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Atingidos, não afundados

O Brexit exige liderança para evitar uma recessão e a crise política da UE

O primeiro-ministro britânico, David Cameron.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron.STEFAN WERMUTH (REUTERS)

A decisão dos cidadãos britânicos de se separar da União Europeia envolve efeitos extremamente prejudiciais. Para todos os atores, para a política e a economia, e para a esperança de melhorar e completar o projeto comum. Todos foram atingidos, embora em diferentes graus — e ainda não se sabe exatamente quanto —, mas não necessariamente afundados, se forem adotadas as atitudes corretas e realizadas as políticas necessárias para transformar o que se apresenta como um desastre em uma oportunidade para o futuro.

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Traçar o diagnóstico mais profundo do problema é requisito fundamental para sua canalização. Não é exagerado falar de desastre, porque de uma só vez foram produzidas inquietantes reações múltiplas. Reverberaram as turbulências financeiras como nunca desde a Grande Recessão, causando o colapso das Bolsas de Valores. Foi intensificada a depreciação da libra esterlina (e, em menor medida, do euro) como não acontecia desde a crise especulativa de 1992, que a expulsou do Sistema Monetário Europeu. E deu uma vitória de grande simbolismo a todos os inimigos do projeto europeu.

Abriu uma grave crise política no Reino Unido, ao anunciar sua renúncia (como correspondia) o primeiro-ministro David Cameron, principal responsável pelo fiasco, que defendeu a permanência depois de improvisar, com frivolidade, um referendo sem quórum reforçado, sem preparação e sem alianças. E agora Londres exibe, até sua substituição, um Governo interino. Algo especialmente nocivo quando a disparidade dos votos de seus territórios revela uma profunda fratura interna.

Por seu lado, a União ficou enfraquecida ao perder um dos seus principais sócios, a perspectiva de crescimento ilimitado e o prestígio de ter resolvido — melhor ou pior — outros grandes desafios.

É preciso recuperar a confiança e reparar o dano causado. A atuação correta do Banco Central Europeu e do Banco da Inglaterra injetando liquidez e garantindo a estabilidade do sistema financeiro deve continuar até onde e quando for necessário.

E corresponde às instituições da EU e aos governos dos 28 Estados Membros gerir sabiamente a saída dos britânicos (algo nunca feito antes) e a fórmula que vai governar suas relações com a UE no futuro. Não vai ser tarefa fácil, especialmente se, no meio, houver um novo referendo na Escócia e pedidos semelhantes em outros Estados Membros onde Governos ou partidos populistas quiserem aproveitar a situação para conseguir concessões injustificadas ou avançar eleitoralmente.

Mas o decisivo é que europeísmo seja europeísta, que apresente as tarefas pendentes — mais do que nunca vistas como urgentes — para fazer a Europa crescer e melhorar. E, ao mesmo tempo, sem retórica, sem sonhos, levando em conta a realidade de uma opinião pública fragmentada e uma cidadania desorientada que deve receber ideias, projetos e liderança clara. Se for assim, a Europa se salvará com dignidade deste abismo perigoso.

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