Irã condena à morte empresário que ajudou o país a evitar as sanções

Zanjani colaborou com o Governo de Ahmadinejad para exportar petróleo

Zanjani no tribunal de Teerã, em novembro.
Zanjani no tribunal de Teerã, em novembro.HEMAT KHAHI (EFE)

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O multimilionário iraniano Babak Zanjani e outros dois acusados foram condenados à morte no domingo, segundo o porta-voz do Poder Judicial, Gholam-Hosein Mohseni-Ejei, citado pela agência IRNA. Os três também terão de devolver os 2 bilhões de euros (8,25 bilhões de reais) que o Ministério do Petróleo exige de Zanjani como resultado das transações de petróleo não oficiais com as quais burlava as sanções internacionais impostas ao Irã por seu programa nuclear. O caso por corrupção e apropriação indébita contra o polêmico intermediário, por suas implicações políticas, se transformou em um julgamento da gestão de Ahmadinejad, em cujo mandato ocorreram os desvios econômicos agora punidos.

“Babak Zanjani e outros dois acusados foram declarados culpados de corrupção na terra e condenados à morte”, anunciou Mohseni-Ejei. Os condenados podem recorrer da sentença.

A acusação de “corrupção na terra”, uma figura da lei islâmica (fasad fil arz) de difícil tradução, é o maior crime do código penal iraniano. São as pessoas, não crentes e que se afastaram do caminho do islã, que ameaçam a paz social e política.

Zanjani, de 41 anos, foi preso no final de 2013, poucos meses depois da chegada de Hassan Rohani à presidência e de ser acusado de corrupção por vários deputados, que pediram a investigação de suas atividades financeiras em uma carta dirigida aos responsáveis dos três poderes. Sua espetacular carreira, de motorista do presidente do Banco Central em 1999 quando ao que parece começou seus negócios no câmbio monetário até se transformar em um dos homens mais ricos do Irã, incomodou muita gente.

“Pela minha cooperação [com o Governo] minhas empresas enfrentaram sanções”, disse um desafiante Zanjani durante sua declaração no tribunal em outubro. “Sou um gênio econômico... a pena de morte não me assusta. Eu ajudei meu país”.

O empresário, na lista negra dos EUA e da UE por ter ajudado o Governo de Ahmadinejad a escapar das sanções, possuía desde 2010 acordos petrolíferos multimilionários através de uma rede de empresas que se estendiam da Turquia à Malásia. No momento de sua prisão, um porta-voz judicial disse que “recebia petróleo e outros carregamentos e não devolveu os recursos”. Segundo a promotoria, ele devia ao Estado 2 bilhões de euros pelo petróleo vendido em nome da Companhia Nacional de Petróleo do Irã (NIOC).

O próprio Zanjani, cuja fortuna chegou a ser estimada em 12 bilhões de euros (49,50 bilhões de reais) antes de ter as empresas confiscadas, entre elas uma companhia aérea, admitiu que devia um bilhão de euros (4,12 bilhões de reais) ao Governo, mas afirmava que não poderia devolver o dinheiro por conta das sanções internacionais. O veterano jornalista iraniano Ebrahim Nabavi, o chamou de “o Ahmadinejad da economia” e o acusou de seguir o exemplo do ex-presidente por sua vaidade e forma de evitar as perguntas.

Mas o caso Zanjani vai além da apropriação indébita e da lavagem de dinheiro pelas quais ele e seus dois sócios foram condenados. O processo, que de maneira incomum se tornou público, tem muito a ver com uma mudança de atitude na sociedade iraniana graças às grandes fortunas fruto mais das conexões políticas do que da iniciativa empresarial, um fenômeno que se generalizou durante os oito anos de Governo de Ahmadinejad. De fato, não é o primeiro multimilionário condenado à morte. Em maio de 2014 foram executados o empresário Mahafarid Amir-Khosravi e três de seus assessores por apropriação indébita, lavagem de dinheiro e subornos.

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