Trump busca perfil ortodoxo para candidato a vice-presidente

Os dirigentes republicanos veem com maus olhos sua indicação como candidato a presidente

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Depois de fracassar em sua tentativa de barrar Trump, que poucos levavam a sério quando iniciou sua corrida pela indicação republicana há cerca de um ano, o establishment republicano não esconde o desconforto com aquele que será, sem dúvida, o seu representante na eleição daqui a seis meses. Nos últimos dias, os principais dirigentes e lideranças do partido se pronunciaram de uma maneira ou de outra sobre Trump, cuja luta vitoriosa pela indicação se calcou em um populismo que dividiu a sociedade norte-americana em debates sobre temas como imigração e fez tremerem as bases ideológicas dos republicanos.

Os últimos dois presidentes conservadores, George Bush pai e filho, anunciaram que não apoiarão publicamente Trump nas eleições presidenciais, uma batalha que este travará, como já é quase certo, contra a democrata Hillary Clinton. O presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, que ocupa o cargo institucional mais importante dos republicanos hoje em dia, também expressou que não se sente preparado para apoiar o magnata no processo eleitoral. E dirigentes republicanos de origem hispânica se somaram ao coro de vozes que não escondem o seu mal-estar diante daquele que levará a bandeira da candidatura republicana. Trump, no entanto, não recua diante desse movimento interno, que exprime uma dificuldade para acatar aquilo que as bases republicanas decidiram no longo processo das primárias. À medida que sua candidatura ia se tornando incontornável, Trump amenizava os discursos contra o establishment, mas a desconfiança continua sendo colossal. “Creio que os conservadores querem saber se (Trump) compartilha dos nossos valores e nossos princípios. Há uma quantidade muito grande de perguntas cujas respostas os conservadores ainda gostarão de ouvir”, afirmou Paul Ryan.

Lista de vítimas de ataques de Trump no último ano é longa, incluindo hispânicos e mulheres

Disputar eleições com um partido dividido, diante de alguém com a experiência política e a força de Hillary Clinton, poderia ser um suicídio, algo que tanto Trump quanto a elite republicana sabem perfeitamente. A fim de aparar arestas e tentar unificar um partido fraturado pela dura disputa prévia, Ryan convidou Trump para uma reunião com a cúpula do Partido Republicano nesta semana.

Nesse cenário complexo, a escolha do candidato a vice tem um papel relevante. Trump está ciente de que a indicação pode ser importante para se reconciliar com os muitos setores da sociedade norte-americana com os quais se chocou nos últimos meses, começando pelo establishment republicano. Nesse sentido, o magnata nova-iorquino aventou o nome de John Kasich, o governador de Ohio, um político moderado que lutou até a semana passada pela indicação republicana e é bem visto pelo aparato dos conservadores.

FISSURAS À ESQUERDA E À DIREITA

Donald Trump abriu fissuras à esquerda e à direita no Partido Republicano. Seus discursos xenófobos, contra os mexicanos e os muçulmanos, situam-no num terreno muito à direita dos conservadores, já naturalmente partidários da linha-dura com os imigrantes. Esses ataques causaram estragos para os republicanos junto à comunidade hispânica dos Estados Unidos (mais de 50 milhões de pessoas), que majoritariamente rejeita o magnata, segundo as pesquisas dos últimos meses. E chegar às eleições presidenciais tendo contra si a maioria desse eleitorado é uma deficiência que pode ser decisiva no resultado final, algo do que o Grand Old Party está totalmente ciente.

Mas Trump também violou os cânones conservadores pela esquerda. Suas propostas protecionistas colidem com a clássica ideia republicana do livre comércio. Além disso, o magnata se mostrou partidário de elevar os impostos dos mais ricos e aumentar o salário mínimo por hora, um tema que é debatido em todo o país e já foi alvo de legislação em alguns Estados. O fato de um candidato republicano disputar eleições presidenciais propondo aumentar impostos é mais uma amostra de que Trump deixou a política norte-americana de ponta-cabeça.

Mas a lista de afetados por Trump neste último ano é enorme, incluindo hispânicos e mulheres, dois coletivos cujo voto será decisivo nas eleições presidenciais. O senador Marco Rubio, da Flórida, de origem cubana e candidato do establishment até sua demolidora derrota em seu Estado no mês de março, quis conter as especulações de que poderia ser o companheiro de chapa de Trump. "Não o estou procurando, não estou pedindo nada a ele e não vai acontecer", afirmou Rubio.

Outros nomes que circularam são os das governadoras do Novo México, Susana Martínez, e Carolina do Sul, Nikki Haley, uma das principais promessas dos republicanos. Em janeiro, Haley, filha de imigrantes indianos, foi a encarregada de responder a Barack Obama no seu discurso do Estado da União, o que já alimentou especulações de que poderia disputar a vice-presidência. Haley, entretanto, apoiou Rubio nas primárias e também se encontra entre os dirigentes conservadores que questionaram Trump.

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