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Encontro bizarro

Sánchez e Rajoy atestam o fracasso de uma reunião que ambos sabiam inútil

Mariano Rajoy e Pedro Sánchez, antes de seu breve encontro em uma sala do Congresso.
Mariano Rajoy e Pedro Sánchez, antes de seu breve encontro em uma sala do Congresso.GERARD JULIEN (AFP)

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Os pequenos cálculos táticos dos dois principais partidos produziram na sexta-feira uma reunião tão absurda quanto extravagante. Pedro Sánchez convocou o líder do Partido Popular com a firme vontade de não chegar a acordo algum com ele. E Mariano Rajoy, que confessou ter ido sem saber para quê, até deixou no ar a mão estendida de Pedro Sánchez (embora o líder socialista tenha dito depois que Rajoy não o tinha visto e que haviam apertado as mãos em particular).

Sánchez não parece compreender o que significa negociar apoios para uma investidura. Sua tarefa não é a de atuar como um chefe de Estado extra, chamando para consultas os grupos representados no Parlamento. O trabalho de um candidato à presidência do Governo consiste em negociar apoios ou abstenções; portanto carece de sentido sentar-se com o dirigente de um partido que não conta no esquema da aliança que tenta construir.

E o que dizer do espetáculo protagonizado por Mariano Rajoy, que está há quase oito semanas inativo do ponto de vista da formação do Governo, perdido no estranho jogo de declinar a investidura que o Rei lhe propõe e garantir depois que mantém sua possibilidade de continuar em La Moncloa. Não negociou apoios à sua proposta de “grande coalizão”, nem se preocupou em esclarecer o projeto do PP, a menos que tenhamos de considerar como tal a obviedade de um “pacto pela unidade da Espanha” em uma reunião na qual, de acordo com ele mesmo, nem sequer se falou da Catalunha. Líder de um partido asfixiado pela corrupção, Rajoy foi capaz de dizer que se alguém tem “alguma ideia” sobre como combatê-la, está disposto a ouvir: não zombe de nós, presidente, faça-nos esse favor.

O desacordo tem consequências. Sem a participação do PP é impossível abordar a reforma constitucional, dadas as maiorias qualificadas que a operação requer no Congresso e no Senado, este último dominado pelo PP. O PSOE não tem possibilidade alguma de cumprir um dos pontos mais importantes de seu programa eleitoral enquanto mantiver o cordão sanitário em torno da minoria mais votada. A pretensão de Sánchez de excluir o PP da fórmula de governo, mas pedir-lhe para colaborar com a reforma constitucional é outra das improvisações destinadas a justificar uma reunião na qual, segundo os protagonistas, quase não se mencionou esse ponto.

A alta participação e a atmosfera de normalidade democrática que caracterizaram as eleições de 20 de dezembro contrastam com a desastrosa administração de seus resultados pelos principais atores políticos. Uma cultura da aliança não implica apenas uma atitude menos sectária, mas trabalhar uma maior superfície de acordo entre eles. Não se pode lidar com as negociações para a formação do Governo pensando o tempo todo em fazer campanha pela realização de novas eleições ou no que convém a cada líder para se manter à frente de seus respectivos partidos. Trata-se aqui de formar um Governo e dotá-lo de um programa. Politicamente, encenar um encontro entre dois dirigentes que ambos sabiam condenado ao fracasso foi um ato bizarro.