‘Japonês da Federal’, o ícone da Lava Jato que acabou preso por contrabando

A Justiça negou nesta terça o recurso de Newton Ishii para evitar a prisão decretada em 2003

Newton Ishii, o 'japonês da Federal'.
Newton Ishii, o 'japonês da Federal'.Reprodução

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Ele se tornou o símbolo dos anseios do Brasil pelo fim da corrupção. Era o rosto da operação que promete tirar o país do pântano da desvirtuação de políticos e empresários. Conduzia presos famosos dela, a Lava Jato, como Marcelo Odebrecht e José Dirceu, no emblemático carro preto da Polícia Federal. E agora está preso por corrupção. Newton Ishii, mais conhecido como o japonês da Federal, foi detido em Curitiba na manhã desta quarta-feira por conta da Operação Sucuri, que apura o envolvimento de agentes policiais na entrada de contrabando vindo do Paraguai no país.

O mandado foi expedido pela Vara de Execução Penal Justiça Federal de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, na terça. Ishii já havia sido condenado junto a outros 18 agentes em 2003 a quatro anos e dois meses de prisão, mas ele recorreu à Justiça e perdeu. "O Superior Tribunal de Justiça (STJ) denegou um recurso que nós tínhamos recorrido na semana passada sobre a condenação em Foz do Iguaçu. Ao saber da expedição do mandado de prisão, meu cliente foi avisado e imediatamente se apresentou em Curitiba", disse o advogado dele, Oswaldo de Mello Junior, ao G1. Seu cliente está detido neste momento na Superintendência da PF em Curitiba – o que, segundo o Valor Econômico, preocupa a polícia, já que no mesmo espaço estão investigados presos pelo próprio agente.

Um fato curioso é que Newton Ishii foi citado na própria Operação Lava Jato, da qual ele se tornou uma espécie de intermediário heroico. No áudio gravado de Delcídio do Amaral, que resultou na prisão do senador, seu nome aparece como um possível vazador de informações para a imprensa. A conversa (vazada inicialmente para a revista Isto É) envolvia tratativas com o chefe de gabinete de Delcídio, Diogo Ferreira, o advogado Edson Ribeiro e o filho do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, Bernardo, buscando um plano de fuga para Cerveró, preso na carceragem da PF em Curitiba. A polícia está apurando seu suposto envolvimento.

Também consta que o policial-símbolo visitou a Câmara dos Deputados em fevereiro e andava flertando com a política, inspirado pela tietagem de deputados que pediam para fazer foto com ele. “Convites para se filiar ele tem vários. Mas até a semana que vem deve se decidir se aceita algum. Hoje, ele é um símbolo do combate à corrupção e pode aproveitar esse momento”, afirmou na ocasião ao EL PAÍS Fernando Vicentino, o presidente do sindicato dos policiais federais do Paraná que fez a ponte entre Ishii e parte do mundo político.

Japonês da Federal prende ele mesmo nesta foto-montagem.
Japonês da Federal prende ele mesmo nesta foto-montagem.Reprodução

O advogado também afirmou que o japonês da Federal, cuja fama se espalhou pelo país, chegando a inspirar até marchinhas de carnaval, já cumpriu quatro meses da pena, que serão subtraídos da pena total. Segundo ele, a prisão será cumprida em regime semiaberto. O caso, fartamente comentado nesta quarta em redes sociais, com direito a uma montagem dele prendendo ele mesmo, segue sob segredo de Justiça.

Apoio dos colegas

A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) emitiu uma nota nesta quarta-feira para expressar seu "total apoio" a Newton Ishii. O texto esclarece que sua detenção "surpreendeu a todos, pois o primeiro processo contra ele fora anulado integralmente para posteriormente ser refeito" e que "outros agentes federais envolvidos na Operação Sucuri já tiveram seus processos anulados e outros foram absolvidos por falta de provas".

Além disso, a Fenapef esclareceu que o departamento jurídico do Sindicato dos Policiais Federais do Paraná "está acompanhando de perto o caso para que Newton Ishii seja solto já na próxima semana". Para o presidente da federação, ele "tem sido um ícone do combate à corrupção" e "vem sido punido injustamente há muitos anos".

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