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A verdade sobre Elizabeth Bishop

Volume único reúne toda a prosa da poeta norte-americana: textos autobiográficos, crítica literária e correspondência

Elizabeth Bishop com seu gato Tobias, em 1954.
Elizabeth Bishop com seu gato Tobias, em 1954.

Elizabeth Bishop pertence ao grupo dos excelentes poetas comedidos: publicou apenas 101 poemas –divididos em três livros— em seus 68 anos de vida (1911-1979). No entanto, apesar dessa escassez editorial, angariou uma reputação sólida na poesia norte-americana do século XX, que perdura até os dias de hoje. Uma das coisas que mais emocionam à leitura de sua prosa, agora publicada, é a percepção de sua sincera modéstia em relação aos seus méritos e até mesmo o ataque que promove contra qualquer tipo de vaidade desenfreada ou afetação desmedida, tão presentes naqueles que se consideram poetas. Há uma espécie de ética que envolve todas as pessoas, sejam poetas ou não, e nela residem os comportamentos virtuosos aos quais se deve realmente ater, pois, como dizia G. M. Hopkins, que ela tanto admirava, “ser poeta não é o máximo dos máximos”.

Talvez essa necessidade de manter distância com as egolatrias descontroladas e com os centros de poder literário que as enaltecem (ou não) tenha sido o que a fez morar no Brasil durante 20 anos, embora a causa mais óbvia desse exílio foi seu amor pela brasileira Lota de Macedo Soares, com quem viveu até a morte desta. O romance The more I own you (Quanto mais te devo, publicado na Espanha com o título de Cuanto más te debo, também pela editora Vaso Roto), de Michael Sledge, narra essa peripécia que vai da euforia amorosa do começo até o lento mas inexorável desmoronamento que termina num triste final. Bishop é descrita nesse relato como uma figura frágil e vulnerável que tem de lutar contra o alcoolismo, contra suas dificuldades para escrever e até mesmo contra suas próprias carências afetivas, talvez relacionadas, em última instância, com os pais ausentes desde sempre.

Precisão, espontaneidade, mistério: eis o triângulo daquilo que interessava a Bishop como poeta

As prosas como tais são altamente heterogêneas (e foram maravilhosamente traduzidas para o espanhol): narrativas autobiográficas, crítica literária, correspondência com Anne Stevenson, um curioso guia do Brasil... As narrativas autobiográficas são deliciosas por todas as razões: pela desenvoltura narrativa, pela linguagem sagaz e precisa, pela capacidade de recriar a realidade da região do Canadá –Nova Escócia– onde passou grande parte da infância. Uma circunstância decisiva marca essa etapa de sua vida: perdeu o pai poucos meses depois de nascer e a mãe –internada a vida toda num manicômio– deixou de vê-la a partir dos cinco anos. Essa dupla ausência não manchou suas memórias com obscuras inseguranças ou tenebrosos horizontes: acima da ausência, sempre brilha um sentido pletórico das coisas primordiais que abarrotam seus escritos com uma peculiar luz vitalista. O lado problemático surge de modo às vezes trepidante: “Por que seria eu um ser humano?”, pergunta-se Bishop com o primeiro sinal de autoconsciência, aos sete anos. “Que estranha você é, vista de dentro”, continua dizendo a si mesma. “...Você é você e sempre será você”.

A verdade sobre Elizabeth Bishop

Abandonada a infância, um personagem se destaca acima de todos em sua memória: a amiga poeta Marianne Moore. É absolutamente magnífica a evocação que faz das visitas ao pequeno apartamento desta no Brooklyn, com anedotas curiosíssimas como o fato de Moore gostar muito de beisebol e de assistir aos jogos pela televisão com o porteiro de sua casa (na época ela não ele tinha um aparelho de televisão). Apenas uma mancha ofusca essa recordação: Moore usou num poema seu uma ideia engraçada de Bishop, e o fez sem mencionar a autoria. “Um motivo de ligeiro ressentimento”, diz a poeta discípula, em seu estilo caracteristicamente comedido e austero.

Precisão, espontaneidade, mistério: eis aqui o triângulo do que interessava Bishop como poeta. Em torno dele giram suas valorações, dispersas nos escassos artigos críticos que escreveu. Precisão significa vontade de forma e não vagar pelos ramos ou pelas folhagens vãs. Espontaneidade significa frescor, autenticidade, e mistério significa que numa obra sempre pulse o desconhecido que gera muitos sentidos esquivos. Em função dessa arquitetura teórica Bishop mostra suas predileções: George Herbert, G. M. Hopkins, parte de Emily Dickinson, Rimbaud, Henry James, Baudelaire, Neruda, W. H. Auden, Robert Lowell, Marianne Moore, Hemingway... Ela também se interessou pela poesia brasileira, que traduziu para o inglês, e amou Tchekhov, Isaac Babel, Santa Teresa, Kierkegaard, Simone Weil, sem esquecer sua devoção pintura –Klee, Seurat– e pela música –Anton Webern.

Essas prosas múltiplas de Elizabeth Bishop são acompanhadas constantemente pela finura espiritual, pela acuidade conceitual e por um admirável reconhecimento do que existe como fonte de plenitude existencial, o que faz com que até um pedaço de giz, um quadro-negro e alguns cadernos, ou um relógio, ou alguns lírios, ou uns sapatos se ergam como realidades absolutas para o mistério, com talento de pintor supremo, como Paul Klee, por exemplo.

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