Os cubanos se apegam a ‘São Obama’

Ilha passou a atrair mais turistas e eventos desde o anúncio do degelo entre Havana e Washington

Cubanos jogam dominó em uma rua do centro de Havana, nesta semana.
Cubanos jogam dominó em uma rua do centro de Havana, nesta semana.Miguel Pereira

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“Tudo está indo muito rápido. Acho que o Obama vai gostar.” Era o que dizia Álvaro Rivero, de 17 anos, aprendiz de funileiro que aspira a ser dono de uma oficina particular na Cuba do futuro, e que no fim de semana passava o tempo livre no Estádio Latino-Americano, em Havana, vendo as obras que cerca de 100 operários realizavam a toda velocidade. Sentado em um banco azul, com o celular na mão, Álvaro observava o vaivém dos trabalhadores dando os toques finais no campo de jogo dos Industriales, a famosa equipe de beisebol da capital, cenário na próxima terça-feira do histórico jogo entre um combinado da Grande Liga dos Estados Unidos e uma seleção de beisebol cubana. “Isto vai ser a maior coisa da nossa vida”, exclamava o rapaz, torcedor dos Industriales e também fã da Grande Liga. A partida amistosa é parte da programação da visita do presidente dos EUA, Barack Obama, num símbolo das novas relações entre dois países que passaram meio século se odiando mutuamente.

O presidente norte-americano já é chamado por alguns havaneses, inclusive Álvaro, de São Obama. A expressão foi usada até mesmo por um jornalista cubano no título de uma reportagem que noticiava os trabalhos de reforma e embelezamento nos arredores do estádio. “Não é só o estádio; asfaltaram as ruas, pintaram as fachadas, consertaram as luminárias… Tomara que o companheiro Obama volte”, comentava Reina, de 50 anos, no parque em frente ao estádio, onde foi instalado um acesso wi-fi. De lá, Reina e outros cubanos podem nos últimos dias se comunicar via Internet com seus familiares em Miami, outro motivo de regozijo.

“Não é só o estádio; asfaltaram as ruas, pintaram as fachadas, consertaram as luminárias… Tomara que o companheiro Obama volte.”

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A viagem do mandatário norte-americano a Cuba, 78 anos depois da visita do presidente republicano Calvin Collidge, gerou notáveis expectativas dentro e fora da ilha. Em Havana, há vários dias já não há mais vagas nos hotéis para os milhares de jornalistas, agentes de segurança, membros de delegações e outros profissionais ligados à viagem presidencial, sem contar com os envolvidos na preparação do show dos Rolling Stones na cidade, em 25 de março. O Meliá Havana inteiro (397 quartos) foi reservado para a comitiva norte-americana, e 300 das 462 suítes do emblemático Meliá Cohiba ficarão para o time de beisebol dos Tampa Bay Rays e para a imprensa norte-americana.

“Mais de 2.000 turistas de todo o mundo tiveram que ser realojados em Varadero para abrir espaço em Havana”, relatava uma funcionária da agência Cubatur. As 10.000 casas particulares da capital que alugam quartos também já estão totalmente ocupadas, e os bons paladares (restaurantes privados) só irão atender quem tiver reserva.

As 10.000 casas particulares da capital que alugam quartos também já estão totalmente ocupadas, e os bons paladares (restaurantes privados) só irão atender quem tiver reserva

“Estamos superlotados. E isso vai continuar assim depois da visita”, observa um produtor relacionado a outros três grandes eventos em preparação atualmente na cidade: o show dos Stones, que trouxeram 62 contêineres para montar seu palco, numa apresentação para 200.000 cubanos; a rodagem do oitavo episódio da série cinematográfica Velozes e Furiosos, que envolverá mais de 1.000 pessoas na capital cubana – uma das maiores produções já feitas com a participação do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC); e o desfile da grife Chanel, em 3 de maio, que apresentará sua coleção Cruzeiro 2016/17, de moda feminina, no passeio do Prado, um local que os produtores de Velozes e Furiosos também cobiçavam. “Antes ninguém queria vir, agora as pessoas brigam para estar aqui”, comentava um diplomata, que disse ter tido acesso à lista de artistas que uma importante companhia planeja trazer para Cuba, na qual figuram nomes como Sting, Bruce Springsteen e Guns N’Roses.

Não é que Obama tenha feito milagres. Mas, desde 17 de dezembro de 2014, quando ele e Raúl Castro anunciaram o restabelecimento das relações diplomáticas bilaterais, Cuba virou um foco da atenção mundial e entrou na moda. As visitas de dignitários estrangeiros não pararam desde então – incluindo os presidentes da França, François Hollande, e da Áustria, Heinz Fischer –, e celebridades também aderiram à peregrinação – Beyoncé, Mick Jagger, Katy Perry, Paris Hilton e cantor Usher, que se casou no conhecido paladar La Guarida.

Embora a maioria da população não tenha acesso a dólares e não sinta que sua vida vá melhorar, para os empreendedores privados a visita de Obama e a fila de celebridades que chegará em seguida significarão um impulso considerável. Note-se que vários detalhes, como o assento no qual Obama se sentará no Estádio Latino-Americano e a decoração da passarela de Karl Lagerfeld, foram fabricados pela iniciativa privada cubana, que já emprega 30% da população (entre autônomos, cooperativistas e agricultores privados). Em fevereiro, o secretário de Transportes dos EUA, Anthony Foxx, informou em Cuba que as viagens legais de norte-americanos à ilha cresceram 54% desde o anúncio da retomada dos voos diretos, em 14 de fevereiro. Em 2015, mais de 140.000 norte-americanos visitaram a ilha, enquanto o turismo em geral cresceu 17%, chegando à cifra recorde de 3,5 milhões de visitantes. A perspectiva, depois da viagem de São Obama, é que esse número dispare, esgotando os quartos nos hotéis e as mesas nos paladares.

‘RAVE’ GIGANTE NA TRIBUNA ANTI-IMPERIALISTA

Cenário de centenas de protestos contra o imperialismo ianque, a Tribuna Anti-Imperialista José Martí, em Havana, se transformou no último dia 7 em uma gigantesca rave, com a participação de 400.000 adolescentes cubanos. A festa foi comandada pelo trio de música eletrônica Major Lazer, liderado pelo conhecido produtor norte-americano Diplo, que sacudiu o público no Malecón (avenida à beira-mar) em frente à embaixada dos EUA – onde há bastante tempo não se ouvem mais as palavras de ordem contra Washington. "Recentemente teria sido impossível um show assim. Algo começou a mudar", comentou um membro da equipe de segurança.

"Foi uma catarse para essa garotada, que sentiu serem os protagonistas e que Havana era o coração do mundo, que podiam se divertir como em qualquer lugar", afirmou o produtor Fabian Pisani, organizador do evento. Outro grande evento, o Musicahabana, com três dias de música, já está sendo preparado para depois do histórico show dos Stones.

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