Os ‘caça-mosquito’ brasileiros lutam contra o tempo de casa em casa

Agentes buscam focos do mosquito que transmite zika em rotina que inclui até escolta de traficantes

Mirley e o soldado do Exército, Jacinto, em São Paulo.
Mirley e o soldado do Exército, Jacinto, em São Paulo.Andre Penner (AP)

Mirley tem que evitar isso. E rápido. Em fevereiro as chuvas começam a aumentar e a mistura de água e calor dará ao mosquito mais condições para se proliferar. É quando o pico da epidemia de dengue geralmente se aproxima. E, desta vez, a doença que já circula há décadas no Brasil pode vir acompanhada de surtos de zika, o vírus que, segundo especialistas, causa a microcefalia, uma malformação fetal que desde outubro do ano passado pode ter atingido 3.448 bebês.

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No jardim de uma fábrica, ela se aproxima de uma bromélia. Saca com uma pipeta um pouco da água acumulada dentre as pétalas e acha, finalmente, uma larvinha. “Olha aqui, ó”, mostra, vitoriosa. “Uma bem pequenininha”. A auxiliar de serviços gerais, Claudia Ferreira, ri. “Pois eu não disse que aqui tem foco? Sempre que estou limpando fico toda picada”, conta. No ano passado, Claudia teve dengue, assim como outro funcionário da empresa. “Acho melhor vocês tirarem essa planta”, aconselha Mirley. “Se tiver um facão, arranca logo!”, brinca.

A agente trabalha junto a uma tropa de 2.500 pessoas da Prefeitura, todos com a mesma obrigação de ter um olhar atento para caçar o futuro mosquito. Mas o trabalho, no último ano, deu pouco resultado. O Aedes conseguiu se espalhar e provocou uma epidemia recorde de casos de dengue. Com o alarme provocado pelo zika, o grupo ganhou a ajuda de um Exército de verdade. Homens das Forças Armadas agora acompanham esses agentes pelas ruas. Jacinto, um soldado de 20 anos, é o novo companheiro de Mirley. Ele fala pouco, mas está ali para tentar evitar que os moradores recusem a entrada dos funcionários da Prefeitura em suas casas.

“Muitos desconfiam, não deixam que a gente entre por medo”, conta Mirley. No ano passado, ladrões roubaram os coletes azuis de alguns agentes para anunciar uma falsa ação contra o Aedes e assaltar as famílias, conta ela. A Secretaria da Saúde não confirmou essa informação. “Isso circulou entre as pessoas e criou uma resistência. Tem gente que acha que estamos mentindo e quando vê o Exército ganha confiança.” Naquela tarde, a presença do soldado funcionou em quase todos os casos. Menos em um. Em meio a um sorriso desconfortável, um morador afirmou que já tinha checado toda a casa ele mesmo. A única coisa que Mirley pode fazer foi anotar na prancheta a recusa. Uma nova tentativa terá de ser feita depois.

Larvas do 'Aedes aegypti' vistas em laboratório.
Larvas do 'Aedes aegypti' vistas em laboratório.JOSUE DECAVELE (REUTERS)

O trabalho de combate ao mosquito é difícil porque precisa ser feito em cada uma das casas. Sem exceção. Quem faz tudo certinho pode ser picado pelo mosquito criado pelo vizinho descuidado. Foi o que aconteceu com a professora Luana Honorato, de 31 anos. Na metade do ano passado, ela e a mãe tiveram dengue. O dono da casa ao lado deixou plantas abandonadas no imóvel quando mudou. “Tive muita dor, muitas marcas vermelhas no corpo que coçavam muito”, conta. “Pensava em engravidar outra vez, mas agora fico com medo. Uma grávida já tem tanta coisa com que se preocupar e agora esse zika?”.

Benção do tráfico

Se o zika trouxe algo de positivo ao Brasil foi justamente o reforço nas ações contra o Aedes aegypti. O mosquito já transmite há décadas, livremente, a dengue, uma doença que em alguns casos evolui para uma hemorragia fatal.

O país, entretanto, ainda precisa achar uma forma de resolver um problema comum, que atrapalha o trabalho dos agentes cotidianamente: a dificuldade de entrar em áreas dominadas pelo tráfico de drogas, que são grandes bolsões de pobreza onde o mosquito encontra mais facilidade para se proliferar. Em muitos desses locais, não há água encanada, e ela tem que ser acumulada em baldes; as casas também são muito próximas e abrigam famílias numerosas, o que facilita que a doença chegue a mais gente. Por lei, os homens do Exército não podem reagir caso sofram um ataque em área civil, por isso não serão empregados na segurança dos agentes nas favelas.

E no dia a dia desses trabalhadores, ter de negociar com traficantes a entrada nesses locais não é algo incomum. Mirley, certa vez, teve que fazer a ação escoltada por homens do tráfico armados. Eles queriam ter certeza de que não se tratava de uma ação policial disfarçada. Sua equipe nunca mais voltou.

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