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10 razões para que os britânicos permaneçam na União Europeia

O Reino Unido teme quase todos os avanços europeístas, mas contribui bastante e queremos que fique

Brexit
Britânico chega ao colégio eleitoral para votar, nesta quinta-feira. EFE

Aos olhos do europeísmo, o Reino Unido não é o melhor dos membros da União Europeia. Sempre desconfiado, costuma retardar qualquer avanço na integração: no social, na carta de Direitos, na política de justiça e do interior, em quase tudo. É o rei nas linhas vermelhas.

Com sua fixação comercial, contribuiu para o desequilíbrio entre uma Europa mais ampla mas menos coesa, ao opor o tamanho do mercado à sua articulação interna. Tudo isso é verdade, mas, mesmo assim, para os demais europeus, sua permanência dentro do projeto comum é conveniente. Por várias razões:

1. O exemplar parlamentarismo britânico não só é o mais antigo, como também constitui um modelo bastante atual de um sistema de Estado de direito (rule of law) e de equilíbrio de poderes (checks and balances). Não é um luxo, mas sim uma virtude, que foi se aperfeiçoando nos momentos mais graves, como em maio de 1940. A submissão de Winston Churchill a Westminister naquela crise (tão bem contada por John Lukacs em Cinco dias em Londres) constitui um contrapeso básico em relação às atuais tendências autoritárias em outros Estados membros (Polônia, Hungria, Áustria) baseadas na proeminência do executivo sobre o legislativo e o judiciário, que supostamente valorizaria a eficiência.

2. A defesa: em uma Europa preocupada com sua segurança, prescindir de sua principal potência nuclear, de seu patrimônio cultural defensivo, de seu prestigiado serviço de inteligência e de sua poderosa diplomacia seria um mal negócio. Sim, a UE é um gigante econômico, mas carece — anão político — do correspondente poder internacional, e isso agravaria ainda mais essa assimetria.

3. A locomotiva europeia, ou seja, a dupla França/Alemanha, precisa de um contrapeso. E o Reino Unido significa isso, como já foi demonstrado algumas vezes: os acordos defensivos franco-britânicos de Saint-Malo, em 1998. Com o Reino Unido dentro, fica mais difícil que qualquer poder continental possa recair em delírios de hegemonia, como aconteceu ao longo de toda a história.

4. A relação privilegiada com os Estados Unidos é um ativo útil para todos (e que o Reino Unido não teria como algo garantido em caso de separação) em um mundo globalizado. Trata-se de um caso singular de uma ex-metrópole que mantém um vínculo tão intenso com sua antiga colônia... e atual superpotência.

É conveniente que haja um contrapeso à locomotiva europeia, ou seja, a dupla França/Alemanha

5. A profunda tradição liberal, que sobreviveu inclusive ao neoliberalismo thatcheriano. Contribuições como a do lorde Cockfield ao mercado interior de Jacques Delors não são retórica, mas sim aportes muito bem vistos. E liberalismo não quer dizer mera desregulamentação, mas sim, às vezes, o estabelecimento de regras melhores, como aquelas criadas a partir do empenho do britânico William Beveridge, pai — tanto quanto, se não mais do que Bismarck — da Seguridade Social moderna e do Estado de Bem-estar europeu.

6. Para o atual sistema de minifúndios da União Europeia, com seus pequenos Estados, faz bem se articular em torno de outros Estados com peso maior, assim como o ambiente em torno de uma grande empresa impulsiona as empresas menores. O efeito imitação faz melhorar, mas o efeito contágio — por exemplo, de uma separação — seria prejudicial.

7. Europa é uma marca mundial. Uma saída seria mais prejudicial aos britânicos que a outros europeus, porque são economicamente mais dependentes da UE que o contrário. Prejudicaria seus milhares de residentes na Espanha, e os trabalhadores espanhóis na Grã-Bretanha. E também desgastaria o prestígio da marca Europa no mundo: como explicar aos indonésios ou aos neozelandeses a deserção de um país-chave?

Saída da UE seria mais nociva para os britânicos do que para os demais europeus

8. A prestação de contas (accountability) é um indicador essencial da cultura de responsabilidade. O Reino Unido costuma desconfiar diante da iminência de uma nova norma europeia. Mas quando uma nova diretriz entra em vigor, os britânicos a adotam imediatamente e aplicam com rapidez os novos regulamentos, gostem ou não. É uma atitude mais confiável que a de alguns que, sob gritos de “mais Europa”, pedem sempre mais regulamentação e depois não a cumprem.

9. O mundo anglo-saxão mantém redes linguísticas, científicas e culturais de alcance global, que vão além dos países de expressão inglesa. O cerne dessa rede é o Reino Unido, e este beneficia assim a todos seus parceiros.

10. Jean Monnet disse em certa ocasião que, se tivesse de construir a Europa de novo, ele começaria pela cultura. E os espanhóis sabem que Shakespeare e Cervantes eram irmãos; que a história moderna e contemporânea de nosso país está em dívida infinita com os hispanistas anglo-saxões, de John Lynch a Richard Herr, de Henry Kamen a John Elliott; que o maior poeta espanhol desde a Guerra Civil, Jaime Gil da Biedma, não o seria se não tivesse sabido de cor os Four quartets de T. S. Eliot.

Cidadãos britânicos, vocês nos interessam.