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COLUNA

O namoro e a clandestinidade amorosa

Com a data dos pombinhos à vista, tudo fica mais confuso: vivemos a era dos enrolados

Casal se beija em Curitiba.
Casal se beija em Curitiba. Fotos Públicas

Faz um bom tempo que não se pede mais em namoro como antigamente. No chove-não-molha do amor líquido, está cada vez mais difícil assumir a condição de namorado(a). Com a data dos pombinhos à vista, tudo fica mais confuso ainda. Vivemos a era dos enrolados. Vale até um status novo para rotular essa clandestinidade amorosa no Facebook: fulano está num “relacionamento fala sério!”

Ficância, caso, cacho, escondidinho, chamego, dengo, amancebamento, xodó...

Há quem curta o rolo que não ousa dizer seu nome. Muita gente, porém, não tolera ou põe um limite de tempo — três meses, por exemplo — para o vai ou racha. Muitos leitores escrevem a este cronista do amor louco com uma dúvida recorrente: chamar ou não chamar na chincha o parceiro para definir a parada.

“Não aguento mais homem de Ossanha, como você chama macharada que vacila”, relata R.S., 30, paulista de Araraquara. “E não é pressão por causa da data, detesto a ideia consumista disso tudo”, desabafa.

Homem de Ossanha, personagem do meu último livro de crônicas e contos, é o sujeito que repete o comportamento da música “Canto de Ossanha”, como no lindíssimo afro-samba de Vinícius de Moraes e Baden Powell: “O homem que diz vou/ Não vai!” O cara que provoca, assanha, ameaça consolidar uma história com a moça, mas na hora H cai fora, toma um chá de sumiço.

Desalmada

O que irrita o leitor M.F., 27, do Recife, nesses tempos escorregadios, é o momento em que a sua “ficante” o apresenta, nas rodas de amigo, apenas como um colega qualquer de trabalho. “Fico uma fera. Muitas vezes a gente tem acabado de transar, estamos ainda de cabelos molhados do banho, e a desalmada me trata diante dos outros como se a gente não tivesse nenhuma intimidade”, escreve a este consultor sentimental.

São apenas breves amostras de uma coleção de mensagens recebidas sobre o incômodo. Tratamos, porém, de dois casos concretos, de vida real, com direito a cama, mesa e banho. O pior, como me alertam outros missivistas, são os que se resumem à virtualidade. Histórias que duram meses ou anos. Apenas com sexo virtual — outro sintoma da tal modernidade que vivemos.

O que é um namoro?

A data do dia dos Namorados põe sim uma pressão psicológica na jogada. Não podemos negar. Mesmo para quem diz não estar nem ai para a ocasião. Fico imaginando, contudo, o que precisaria para caracterizar um namoro. Ir ao cinema, jantar juntos e fazer sexo uma vez por semana? Fazer tudo isso e ainda andar de mãos dadas em público?

Muito difícil chegar a definições exatas. Melhor seguir a canção: qualquer maneira de amor vale a pena. Proponho também que seja criado o dia dos Enrolados, assim como o 22 de setembro é dos Amantes.

No que entenderemos, doravante, como enrolados, o amor dos clandestinos corações que preferem não nomear o relacionamento. Alguma sugestão de data no calendário? Pode até se dar ao luxo de comemorar apenas em anos bissextos, que tal 29 de fevereiro? O importante é celebrar o rolo, mesmo que depois, amigo, você seja chamado na chincha, esta belíssima expressão nacional que representa a hora do aperto.

Difícil definir esses status amorosos. Lembro de uma tentativa genial do Veríssimo, nosso cronista-mor:

“Existem outros critérios para diferenciar namorado de amante. Amante é o namorado que leva pijama, por exemplo. Uma maneira certa de saber que namorado já é amante é quando, pela primeira vez, em vez de dar um par de meias para ele no Dia dos Namorados, ela dá um par de cuecas.”

Parabéns pombinhos de todas as classificações.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Os machões dançaram –crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões” (ed. Record), entre outros livros.

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