Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Governo cita queda no ritmo de notificação de casos de microcefalia

Novo boletim descarta parte dos 4.180 casos suspeitos registrados até o momento

Médica do Recife com bebê com microcefalia.
Médica do Recife com bebê com microcefalia. Getty Images

Após descartar 462 casos suspeitos de microcefalia, o Brasil reduziu pela primeira vez o número de casos da condição que estão sob investigação. Nesta quarta-feira, o Ministério da Saúde também afirmou que há uma tendência de queda no número de casos notificados pelos Estados. Na semana anterior, o aumento foi de 10% e, nesta, de 7%.

Como se verifica a microcefalia

Para ser considerado um caso suspeito de microcefalia, o tamanho da cabeça do bebê tem que ser menor do que 32 centímetros. No caso de bebês prematuros, a medida é feita com base em um cálculo mais complexo, que leva em consideração o peso da criança. A medição inicial é feita pelo próprio obstetra, depois do parto, e notificada online para o Ministério da Saúde por meio de um formulário chamado Registro de Eventos em Saúde Pública (RESP) –neste momento, já entra para a lista de casos “suspeitos”. A confirmação ou o descarte dos casos acontece depois, pelas próprias secretariais municipais e estaduais, que conferem a medição.

Essa tendência era de certa forma esperada, já que os casos, segundo especialistas, têm relação com a infecção pelo zika vírus, uma doença causada pela picada do mosquito Aedes aegypti. Como o mosquito circula com mais frequência entre os meses de fevereiro e abril, os bebês nascidos em janeiro foram concebidos no final do pico de surto da doença. O país trabalha agora para evitar que o Aedes se prolifere com força a partir de fevereiro deste ano e cause um novo rebote de aumento de microcefalia daqui a nove meses.

“O aumento dos casos suspeitos notificados nesta última semana foi inferior, se comparado a semanas anteriores. O crescimento dos casos notificados foi de 7%, com relação ao boletim do dia 20 de janeiro. Já a quantidade de casos descartados, no mesmo período, cresceu 63%”, ressaltou em nota Cláudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

Pelos dados do novo boletim epidemiológico, 3.448 casos suspeitos de microcefalia estão sendo investigados no momento entre os 4.180 notificados entre 22 de outubro e 20 de janeiro de 2016. Desses 732 casos que saíram da lista de suspeitos, 270 tiveram a microcefalia confirmada, e outros 462 foram descartados. Entre os confirmados, apenas em seis deles se confirmou a relação com o zika vírus, algo difícil de fazer porque o exame que confirma a infecção tem que ter sido feito no momento em que a gestante apresentou os sintomas.

Entre os descartados, verificou-se que a medição do perímetro cefálico feita após o nascimento dos bebês não correspondia à microcefalia. Também houve casos em que os exames mostraram que não havia sinais de infecção e a microcefalia poderia ser de origem genética ou causada pelo consumo de drogas, por exemplo.

Ação nas Olimpíadas

A presidenta Dilma Rousseff, que está em Quito (Equador), afirmou nesta terça que o país começará “um verdadeiro combate” ao vírus zika. "Se ainda hoje nós não temos uma vacina, temos certeza de que iremos ter, mas vai levar um tempo. A melhor vacina contra o vírus da zika é o combate de cada um de nós, do Governo, mas também da sociedade, eliminando todos os focos nos quais o mosquito vive e se reproduz", relatou a rede BBC. O país colocará nos próximos dias 220.000 soldados do Exército nas ruas para ajudar no combate ao Aedes aegypti, que transmite o vírus.

Nos últimos dias, as ações do Governo contra o mosquito têm sido criticadas pelo próprio Ministro da Saúde, Marcelo Castro. Ele afirmou que o país está perdendo a “guerra” contra o mosquito, numa declaração que gerou mal-estar no Governo.

Com medo do impacto que os casos de microcefalia podem ter nas Olimpíadas de 2016, o Governo de Rousseff afirmou que o Rio de Janeiro, sede dos jogos, será o centro de estratégias das ações contra o mosquito, afirmou o jornal O Globo. O Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) recomendou que as grávidas evitem visitar países onde há infecção pelo zika, entre eles o Brasil, o que pode ter um grande impacto na presença de turistas nos jogos. Em 2014, ano de Copa do Mundo, mais de 6,4 milhões de estrangeiros visitaram o país, segundo os últimos dados consolidados do Ministério do Turismo – 657.000 deles eram dos Estados Unidos. As recomendações do CDC costumam ser referência para viajantes do mundo inteiro.

O Comitê Organizador do Jogos afirmou que os locais do evento serão inspecionados diariamente para garantir que não haja poças de água limpa parada, local onde o mosquito se reproduz. E que seguirá as medidas de prevenção e controle do vírus que forem fornecidas pelo ministério. Os Jogos acontecem em agosto, mês em que chove menos no país e, por isso, os focos de reprodução do mosquito diminuem, o que pode trabalhar favoravelmente ao evento.

Dados de microcefalia de SP continuam incompletos

O Estado de São Paulo continuou a aparecer, neste boletim, com dados menores de casos suspeitos de microcefalia do que registrou de fato. Ao contrário do que fazem outros Estados, a Secretaria Estadual da Saúde repassa para o boletim do ministério apenas casos em que a mãe do bebê pode ter contraído zika. Assim, aparece com apenas 18 casos. Mas dados obtidos pelo EL PAÍS e revelados na última terça mostram que existiram 210 casos de microcefalia no Estado em 2015, 159 deles apenas em novembro e dezembro – em média, eram registrados cerca de 40 casos por ano.

Pernambuco, Paraíba e Bahia, por exemplo, que notificam todos os casos de microcefalia, mesmo quando não existe nenhum sinal de relação com o zika, aparecem no boletim com números mais altos: 1.125, 497 e 471, respectivamente. O correto, segundo o ministério, é notificar todos os casos, como fazem os três Estados do Nordeste, especialmente porque em 80% dos casos um paciente que teve zika não sabe, pois não manifestou qualquer sintoma. Além disso, são procuradas outras causas que possam estar promovendo a epidemia, especialmente infecções como sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes viral. São Paulo diz que todos os 210 casos são investigados.

Mesmo depois de o Ministério reforçar a orientação de que se notifique todos os casos suspeitos de microcefalia, na semana passada, o número de casos de São Paulo no boletim permaneceu o mesmo nesta semana. "Cabe esclarecer que o Ministério da Saúde está investigando todos os casos de microcefalia ou malformações informados pelos Estados, e a possível relação com o vírus zika e outras infecções congênitas. A microcefalia pode ter como causa diversos agentes infecciosos além do zika, como sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes viral", destacou o ministério no novo boletim.

A falta de informação completa dos Estados pode ser prejudicial para formar o quadro da situação epidemiológica do país e estabelecer melhor as causas que podem ter levado ao aumento da malformação.

MAIS INFORMAÇÕES