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Mergulho no doloroso mar da memória chilena

Retrospectiva da obra do premiado documentarista Patricio Guzmán está em cartaz em São Paulo

Programação inclui workshop com diretor, filmes clássicos e o mais recente ‘O botão de pérola’

O cineasta chileno Patricio Guzmán roda 'O botão de pérola'.
O cineasta chileno Patricio Guzmán roda 'O botão de pérola'.

Dois mundos coabitam o seu interior. Patricio Guzmán (Santiago do Chile, 1941) vive com um pé no passado e outro no futuro, com parte do seu corpo e sua mente no Chile, onde nasceu, e outra parte em Paris, onde vive há décadas. "Meu tema é o passado. Apesar de viver fora há décadas, eu me sinto preso à história chilena, sem querer ocultar o passado doloroso. Embora seja um otimista", confessou o veterano documentarista ao EL PAÍS no ano passado. O cineasta que viveu na linha de frente o golpe de estado contra o presidente Salvador Allende e que teve que fugir do seu país durante a cruel ditadura de Augusto Pinochet agora está em São Paulo para ministrar um workshop e acompanhar uma mostra retrospectiva da sua obra até 18 de outubro.

Com o passar dos anos, a dor não foi embora. Mas mudou a maneira de contar esses sentimentos. A mostra de São Paulo inclui desde seus primeiros filmes a O botão de pérola, de 2015. Se alguns anos atrás Guzmán deixou boquiabertos os espectadores de Nostalgia da luz, o documentário em que aprofundou o deserto do norte do seu país e as atrocidades de Pinochet, no filme mais recente o cineasta gira para o sul, para as águas quase congeladas de uma zona remota que se converte no marco inicial do documentário, que ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim de 2015.

Um fotograma de 'O botão de pérola'.
Um fotograma de 'O botão de pérola'.

O cineasta lembra como começou o trabalho: "Nesse local, os militares lançaram mais de 2.000 pessoas ao mar. Estudei muito a água como elemento do mundo. Em todos os micro-organismos, há quase 80% de água. O próprio planeta está dominado pela água. E tudo isso, que parece abstrato, me fascinou. Queria escrever sobre algo relacionado com a água porque o Chile tem 5.000 quilômetros de costa". Um Chile que, na sua opinião, não melhora: "Como país, está piorando. Não há sindicatos, a mulher é maltratada, o Exército domina a partir da escuridão, a Constituição tem elementos absurdos... o Chile é absurdo. Não sabe para onde vai. É sua constante e, ao mesmo tempo, sua morte". Confia apenas na juventude, que parece querer saber o que aconteceu, que luta contra os silêncios. "Há coisas positivas em nosso país, mas levará tempo para acontecer a mudança necessária". O cineasta para, medita, e continua: "E tudo isso deu início a um filme mágico e, ao mesmo tempo, sem sentido, que me levou sozinho... Essa combinação me fascina".

Guzmán dirige como fala, de forma pausada, clara, entra e sai dos temas ao mesmo tempo, encontrando nexos de conexão onde outros pensariam não haver nada. "Demoramos três anos para fazer O botão de pérola, com uma equipe jovem, de quatro pessoas. Efetivamente, é a segunda parte de uma trilogia [como sua obra-prima, A batalha do Chile, sobre o golpe contra Allende e a ditadura Pinochet]. Falta a Cordilheira dos Andes, uma muralha onde vivem muitas pessoas e que define o Chile como país: não pode ser atravessada a pé. Você vive ao lado de um muro". Ainda teremos que esperar pela terceira parte. Agora, o assunto é O botão de pérola: "Gosto muito das culturas do sul do Chile. Não sabemos nada de três ou quatro culturas que existiam ali porque foram todos mortos. Sobraram apenas os mapuches, que testemunham a existência dos outros... E também possuímos as fotos tiradas pelos colonizadores alemães". Pouco a pouco, a narrativa vai desses povos desaparecidos aos mortos por Pinochet, a tudo que a água cobre.

Como criador, renega a objetividade do formato sobre o qual fez sua carreira: "O que mais gosto do documentário é sua enorme subjetividade. Você pode fazer o que quiser e dizer o que quiser, se o fizer como autor. Quase todos os documentaristas de hoje o usam". O que não quer dizer que compartilhe a ideia de que o "documentário é um intruso da história". "Isso me deixa muito nervoso. No fim, eu faço o meu. E sinto que o meu é o Chile, embora saiba que jamais voltarei a viver lá. Vivo em um lugar que não é meu, nem de ninguém. Passo dias na Espanha e me sinto bem. Vivo na França e me sinto bem também. O importante é sua cabeça. Todos somos um pouco exilados, isso é muito bom, porque, assim, você conhece outros mundos". O diretor reconhece que sua casa francesa é muito chilena. "Na verdade, é muito chilena no sentido de que eu lembro meu país". Agora, deve começar a terceira parte, a dos Andes. "Não posso deixá-los de lado. De verdade, não consigo".

A programação da mostra retrospectiva da obra do chileno

Alguns dos filmes de Guzmán em cartaz na mostra. Veja a programação completa, que vai até o dia 18, aqui.

CAIXA Belas Artes

DIA 13, às 16h30

A Batalha do Chile - parte I (Chile, 1975 / 90 min / documentário / 12 anos) - Dividido em três partes, retrata o Governo Allende no Chile e o golpe de 1973. A primeira parte da trilogia é sobre o clima pré-golpe

DIA 13, às 19h

A Batalha do Chile - parte II (Chile, 1976 / 88 min / documentário / 12 anos) - Segunda parte se detém na disputa entre legalistas e golpistas.

DIA 14, às 19h

A Batalha do Chile - parte III (1979 / 80 min / documentário / 12 anos) - A terceira parta da trilogia volta ao Governo Allende, agora com a lente voltada para os trabalhadores.

DIA 15

O Botão de Pérola (2015 / 82 min / documentário / 12 anos)  - A história de  dois botões encontrados no fundo do mar chileno. Um mergulho na paisagem com os índios Mapuche e os ecos dos prisioneiros da ditadura Pinochet.

Cine Sesc

DIA 16

Às 18h bate-papo com diretor e lançamento do livro Filmar o que não se vê. Às 20h exibições dos filmes. Grátis.

Chile, a Memória Obstinada (Chile, 1997, 59 min, 12 anos). Patrício Guzmán volta a Santiago para reencontrar as personagens de "A Batalha do Chile", filmado 23 anos antes.

Chile, Uma Galáxia de Problemas (Chile, 2010, 32 min. 14 anos) Anos mais tarde, Guzmán volta a entrevistar sociólogos, arquitetos, jornalistas, militares historiadores, entre outros, para fazer-lhes a mesma pergunta: “Por que no Chile se esquece tanto?” Os resultados são muito diferentes dos de 1997.

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