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Presos em uma espiral

A visita do Papa aos refugiados deve mobilizar os Estados da UE

O Papa despede-se em Roma do grupo de refugiados aos que trouxe em seu avião desde a ilha de Lesbos.
O Papa despede-se em Roma do grupo de refugiados aos que trouxe em seu avião desde a ilha de Lesbos.Filippo Monteforte (AP)

Em julho de 2013, o Papa Francisco quis dedicar sua primeira visita como pontífice à ilha italiana de Lampedusa, símbolo do drama terrível da imigração ilegal, que nesse momento cobrava centenas de vidas em naufrágios. Quase três anos depois, o Papa volta novamente a apelar à consciência da Europa com uma visita à ilha grega de Lesbos, novo símbolo do drama dos refugiados, para constatar que o dito em Lampedusa, infelizmente, ainda está em vigor. A Europa contribuiu como ninguém para a “globalização da indiferença” e suas instituições governamentais continuam “anestesiadas frente à dor dos outros”.

Foi a sociedade civil europeia, das ONGs às organizações de base da própria Igreja Católica, e algumas autoridades locais, que se mobilizaram para acolher e ajudar os refugiados, mas esse esforço foi muitas vezes perdido porque colidiu com a parede dos próprios governos que nem fazem, nem deixar fazer. A Espanha é o paradigma desta situação. Muitas cidades, incluindo Madri e Barcelona prepararam dispositivos para acolher refugiados, mas o Governo, que tem direitos exclusivos sobre essa competência, nem acolhe, nem deixa que outros façam isso. É uma vergonha que mais de seis meses após o acordo da UE para distribuir entre os vários países 160.000 refugiados só chegaram na Espanha 18 dos mais de 9.900 que deveria receber.

Nas áreas mais afetadas na Europa, é o trabalho das organizações humanitárias e a colaboração da população que amortece a dor de uma situação desumana. A presença ontem do Papa Francisco em Lesbos, que visitou o centro de refugiados acompanhado pelo patriarca Bartolomeu, líder da Igreja Ortodoxa Grega, e voltou a Roma transportando refugiados em seu próprio avião, se tornou um símbolo da espiral em que se encontra a Europa face ao grande desafio dos refugiados. A União continua sem uma política de asilo comum nem um mecanismo de gestão comunitária da crise.

Bem quando começa a se tornar vigente o acordo entre a UE e a Turquia para deportar a esse país os refugiados que chegarem de forma irregular, os migrantes procuram novas rotas. Depois do fechamento da rota dos Balcãs, há sinais de que está sendo ativada novamente a rota central do Mediterrâneo através da Líbia e do Canal da Sicília, muito mais longa (320 quilômetros de travessia) e perigosa.

Os números não param de crescer. Mais de 18.000 pessoas chegaram à Itália no primeiro trimestre, o dobro que no mesmo período de 2015, e durante toda a semana não pararam os resgates. Estima-se que pode haver mais de 800.000 no território líbio esperando para atravessar. Antecipando um aumento do fluxo para a Itália, a Áustria prepara-se para fechar a fronteira na passagem do Brenner. Mas, neste ponto, está claro que esta não é a solução. A pressão vai continuar. “Viemos para atrair a atenção do mundo”, disse Bergoglio em Lesbos ontem. Aqueles que, confinados, estavam ouvindo precisam de ajuda agora.