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Freud: O fantasma da rua Berggasse 19

Psicanálise freudiana não teve o menor efeito na neurociência atual: é outra teoria estéril para a ciência

Ilustração de Ralph Steadman para “Freud” (Libros del Zorro rojo). Ver galeria de fotos
Ilustração de Ralph Steadman para “Freud” (Libros del Zorro rojo).

Se a porta mais real da ficção é 221B de Baker Street, onde Sherlock Holmes atendia seus clientes pitorescos, o mais ficcional da realidade é o 19 da rua Berggasse, onde Sigmund Freud tratou seus próprios pacientes, durante o meio século que mudou o mundo e nossa compreensão dele, e também nosso conhecimento sobre o cérebro e a mente, que em última análise terminou sendo a mesma coisa. Vamos examinar aqui três termos ou conceitos, se quisermos ser pomposos, que estão associados a Freud como as duas metades de um velcro: o significado dos sonhos, o poder do inconsciente e o valor clínico da psicanálise, os três lemas ou slogans freudianos que prometiam abrir um continente à vida intelectual do século XX.

Os sonhos são certamente um tema sexy. Eles não só inspiraram grandes obras literárias e artísticas, mas também hipóteses científicas tão terrenas quanto o anel de benzeno (um avanço essencial da química orgânica, sonhado por Kekule). Freud usou os sonhos como um tipo de droga psicotrópica, uma sonda para acessar as camadas ocultas da mente de seus pacientes, seu pensamento automático e livre de repressão defensiva, o tipo de coisa que lemos no monólogo interior de Joyce. Uma ótima ideia.

Na ciência, no entanto, as ideias são baratas. Por mais brilhante que sejam, só servem se forem corretas: se saírem ilesas de seu confronto com a realidade; e ainda mais, se terminarem sendo frutíferas e conduzirem a novos resultados práticos, e também a novas ideias certas. Aí está a dificuldade real da prática científica: que ela é prática. E é aí que Freud, um dos grandes cérebros da virada do século anterior, derrapa de forma evidente.

Os físicos dizem que há teorias corretas, erradas e “nem mesmo erradas”. Com sua maldade característica, querem destacar assim que a grande maioria das ideias sobre o mundo são perfeitamente inúteis, porque não propõem um modelo que pode ser provado correto ou falso por observação ou experimentação, mas uma divagação tão arbitrária ou confusa que não vale a pena nem se esforçar para refutá-la. A esta categoria pertence a interpretação dos sonhos que Freud publicou há um século ou mais: a das ideias que nem mesmo estão erradas.

Ainda não sabemos o que significam os sonhos. Suspeitamos que não significam nada, mas a neurociência ainda não conseguiu demonstrar. Há indícios de que o cérebro não para quieto à noite, que sua atividade automática continua tentando resolver o que o dia deixou pendente, limpar o mistério, resolver o enigma. Não há nenhum indício, no entanto, de que isso esteja relacionado com a histeria, a psicose ou desejos reprimidos da mente infantil. Eu acredito que a ciência vai conseguir interpretar os sonhos em algum momento não muito distante, mas tenho a forte impressão de que ter desejado sua prima quando era criança não vai ser a explicação. Perguntem novamente daqui a dez anos.

Dos tsunamis de tinta que a psicanálise verteu, poucos mililitros terão sido de ciência. Se Freud levantasse a cabeça e tivesse que viver das citações que os neurocientistas atuais fazem de seus artigos, voltaria ao túmulo morto de fome sem poder pagar a recaída em seus famosos vícios. A psicanálise freudiana não teve nenhum efeito sobre a neurociência atual: é outra teoria estéril para a ciência, mais uma daquelas ideias “nem mesmo erradas” que tanto aborrecem os físicos.

Talvez a grande ideia de Freud é a do subconsciente, e aí sim podemos dizer, com a melhor ciência disponível, que acertou em cheio. Os neurocientistas sabem hoje que a grande maioria da nossa atividade cerebral está ocorrendo continuamente sem que estejamos conscientes disso: que nossa consciência, isso que chamamos o “eu”, não é mais que um passageiro na proa de um transatlântico sem a menor noção de toda a máquina prodigiosa que tem debaixo de seus pés.

Se isso é freudiano, todos somos, amigos, mesmo sem saber.

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