Especial - Os estragos da ocupação israelense - Parte 3

A lenta morte de Silwan

Vargas Llosa descreve como os assentamentos avançam em um bairro de Jerusalém Oriental

Mario Vargas Llosa, durante sua viagem à Cisjordânia.OREN ZIV /ACTIVESTILLS

Ao contrário de outros bairros de Jerusalém, tão imaculadamente limpos como os de uma cidade suíça ou escandinava, o bairro palestino de Silwan, localizado no leste e vizinho da Cidade Velha e da mesquita Al Aqsa, regurgita de lixo, poças fedorentas e resíduos. Temo que tanta sujeira não seja por acaso, e sim parte de um plano de longo prazo, para ir expulsando os 30.000 palestinos que ainda vivem aqui e substituí-los pelos israelenses.

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Os colonos começaram a se infiltrar no bairro, pela área de Batan Al-Hawa, há 11 anos. O que até então parecia quase casual — grupos de famílias ultrarreligiosas que conseguiam se instalar em uma casa escolhida ao acaso — tomou um rumo de uma operação planejada e com um objetivo claro. Os colonos que se instalaram no bairro de Silwan pertencem a dois movimentos religiosos: Elad e Ateret Cohanim. Estão espalhados por cerca de 75 casas e não são muitos: em torno de 550. Mas, trata-se de uma cabeça de ponte que, obviamente, continuará crescendo. Um dia após minha visita ao bairro, foi anunciado que as autoridades de Israel haviam autorizado a construção de um edifício no local para abrigar novos colonos de Ateret Cohanim.

Para saber onde estão os assentamentos, basta olhar para cima: as bandeiras israelenses, tremulando na suave brisa da manhã, indicam a formação de um cerco, como nas colinas do sul de Hebron, dentro do qual todo o bairro vai ficando encarcerado.

As maneiras pelas quais estas famílias se apoderam de uma casa são diversas: alegando ter documentos antigos segundo os quais os judeus eram os proprietários; comprando o imóvel por meio de um testa de ferro árabe; hostilizando e ameaçando o ocupante para fazê-lo fugir; solicitando nos tribunais que a casa seja demolida, por não ter sido construída com as licenças necessárias ou, em casos extremos, aproveitando uma viagem ou ausência dos proprietários ou inquilinos para entrar no lugar à força. Uma vez que os colonos estão dentro, o Governo israelense envia a polícia ou o Exército para protegê-los, porque, para quem possa duvidar, essas gotas de água de invasores, no meio desse mar de palestinos, correm perigo. As gotas vão se tornando córregos, lagos, mares. Os colonos religiosos que se enraizaram aqui não têm pressa: a eternidade está ao seu lado. É assim como os enclaves israelenses na Cisjordânia vão se expandindo e se transformando em um queijo gruyère; assim também vão crescendo na Jerusalém árabe.

As formas são preservadas, como no resto da nação: Israel é um país muito civilizado. Em Batan Al-Hawa, existem 55 famílias palestinas ameaçadas de expulsão, por morarem em casas sem documentos que garantam a propriedade, e 85 imóveis com ordens de demolição, porque, como de costume, foram construídos sem obter as licenças adequadas.

Quando pergunto a Zuheir Rajabi, morador e defensor palestino do bairro que me guia neste percurso, se confia na honestidade e imparcialidade dos juízes que devem decidir a respeito, ele me olha como se eu fosse ainda mais imbecil que minha pergunta. “Por acaso temos outra opção?”, responde. É um homem sóbrio, que esteve na prisão várias vezes. Tem três filhos, de 7, 9 e 13 anos. Todos foram presos pelo menos uma vez. E uma filhinha, Darín, de 6 anos, que anda agarrada em uma de suas pernas. Sua casa está cercada por dois assentamentos, e recebeu várias propostas de compra por valores superiores ao preço real. Mas diz que nunca irá vendê-la e morrerá no bairro; as ameaças de seus vizinhos não o assustam.

Pergunto se os colonos instalados em Silwan têm filhos. Sim, muitos, mas saem muito raramente e, normalmente, escoltados pela polícia, soldados ou guardas particulares que protegem os assentamentos. Penso na vida enclausurada e terrível dessas criaturas, presas nessas casas roubadas, e na de seus pais e avós, convencidos de que, cometendo tais injustiças, materializam um projeto divino e ganham o Paraíso. Claro que o fanatismo religioso não é exclusivo de uma minoria de judeus. Também são fanáticos os palestinos do Hamas e da Jihad Islâmica, que despedaçam a si mesmos detonando bombas em ônibus ou restaurantes, lançam projéteis sobre os kibutz ou tentam esfaquear soldados ou transeuntes pacíficos, sem entender que tais crimes servem apenas para alargar o fosso, já muito grande, que separa e hostiliza ambas as comunidades.

De repente, em nossas andanças por Silwan, Zuheir Rajabi aponta um edifício de vários andares. Foi totalmente ocupado por colonos, exceto um dos apartamentos; nele permanece contra o vento e a maré uma família palestina de sete membros. Até agora, têm resistido, embora fiquem sem água, sem eletricidade, e tenham de bater na porta dos colonos para poder entrar todas as vezes que saem à rua, e, até mesmo, quando abrem as janelas, sejam bombardeados com lixo.

Enquanto conversamos, sem perceber, começamos a ser rodeados por crianças. Pergunto se algum já foi preso. O que levanta a mão tem uma expressão travessa e atrevida: “Eu, quatro vezes”. Cada vez ficou apenas um dia e uma noite; foi acusado de atirar pedras contra soldados; ele negou e negou, e acabaram acreditando, de modo que não o levaram ao tribunal. Chama-se Samer Sirhan; seu pai teve um incidente com um colono, que disparou contra ele com um revólver e lhe deixou gravemente ferido na rua. Ninguém o socorreu durante toda a noite, sangrando até morrer, ao amanhecer.

Conto essas histórias tristes, porque, acredito, dão uma ideia justa do problema mais gritante enfrentado por Israel: o dos assentamentos, a ocupação crescente dos territórios palestinos que o transformou em um país colonial, prepotente, e que tanto prejudicou a imagem positiva e até exemplar que teve por muito tempo no mundo.

Há ainda muitas coisas para admirar em Israel. Ter se transformado, pelo trabalho árduo de seus habitantes, em um país de primeiro mundo, de padrões de vida muito altos e praticamente liquidado a pobreza na sociedade israelense por meio de políticas inteligentes, progressistas e modernas. E, a façanha máxima que tem a seu crédito: ter integrado dezenas de milhares e milhares de judeus procedentes de culturas e costumes muito diversos, de línguas diferentes, em uma sociedade onde, apesar da unidade do idioma hebraico que é o denominador comum, todas convivem fraternalmente, preservando sua diversidade (se não for assim, que o digam um milhão de russos que chegaram nos últimos anos ao país).

Desde a primeira vez que vim a Israel, em meados dos anos setenta do século passado, peguei um enorme carinho por este país. Acredito que é o único lugar no mundo onde ainda me sinto um homem de esquerda, porque na esquerda israelense sobrevive o idealismo e o amor à liberdade que têm desaparecido na esquerda em grande parte do mundo. Com dor, vi como, nos últimos anos, a opinião pública local foi se tornando cada vez mais intolerante e reacionária, o que explica que Israel tenha agora o Governo mais extremista e nacionalista-religioso de sua história, e que suas políticas sejam cada vez menos democráticas. Denunciá-las e criticá-las para mim não é só um dever moral; é, ao mesmo tempo, um ato de amor.

Jerusalém, junho de 2016.

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