Bob Dylan, 75 anos: a lenda continua na estrada

Músico americano mantém uma projeção invejável e uma carreira imprevisível. Sua única constante é a paixão pelo ao vivo: faz cerca de cem shows por ano

O cantor e compositor norte-americano Bob Dylan.WILLIAM CLAXTON / EL PAÍS VÍDEO

Bob Dylan chega nesta terça-feira aos 75 anos com a cabeça bem erguida. Recebido na Casa Branca, é citado por juízes e filósofos. Acumula reconhecimentos suficientes para se dar ao luxo de ir receber os prêmios... ou não. Até mesmo Duluth, a cidade de Minnesota onde nasceu, promove uma reconciliação com o filho ingrato. E surge até uma nova oportunidade na ficção audiovisual, já que, com patrocínio da Amazon, a produtora Lionsgate prepara uma série baseada na sua obra.

O modus operandi de Dylan não tem nada de normal, mas é amplamente aceito. Desde 1988, ele faz cerca de cem shows por ano. Não age assim por imperativos econômicos, como tantos veteranos da canção, já que os direitos autorais e a participação no lucro dos seus discos lhe permitiriam se aposentar ou dosar suas aparições. Trata-se mesmo de uma opção pessoal: Dylan entende sua existência como uma atualização do ofício do trovador, em perpétuo movimento, mas fechado em sua bolha.

Dylan entende sua existência como uma atualização do ofício do trovado. Faz cem shows por ano

Seu posicionamento inclui também a reinvenção do seu repertório. Nada fez tão mal à sua reputação como os persistentes maus tratos à sua obra ao vivo, agravados por suas carências vocais. Pode-se suspeitar que tampouco Dylan se sinta muito seguro quanto aos seus frutos, já que, após quase trinta anos da sua Never Ending Tour, ele não lançou nem um só álbum gravado ao vivo, apenas singles. Parece haver certo equilíbrio entre as suas misteriosas necessidades criativas e as expectativas do seu público.

Poucos artistas mantêm uma relação tão antagônica com seus primeiros seguidores. Só é possível conceber essa tensão se assumirmos que Dylan foi muito mais que um cantor: nos anos sessenta, carregava a tocha que iluminava a insurgência geracional. Na primeira oportunidade, rejeitou o papel de profeta (algo perfeitamente compreensível, considerando o fim que tiveram Malcolm X, Robert Kennedy e Martin Luther King), o que gerou uma sensação de orfandade entre seus fiéis. Com o tempo, esses discípulos aceitaram a contragosto algumas das suas guinadas: a aproximação com o country, o valor musical dos seus coléricos discos de cristão fundamentalista.

Mas sobra uma ponta de rancor. Felizmente para Dylan, seu rebanho foi se renovando. Incorporaram-se fãs de gerações seguintes, que não compartilham dessa sensação de terem sido traídos nem fazem comparações com o Dylan imperial (1965-66). Livrou-se assim de processos revisionistas: as luminares do feminismo passaram a ignorar seus venenosos retratos das mulheres, tão desprezados nos anos sessenta, enquanto Mick Jagger foi triturado pela misoginia das canções que fazia nessa época.

Dylan alcançou um extraordinário grau de liberdade: move-se nas sombras, restringe as entrevistas, evita se comprometer. Um exemplo de sua ductilidade: o homem que se gabava de ter liquidado o negócio do Tin Pan Alley (a fábrica de standards que nutria crooners e cantoras sentimentais) agora pode se permitir a oferecer sua visão do chamado Grande Cancioneiro Americano.

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Rebobinemos! Em 1985, durante uma entrevista por ocasião do lançamento da caixa Biograph, ele alardeava que “o Tin Pan Alley já não existe mais; eu acabei com aquilo”. Aqueles mestres das letras e melodias cederam ao modelo de Dylan, que primava pela autoexpressão e não reconhecia limites em temos de temática ou linguagem. Essa aposentadoria forçada foi uma catástrofe cultural, mas Bob hoje acena com a bandeira branca, ao lançar sua segunda coletânea de standards, unidos pelo tênue fio de terem sido cantados por Frank Sinatra.

Caprichos de estrela

Esses caprichos foram facilitados por sua decisão, em 2001, de se autoproduzir, sob o pseudônimo de Jack Frost. Eliminava assim sua maior dor de cabeça: os sucessivos choques com produtores que pretendiam modernizá-lo. Acelerava o processo de gravação, aproveitando a disciplinada banda dos seus shows, que entende sua ideia do classicismo sonoro e dos arranjos funcionais. Ainda assim, quando concluiu as sessões de gravação no estúdio da Capitol que se materializariam nos álbuns Shadows in the Night e Fallen Angels, foi à casa de Daniel Lanois para que este escutasse os resultados. Explicou ao produtor canadense que aquelas sofisticadas canções o haviam comovido quando adolescente. Como assim? Não havíamos combinado que ele era um filho do rock and roll revitalizado pelo folk?

Talvez estivesse reincidindo no seu esporte favorito: reescrever sua biografia. Porém, após o primeiro volume de Crônicas, nunca concluiu a sua prometida trilogia autobiográfica. Fez bem: com as atuais ferramentas informáticas, seus “empréstimos” são facilmente detectáveis. Dado o grau de fanatismo que desperta, foi inevitável a descoberta de dezenas de dívidas de Crônicas Vol. 1 com Jack London, Mezz Mezzrow e outras fontes inesperadas (até uma edição da revista Time de 1961!). Na música, seu álibi é aceito; afinal, ele trabalha na tradição folk, onde os achados do passado se reciclam constantemente, embora se espere que o original seja citado. No universo literário, por outro lado, o plágio costuma ser tratado com mais rigor. Mas calma: não há muitas possibilidades de que lhe concedam o Nobel.

MEIO SÉCULO DO TORRENCIAL ‘BLONDE ON BLONDE’

Durante décadas, Dylan fugiu do seu passado. Deixou o campo livre para os piratas, que inundaram o mercado com infinidade de bootlegs. Sua tentativa de parodiar essa obsessão, em Self Portrait, lhe rendeu as piores críticas da sua carreira. Em 1991, seu agente Jeff Rosen o convenceu a competir seriamente nesse terreno e se dedicou a centralizar e enriquecer seu arquivo, acumulando fitas, filmes, fotos e documentos.

Desde então, já saíram 10 maravilhosos volumes da Bootleg Series, além do documentário No Direction Home; apesar de atribuído a Martin Scorsese, o cineasta trabalhou sobre entrevistas previamente realizadas por Rosen.

Dylan não só se desvincula desses projetos como também despreza o marketing moderno e se recusa a publicar versões ampliadas dos seus discos. Completam-se agora 50 anos do torrencial Blonde on Blonde, e não há lançamentos oficiais. A comemoração coube à revista britânica Mojo, que o estampa na sua capa e edita uma recriação de Blonde on Blonde por artistas contemporâneos.

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