Opinião
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Ouso pensar em um hermano no comando da Seleção Brasileira

"Foda-se", disse Neymar sobre a eliminação da Copa América, mas ele precisa comer muito feijão com arroz e rebolar mais ainda para propagar tamanha blasfêmia

Dunga e o diretor técnico Gilmar Rinaldi.
Dunga e o diretor técnico Gilmar Rinaldi.Elise Amendola / AP

Acredite, leitor: há mais gozação do que tristeza no “day after” da mais vergonhosa eliminação da seleção brasileira de todos os tempos. Até parece que o país todo já esperava a tragicomédia -por mais que fosse impossível não fazer um golzinho sequer no Equador e no Peru, pasme, no grupo mais fraco do torneio centenário.

A equipe pentacampeã do planeta bola não consegue se livrar da ideia da sátira e da piada desde o 7x1 contra a Alemanha, no mundial de 2014. Ao devolver o mesmo placar ao “todo-poderoso” Haiti, nesta Copa América, o time do técnico Dunga só ampliou o tom picaresco ao redor dos canarinhos.

É melancólico ver o futebol do Brasil não ser levado a sério pelos próprios brasileiros. Meus amigos torcem contra a equipe na ilusão que possa haver mudança. A começar na cúpula da CBF. Segue a piada: o Marco Polo verde e amarelo, presidente da confederação, desonra o batismo do navegador de Veneza e não pode atravessar a fronteira, sob o temor de ser preso –é acusado de corrupção no escândalo da Fifa.

O gol de mão, la mano de Diós, a eterna broma maradonística, em vez de causar revolta, apenas deu a tinta final do capricho na tragicomédia da eliminação da Copa América. Se o gol do Peru foi ilegal, o time de Dunga já havia sido beneficiado por um erro de arbitragem igualmente grosseiro no jogo contra o Equador. Ademais, como dizem nossos especialistas em futebol, como não fazer um golzinho sequer contra o quadro peruano, eterno sparring!?

No festival interminável de piadas, muitos humoristas, profissionais ou amadores, compararam o gol de mão ao modo como o presidente interino Michel Temer chegou ao poder em Brasília. Não podemos nos queixar de quem fere a regra do jogo se no Congresso e na política em geral temos uma escória.

Para não dizer que não tocaremos na pelota da seriedade, algumas rápidas reflexões à moda espanhola do tiki-taka:

Neymar Jr., o craque do Barça, ficou revoltado, ontem mesmo desabafou contra a torcida brasileira, sob a desculpa de solidariedade aos seus companheiros de bola: “Foda-se”, disse ele no Twitter. Para publicar tamanha besteira, o jogador precisa antes prestar bons serviços à canarinha. Só Pelé tem moral para isso. O ex-atacante do Santos precisa comer muito feijão com arroz e rebolar mais ainda no terreiro do samba e da existência para propagar tamanha blasfêmia.

O Brasil precisa repensar o seu jogo. Não é catando um boleiro aqui em Madri e outro acolá em Londres, que a seleção volta a ser grande. Além da safra não ser genial, vivemos o pior momento dos nossos treinadores, com raríssimas exceções.

Um técnico estrangeiro, ao estilo “pensador”, faria muito bem. Ouso pensar em um hermano no comando técnico. Seria uma revolução digna de um homem de Rosário, Santa Fé, terra do Che. Meu candidato é Marcelo (“El Loco”) Bielsa. Imagina um argentino reinventando o futebol brasileiro? Até o Mercosul voltaria a ser uma grandiosa ideia, apesar da nova e tacanha ordem nacional que pensa da maneira mais antiga de fazer política, linguagem e modo de vida.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Os machões dançaram –crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões” (ed. Record), entre outros livros.

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