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ANÁLISE

Francisco: palavra ou ação?

O papa Bergoglio, envolvido agora na questão da revolução das diaconisas, expõe uma contradição entre aquilo que diz e aquilo que faz

O papa Francisco, na praça de San Pedro do Vaticano o 11 de maio. GIORGIO ONORATI EFE Atlas

O fervor despertado pelo papa Francisco na sociedade contemporânea – mais evidente entre os ateus do que entre os fieis — chega ao extremo de se lhe atribuírem declarações nunca feitas e proezas jamais realizadas.

A ideia seria forçá-lo ou constrangê-lo a cumprir as expectativas de um revolucionário, outorgando, assim, ao conclave do qual ele saiu vitorioso todas as conotações divinas. O primeiro pontífice americano. O primeiro jesuíta. O teólogo da libertação escolhido como antídoto ao conservadorismo de seus antecessores.

É uma narrativa atraente, mas não necessariamente verossímil. E isso fica claro no episódio das “diaconisas”, interpretado pelos exegetas do Papa como o ponto de partida de uma transformação radical que visa a acabar com qualquer discriminação em relação às mulheres.

Não é verdade. O simples fato de que o debate tenha se produzido de forma acidental já fragiliza as expectativas. O papa admitiu criar uma comissão para estudar o papel das diaconisas – elas poderiam oficiar o batismo e os casamentos — apenas a partir da iniciativa de uma representante da União Internacional das Superioras. Nada disso estava previsto e tampouco há garantia de que se instaure um seminário doutrinal, legislativo ou normativo para tanto. Ainda mais no momento em que a inércia da própria comissão levaria inevitavelmente a um conflito sobre o sacerdócio feminino.

Francisco tem conseguido fazer com que a percepção revolucionária de seu pontificado se sobreponha às evidências “materiais”. Que sirva como prova a suposta abertura da comunhão aos divorciados. O Papa se compadeceu deles e reconheceu-os como dignos de receberem a hóstia sagrada, mas, ao mesmo tempo, a exortação apostólica “Amores Laetitia” não introduz nenhuma mudança “legislativa” e atribui aos bispos uma sensibilidade abstrata para atender aos divorciados em seus desconfortos.

A igreja conservadora não gosta de Francisco e a sociedade laica o aprecia, mas a distância existente entre as palavras e as ações de Francisco mostra que as “mudanças históricas” se limitaram ao gestual, à superfície dos grandes debates, ao predomínio da agenda social, até mesmo ao “papulismo”, uma mistura inovadora entre papismo e populismo, em que são visíveis o instinto de Jorge Mario Bergoglio e suas veleidades peronistas.

Aquele momento inicial em que Francisco se perguntava quem era ele para julgar os gays impressionou os crentes e os agnósticos. Mas a resposta acabou ficando muito clara. Em primeiro lugar, ao recusar o embaixador de França na Santa Sé justamente por ter “admitido” a sua condição de homossexual. E, em segundo lugar, ao mobilizar o Vaticano para impedir até onde fosse possível o avanço de uma nova legislação sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Francisco vive cercado de lobos. É visto no Vaticano como um corpo estranho. Mas o fervor popular com que foi ungido às alturas de um líder mundial ainda aguarda a passagem das palavras para as ações.