dia 28 de maio, o Ministério da Educação publicou em sua página uma ilustração homenageando Lorrayne por ter vencido a olimpíada nacional de neurociência. O desenho virou alvo de fortes críticas nas redes sociais, pois retratava a jovem como uma mulher branca, de cabelos lisos. Lorrayne, porém, disse apenas que não se sentiu ofendida, sem prolongar o assunto.

Campeã nacional

Lorrayne Isidoro entre a professora Camila Marra e o responsável pela Brazilian Brain Bee, Alfred Sholl-Franco.
Lorrayne Isidoro entre a professora Camila Marra e o responsável pela Brazilian Brain Bee, Alfred Sholl-Franco.

A jovem descobriu a neurociência em dezembro de 2014, por meio de um cartaz no muro do Colégio Pedro II. O anúncio convidava estudantes para um curso de férias sobre o tema e para inscrições nas olimpíadas brasileiras, a Brazilian Brain Bee. Amante de biologia, pesquisou sobre a neurociência na internet quando chegou em casa naquela noite. "Gostei muito do assunto e procurei a professora Camila Marra, que me orientou. Ela me emprestava livros e eu procurava aulas na Internet sobre neurociência. Estudei bastante em casa, sozinha, anotando tudo e desenhando partes do cérebro para entender seu mecanismo", explica.

Lorraye e sua mãe Estela viajaram juntas para Copenhague.
Lorraye e sua mãe Estela viajaram juntas para Copenhague.Arquivo Pessoal

O conteúdo que corresponde à neurociência não faz parte do currículo do ensino médio. A neurociência, inclusive, enquanto campo de estudo é uma especialização dos cursos de medicina e psicologia ou uma pós-graduação. "Eu me empenhava bastante nas aulas de biologia, mas só aprendi sobre neurociência com material à parte", complementa Lorrayne.

O resultado de tanto empenho veio três meses depois. Em março de 2015 foi vice-campeã das olimpíadas brasileiras e quase conquistou uma vaga logo de cara na International Brain Bee (destinada apenas para o primeiro lugar). Sua primeira empreitada, entretanto, lhe incentivou a continuar trilhando os caminhos do cérebro humano.

Dedicou-se cada vez mais ao tema, participou de outros dois cursos de férias na escola sobre neurociência, também com a orientação da professora Camila, começou uma iniciação científica na Fundação Oswaldo Cruz e manteve uma rotina de estudos rigorosa, para conciliar a neurociência, as disciplinas tradicionais do colégio e as aulas de inglês e francês, que também cursava na escola, de graça. Em março de 2016, conquistou finalmente o título de campeã das olimpíadas brasileiras e a sonhada vaga na competição internacional.

Estudantes que disputaram as Olimpíadas Internacionais de Neurociência em 2016.
Estudantes que disputaram as Olimpíadas Internacionais de Neurociência em 2016.IBB

Foram três dias de provas na Dinamarca. A que Lorrayne mais se destacou foi a de diagnóstico clínico. O desafio era, por meio de relatos fictícios de pacientes e do resultado de exames, descobrir a doença e descrever seu tratamento. "Fiquei em segundo lugar nessa prova, o que me deixou muito animada, já que quero ser médica", conta.

Em meio a tantos estudos, Lorrayne também se dedica ao vestibular. Não faz cursinho particular; mantém a fórmula de estudar em casa. Ano que vem, quer estar na faculdade de medicina de alguma universidade federal no Rio, pelo Enem, ou na UERJ.